Edição 1829 . 19 de novembro de 2003

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Música
Do jeito de Paul

A nova versão do disco Let It Be foi feita
à imagem e semelhança de McCartney


Sérgio Martins


Divulgação
Os Beatles, em 1970: no novo disco, as faixas são mais despojadas

Compare as versões de algumas faixas do álbum Let It Be

Ainda que tenha rendido dois dos maiores sucessos dos Beatles, a faixa-título e The Long and Winding Road, o disco Let It Be sempre foi considerado um filho ilegítimo da banda. Na época do lançamento, em 1970, o quarteto já se havia separado. Como não conseguiam superar as diferenças e reunir-se para finalizar o álbum, coube ao produtor americano Phil Spector realizar esse trabalho. Ninguém ficou satisfeito. John Lennon, o mais irônico, dizia que "não vomitou" ao ouvir o disco. Paul McCartney, o mais indignado, detestava os arranjos suntuosos. Nesta semana, uma nova versão do álbum chega às lojas, com o título Let It Be... Naked. Dez faixas do disco original, e ainda Don't Let Me Down, antes lançada somente em compacto, ressurgem desprovidas das orquestrações e coros. Sumiram até mesmo as vinhetas e comentários que antes entremeavam as faixas – Let It Be... Naked traz 23 minutos de conversa entre John, Paul, Ringo e George, mas num CD à parte. Seria esse o álbum que os Beatles queriam?

Quando começaram a pensar em Let It Be, os Beatles tinham o propósito de retornar ao processo de gravação de seu primeiro disco, Please Please Me. Eles tocariam juntos, deixariam o gravador rolar e lançariam o resultado sem edição. A sessão única de gravação nunca ocorreu e, na hora de montar o disco, o que existia era o farto material que Spector remanejou. Let It Be... Naked parece adotar a filosofia do despojamento que os Beatles desejavam a princípio. Só que não é bem assim. Para citar um exemplo: I Me Mine é uma composição curtíssima que foi bastante aumentada por Spector – e continua aumentada agora, em vez de voltar às dimensões originais. Mais do que o disco sonhado pela banda, Let It Be... Naked parece ser o disco sonhado por um beatle em particular: Paul McCartney, o principal remanescente do grupo depois da morte de Lennon e Harrison (Ringo Starr, como é notório, nunca mandou). Os resultados são desiguais. A nova versão contida de The Long and Winding Road é mais tocante que na versão derramada de 1970. Já faixas como Across the Universe, "despidas", perderam um tanto da graça. Os fãs vão dar um veredicto. O dos Beatles, não se saberá.

 

 
 
 
 
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