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Comércio
exterior
Entre o comércio e as urnas
De olho na reeleição, Bush leva sua
crença
no livre mercado para o balcão político
Reuters
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AFP
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presidente George W. Bush e, à direita, Zoellick e Amorim,
no fim de semana passado, em Washington: dois dias de conversas
para selar uma trégua |
Na
semana passada, a Casa Branca sofreu uma derrota comercial. A Organização
Mundial do Comércio (OMC) ratificou uma decisão, de
quatro meses atrás, que condena a sobretaxa imposta pelos
Estados Unidos ao aço importado. Estima-se que, no caso do
Brasil, oitavo maior produtor de aço do mundo, a sobretaxa
tenha provocado prejuízos de 300 milhões de dólares.
A União Européia, onde estão alguns dos grandes
produtores mundiais, calcula que poderá retaliar os americanos
em 2,2 bilhões de dólares. Pelas boas normas do comércio
internacional, cabe agora ao presidente George W. Bush eliminar
a sobretaxa, que varia de 8% a 30%. Em Washington, porém,
a discussão deixou de ser pautada pelo interesse comercial
ou econômico tudo ali, faltando um ano para o pleito
presidencial, no qual Bush disputará a reeleição,
é analisado de olho no mapa eleitoral. É assim que
funciona nos Estados Unidos ou em qualquer outro país democrático,
mas é interessante observar como, em tempos de eleição,
até o que parecia ser um princípio sagrado
no caso, a crença republicana no livre-comércio
pode virar mercadoria no balcão eleitoral.
O drama de Bush é o seguinte: se eliminar a sobretaxa, ganhará
aplausos do eleitorado de Michigan, onde fica o coração
da indústria automobilística, grande consumidora de
aço. Se, ao contrário, Bush mantiver a sobretaxa,
receberá a simpatia do eleitorado da Pensilvânia ou
de Virgínia Ocidental, epicentros da indústria siderúrgica
americana. O que será mais lucrativo do ponto de vista eleitoral?
A União Européia, com sua experiência de séculos
nas trocas comerciais, avisou que espera a rápida eliminação
da barreira e, se isso não acontecer, já informou
que aplicará retaliações à importação
de equipamentos agrícolas, motocicletas Harley-Davidson e
suco de laranja. Por que a Europa escolheu tais produtos? Para entrar
no jogo eleitoral de Bush: são produtos de Estados politicamente
relevantes para a reeleição de Bush. A Flórida,
por exemplo, exporta suco para a Europa, além de ser governada
pelo irmão do presidente, Jeb Bush. Com isso, a Europa encontrou
uma forma de ampliar a punição política a Bush
caso ele mantenha a sobretaxa.
O Brasil ainda não decidiu o que fará. "Precisamos
aguardar a decisão dos Estados Unidos", diz o coordenador-geral
de Contenciosos do Itamaraty, conselheiro Roberto Azevêdo.
A cena eleitoral americana também explica a conversa do chanceler
Celso Amorim com o representante comercial americano Robert Zoellick,
em Washington, no fim de semana passado. Quando o Brasil assumiu
uma postura de confronto e conseguiu bloquear os interesses americanos
e europeus nas discussões da OMC em Cancún, em setembro,
Zoellick ficou furioso. Escreveu artigos à imprensa e criticou
duramente a posição brasileira. Fez uma ameaça
ao dizer que a Casa Branca faria acordos bilaterais com os países
da América do Sul, relegando o Brasil e seu aliado, a Argentina,
ao isolamento no âmbito da Alca. No encontro do fim de semana,
Zoellick adotou outro tom. Na conversa com Amorim, que chegou a
Washington carregando a orientação do Palácio
do Planalto para ser menos inflexível, Zoellick aceitou no
mínimo ouvir os argumentos do Brasil. Estabeleceu-se, então,
uma trégua entre os dois países. Com isso, é
possível que a reunião dos 34 membros da Alca, que
ocorre nesta semana em Miami, venha a render algum resultado concreto.
A mudança de abordagem de Robert Zoellick, um ferrenho militante
do livre-comércio, tem sido atribuída, pela imprensa
americana, ao fato de que sua postura intransigente em relação
ao Brasil e à Argentina tanto na OMC quanto na Alca
- vinha ganhando o aplauso dos setores mais protecionistas
dos Estados Unidos. Era natural que fosse assim. Afinal, Zoellick
exibia disposição nula para negociar a entrada no
mercado americano dos produtos agrícolas do Brasil e da Argentina,
muito mais baratos que os americanos. Ao fazer as pazes com Amorim
e mostrar-se aberto ao diálogo, o que nem de longe sugere
o fim das barreiras agrícolas americanas, Zoellick retira
uma bandeira das mãos dos protecionistas inimigos
políticos dos republicanos. Aliás, um dado para a
reflexão dos protecionistas: os produtos agrícolas
do Brasil e da Argentina são mais baratos porque os fazendeiros
americanos recebem gigantescos subsídios governamentais
o que supervalorizou a terra, encarecendo tudo o que nela se produz.
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