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Cinema
A
taça é deles
O
Casseta & Planeta satiriza a ditadura
militar numa passagem afinada da televisão
para o cinema

Isabela
Boscov
Fotos divulgação
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| Guerrilheiros
(acima) contra militares (abaixo): deboche aplicado
a um tema até aqui intocável |
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É
reconfortante assistir ao Casseta & Planeta, Urgente!
todas as semanas e saber que há pelo menos dois pontos a
que o grupo se mantém fiel: primeiro, não existe piada
indigna desse nome; segundo, nada é sagrado. Daí Casseta
& Planeta A Taça do Mundo É Nossa
(Brasil, 2003) não se furtar a todos aqueles trocadilhos
infames que a garotada começa a descobrir lá pela
2ª série. E daí também o filme, que estréia
nesta sexta-feira no país, satirizar o período mais
negro, e até aqui intocável, da história brasileira
recente os anos do regime militar. É 1970, a seleção
acabou de conquistar o tricampeonato ("uma espécie de penta
daquela época", explica o texto de abertura), e militantes
como Wladimir Illitch Stalin Tsé Tung Guevara nome
de guerra de Frederico Eugênio, ou Bussunda com uma barba
meia-oito se empenham em derrubar a ditadura. Por causa de
uma confusão numa churrascaria, Frederico se alia ao vegetariano
Denilson (Helio de La Peña) e ao cantor jovem-guarda Peixoto
Carlos (Hubert) numa ação ambiciosa: roubar a taça
Jules Rimet, e assim desmoralizar a manipulação política
da vitória. O general Mirandinha (Claudio Manoel) é
obrigado por sua mulher, a temível Dolores (Marcelo Madureira),
a organizar a captura dos terroristas. Atrapalhando seu já
fraco desempenho estão um general linha-dura (Beto Silva)
e Lucy Ellen (Maria Paula), a desinibida filha de Mirandinha, que
se apaixona por Frederico. Enquanto o Exército nunca consegue
localizar os militantes, a mãe do guerrilheiro (Reinaldo)
não tem nenhuma dificuldade em fazê-lo: nos esconderijos
ou na selva, ela sempre aparece com casaquinhos bordados com uma
foice e um martelo, para seu filho não se resfriar.
Há
um mundo de referências em A Taça do Mundo É
Nossa, e boa parte delas vem das notas de rodapé do período.
Lucy Ellen, por exemplo, obviamente brinca com Amália Lucy,
a filha do general Ernesto Geisel que a certa altura traiu sua admiração
pelas canções de Chico Buarque e virou tema de uma
delas, a do célebre refrão "você não
gosta de mim, mas sua filha gosta". E, se não é necessário
dominar essas referências para aproveitar o filme, ele rende
o dobro para quem as conhece mais ou menos como acontece
com os assuntos do momento de que o grupo trata em seu programa.
A
Taça do Mundo É Nossa exercita alguns novos talentos
do Casseta & Planeta. Habituado a trabalhar em forma de esquete,
o septeto se mostra aqui capaz de sustentar um mesmo tema pela duração
de um filme. E, ainda que parte das gagues fique pelo meio do caminho,
outras já nascem antológicas, como o balé dos
militares, o corretor de imóveis especializado em "aparelhos"
para grupos de esquerda e os falsos créditos finais, em que
um Luiz Inácio da Silva aparece como continuísta.
Mais notável ainda é que, na transposição
para o cinema, o grupo não tenha elevado o teor habitual
de baixaria nem tenha ficado restrito à linguagem televisiva,
como vem sendo regra nesses casos. Dirigido por Lula Buarque de
Hollanda, da Conspiração Filmes, A Taça
do Mundo É Nossa é, em certos momentos, um primor
de reconstituição de época, e quase sempre
aspira a funcionar como cinema, e não como mera adaptação
de um sucesso da TV.
A
julgar pelo sucesso de Os Normais, que fez quase 2 milhões
de espectadores em três semanas, A Taça do Mundo
É Nossa tem uma bela carreira pela frente, e deve reforçar
como se fosse preciso a liderança no mercado
de sua co-produtora, a Globo Filmes. Neste ano, o braço cinematográfico
da corporação ficou com 92% dos ingressos vendidos
para filmes nacionais, com títulos tão diversos quanto
Carandiru, O Homem que Copiava, Lisbela e o Prisioneiro, Os Normais
e Maria, Mãe do Filho de Deus. Ainda que esse casamento
entre televisão e cinema seja considerado nefasto por alguns,
é em boa medida ele o responsável pela concretização
da meta que os cineastas da chamada "retomada" se haviam proposto:
estabelecer uma indústria cinematográfica sólida
e rentável, que se sustente, e aos profissionais da área,
por seus próprios meios. Com A Taça do Mundo É
Nossa, portanto, o pessoal do Casseta & Planeta deve acrescentar
à sua folha de bons serviços prestados ao humor também
uma contribuição à produção nacional.
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