Edição 1829 . 19 de novembro de 2003

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Cinema
A taça é deles

O Casseta & Planeta satiriza a ditadura
militar numa passagem afinada da televisão
para o cinema


Isabela Boscov


Fotos divulgação
Guerrilheiros (acima) contra militares (abaixo): deboche aplicado a um tema até aqui intocável

Trailer do filme

É reconfortante assistir ao Casseta & Planeta, Urgente! todas as semanas e saber que há pelo menos dois pontos a que o grupo se mantém fiel: primeiro, não existe piada indigna desse nome; segundo, nada é sagrado. Daí Casseta & Planeta – A Taça do Mundo É Nossa (Brasil, 2003) não se furtar a todos aqueles trocadilhos infames que a garotada começa a descobrir lá pela 2ª série. E daí também o filme, que estréia nesta sexta-feira no país, satirizar o período mais negro, e até aqui intocável, da história brasileira recente – os anos do regime militar. É 1970, a seleção acabou de conquistar o tricampeonato ("uma espécie de penta daquela época", explica o texto de abertura), e militantes como Wladimir Illitch Stalin Tsé Tung Guevara – nome de guerra de Frederico Eugênio, ou Bussunda com uma barba meia-oito – se empenham em derrubar a ditadura. Por causa de uma confusão numa churrascaria, Frederico se alia ao vegetariano Denilson (Helio de La Peña) e ao cantor jovem-guarda Peixoto Carlos (Hubert) numa ação ambiciosa: roubar a taça Jules Rimet, e assim desmoralizar a manipulação política da vitória. O general Mirandinha (Claudio Manoel) é obrigado por sua mulher, a temível Dolores (Marcelo Madureira), a organizar a captura dos terroristas. Atrapalhando seu já fraco desempenho estão um general linha-dura (Beto Silva) e Lucy Ellen (Maria Paula), a desinibida filha de Mirandinha, que se apaixona por Frederico. Enquanto o Exército nunca consegue localizar os militantes, a mãe do guerrilheiro (Reinaldo) não tem nenhuma dificuldade em fazê-lo: nos esconderijos ou na selva, ela sempre aparece com casaquinhos bordados com uma foice e um martelo, para seu filho não se resfriar.

Há um mundo de referências em A Taça do Mundo É Nossa, e boa parte delas vem das notas de rodapé do período. Lucy Ellen, por exemplo, obviamente brinca com Amália Lucy, a filha do general Ernesto Geisel que a certa altura traiu sua admiração pelas canções de Chico Buarque e virou tema de uma delas, a do célebre refrão "você não gosta de mim, mas sua filha gosta". E, se não é necessário dominar essas referências para aproveitar o filme, ele rende o dobro para quem as conhece – mais ou menos como acontece com os assuntos do momento de que o grupo trata em seu programa.

A Taça do Mundo É Nossa exercita alguns novos talentos do Casseta & Planeta. Habituado a trabalhar em forma de esquete, o septeto se mostra aqui capaz de sustentar um mesmo tema pela duração de um filme. E, ainda que parte das gagues fique pelo meio do caminho, outras já nascem antológicas, como o balé dos militares, o corretor de imóveis especializado em "aparelhos" para grupos de esquerda e os falsos créditos finais, em que um Luiz Inácio da Silva aparece como continuísta. Mais notável ainda é que, na transposição para o cinema, o grupo não tenha elevado o teor habitual de baixaria nem tenha ficado restrito à linguagem televisiva, como vem sendo regra nesses casos. Dirigido por Lula Buarque de Hollanda, da Conspiração Filmes, A Taça do Mundo É Nossa é, em certos momentos, um primor de reconstituição de época, e quase sempre aspira a funcionar como cinema, e não como mera adaptação de um sucesso da TV.

A julgar pelo sucesso de Os Normais, que fez quase 2 milhões de espectadores em três semanas, A Taça do Mundo É Nossa tem uma bela carreira pela frente, e deve reforçar – como se fosse preciso – a liderança no mercado de sua co-produtora, a Globo Filmes. Neste ano, o braço cinematográfico da corporação ficou com 92% dos ingressos vendidos para filmes nacionais, com títulos tão diversos quanto Carandiru, O Homem que Copiava, Lisbela e o Prisioneiro, Os Normais e Maria, Mãe do Filho de Deus. Ainda que esse casamento entre televisão e cinema seja considerado nefasto por alguns, é em boa medida ele o responsável pela concretização da meta que os cineastas da chamada "retomada" se haviam proposto: estabelecer uma indústria cinematográfica sólida e rentável, que se sustente, e aos profissionais da área, por seus próprios meios. Com A Taça do Mundo É Nossa, portanto, o pessoal do Casseta & Planeta deve acrescentar à sua folha de bons serviços prestados ao humor também uma contribuição à produção nacional.

 
 
 
 
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