Edição 1829 . 19 de novembro de 2003

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Comércio exterior
Entre o comércio e as urnas

De olho na reeleição, Bush leva sua crença
no livre mercado para o balcão político

 
Reuters
AFP
O presidente George W. Bush e, à direita, Zoellick e Amorim, no fim de semana passado, em Washington: dois dias de conversas para selar uma trégua

Em Profundidade: Alca e comércio exterior

Na semana passada, a Casa Branca sofreu uma derrota comercial. A Organização Mundial do Comércio (OMC) ratificou uma decisão, de quatro meses atrás, que condena a sobretaxa imposta pelos Estados Unidos ao aço importado. Estima-se que, no caso do Brasil, oitavo maior produtor de aço do mundo, a sobretaxa tenha provocado prejuízos de 300 milhões de dólares. A União Européia, onde estão alguns dos grandes produtores mundiais, calcula que poderá retaliar os americanos em 2,2 bilhões de dólares. Pelas boas normas do comércio internacional, cabe agora ao presidente George W. Bush eliminar a sobretaxa, que varia de 8% a 30%. Em Washington, porém, a discussão deixou de ser pautada pelo interesse comercial ou econômico – tudo ali, faltando um ano para o pleito presidencial, no qual Bush disputará a reeleição, é analisado de olho no mapa eleitoral. É assim que funciona nos Estados Unidos ou em qualquer outro país democrático, mas é interessante observar como, em tempos de eleição, até o que parecia ser um princípio sagrado – no caso, a crença republicana no livre-comércio – pode virar mercadoria no balcão eleitoral.

O drama de Bush é o seguinte: se eliminar a sobretaxa, ganhará aplausos do eleitorado de Michigan, onde fica o coração da indústria automobilística, grande consumidora de aço. Se, ao contrário, Bush mantiver a sobretaxa, receberá a simpatia do eleitorado da Pensilvânia ou de Virgínia Ocidental, epicentros da indústria siderúrgica americana. O que será mais lucrativo do ponto de vista eleitoral? A União Européia, com sua experiência de séculos nas trocas comerciais, avisou que espera a rápida eliminação da barreira e, se isso não acontecer, já informou que aplicará retaliações à importação de equipamentos agrícolas, motocicletas Harley-Davidson e suco de laranja. Por que a Europa escolheu tais produtos? Para entrar no jogo eleitoral de Bush: são produtos de Estados politicamente relevantes para a reeleição de Bush. A Flórida, por exemplo, exporta suco para a Europa, além de ser governada pelo irmão do presidente, Jeb Bush. Com isso, a Europa encontrou uma forma de ampliar a punição política a Bush caso ele mantenha a sobretaxa.

O Brasil ainda não decidiu o que fará. "Precisamos aguardar a decisão dos Estados Unidos", diz o coordenador-geral de Contenciosos do Itamaraty, conselheiro Roberto Azevêdo. A cena eleitoral americana também explica a conversa do chanceler Celso Amorim com o representante comercial americano Robert Zoellick, em Washington, no fim de semana passado. Quando o Brasil assumiu uma postura de confronto e conseguiu bloquear os interesses americanos e europeus nas discussões da OMC em Cancún, em setembro, Zoellick ficou furioso. Escreveu artigos à imprensa e criticou duramente a posição brasileira. Fez uma ameaça ao dizer que a Casa Branca faria acordos bilaterais com os países da América do Sul, relegando o Brasil e seu aliado, a Argentina, ao isolamento no âmbito da Alca. No encontro do fim de semana, Zoellick adotou outro tom. Na conversa com Amorim, que chegou a Washington carregando a orientação do Palácio do Planalto para ser menos inflexível, Zoellick aceitou no mínimo ouvir os argumentos do Brasil. Estabeleceu-se, então, uma trégua entre os dois países. Com isso, é possível que a reunião dos 34 membros da Alca, que ocorre nesta semana em Miami, venha a render algum resultado concreto.

A mudança de abordagem de Robert Zoellick, um ferrenho militante do livre-comércio, tem sido atribuída, pela imprensa americana, ao fato de que sua postura intransigente em relação ao Brasil e à Argentina – tanto na OMC quanto na Alca –- vinha ganhando o aplauso dos setores mais protecionistas dos Estados Unidos. Era natural que fosse assim. Afinal, Zoellick exibia disposição nula para negociar a entrada no mercado americano dos produtos agrícolas do Brasil e da Argentina, muito mais baratos que os americanos. Ao fazer as pazes com Amorim e mostrar-se aberto ao diálogo, o que nem de longe sugere o fim das barreiras agrícolas americanas, Zoellick retira uma bandeira das mãos dos protecionistas – inimigos políticos dos republicanos. Aliás, um dado para a reflexão dos protecionistas: os produtos agrícolas do Brasil e da Argentina são mais baratos porque os fazendeiros americanos recebem gigantescos subsídios governamentais – o que supervalorizou a terra, encarecendo tudo o que nela se produz.

 
 
 
 
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