Edição 1829 . 19 de novembro de 2003

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Medicina
Reaprendendo a viver

Ali, o menino que perdeu os braços
e a família na guerra no Iraque,
recupera-se na Inglaterra


Reuters
ters
Depois do trauma, fisioterapia, aulas de inglês e treinamento com o braço eletrônico

Em março, bem no começo da guerra no Iraque, a aviação americana lançou mísseis sobre um vilarejo perto de Bagdá. Dois deles atingiram a casa de Ali Abbas, 13 anos, que dormia com a família. Morreram seu pai, agricultor, sua mãe (grávida de seis meses), seu irmão e mais treze parentes. Ali foi retirado dos escombros ainda vivo, mas tomado de queimaduras e com os dois braços tão comprometidos que foram amputados assim que chegou ao hospital. Suas chances de sobreviver eram mínimas no caos hospitalar de Bagdá. Ele estava, literalmente, apodrecendo. Uma foto salvou-lhe a vida: a imagem espantosamente trágica do menino mutilado, chorando de desespero e dor, comoveu o mundo. Objeto de uma mobilização internacional, Ali foi levado para um bom hospital no Kuwait (onde, pela primeira vez em dezoito dias, recebeu analgésicos potentes) e, depois de algumas cirurgias, viajou para a Inglaterra, onde continua o tratamento de ponta. Mais gordinho, sorridente, tem como atividade principal seguir todo o esquema puxado de exercícios para se acostumar com o braço eletrônico que lhe permitirá, entre outras coisas, pegar objetos e se vestir sozinho. "Estou feliz", disse à revista americana People.

Ali mora num subúrbio de Londres com um primo que chama de tio, Mohamed, outro menino iraquiano que perdeu uma perna e uma das mãos no mesmo ataque, Ahmad, e o pai de Ahmad. Está aprendendo inglês e consegue usar os dedos dos pés para se alimentar e jogar videogame. Um momento de satisfação foi quando, depois de semanas de fisioterapia, se sentiu seguro o suficiente para jogar futebol, que adora. Tudo indica que se recuperou da depressão profunda manifestada nos meses após o ataque – no que foi ajudado por um encontro, em outubro, com o ator Christopher Reeve, tetraplégico por causa de um acidente. "Quando vi o Super-Homem, pensei: 'Pelo menos, tenho minhas duas pernas e respiro sozinho'", conta Ali. Acostumar-se com o braço artificial de 1,5 quilo levará tempo: apesar do mecanismo eletrônico, é necessário o estímulo dos músculos de Ali para dobrar o cotovelo, mexer o punho, abrir e fechar a mão e mexer três dedos. Só o braço direito está pronto; o esquerdo é apenas cosmético e a versão eletrônica, quando for colocada, terá menos funções, já que esse lado foi mais afetado. Simpático e falante, Ali reclama um pouco da fama: "Gostaria de ser normal e de não ser conhecido". E, como todo pré-adolescente, dos beijos. "Recebo muitos. Não gosto."

 
 
 
 
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