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Realeza
Outra dos ingleses:
o rei é gay?
Mais
um escândalo enxovalha
o herdeiro do trono britânico:
agora, um ex-camareiro afirma
tê-lo visto na cama com
o mordomo de confiança
Fotos AP
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| Intrigas
de mordomos: Smith (na capa do jornal) acusa Fawcett
de sodomia e de caso com o príncipe |
As
simples perguntas levantadas por esse caso já dão
idéia do tamanho do escândalo. O herdeiro do trono
britânico fez sexo com um homem? Esse homem era seu empregado?
Um futuro rei, exposto dessa forma, teria condições
de herdar o título? Num mundo ideal, essas perguntas não
deveriam provocar constrangimento: mesmo que o herdeiro do trono
fosse gay, qual seria o problema? No mundo real, no entanto, a coisa
é diferente. Essas indagações, só pelo
fato de terem sido feitas, cravam mais um prego simbólico
numa coroa já tantas vezes lascada por intrigas, baixarias,
traições, inconfidências amorosas e atos privados
dolorosamente escancarados em público, em tal quantidade
e com tanta constância que muitas vezes é impossível
divisar onde está a verdade, onde está a mentira.
Charles, príncipe de Gales, filho da rainha Elizabeth II,
próximo da fila a envergar um manto e uma história
com 1.000 anos de tradição, é homossexual?
Desta vez, pelo menos, não parece haver dúvidas. A
possibilidade de que a resposta seja sim é praticamente inexistente.
Nada em seu comportamento jamais indicou isso e não
foi por falta de escrutínio em cada mínimo detalhe
de 55 anos vividos diante do mundo e da curiosidade dos insaciáveis
tablóides ingleses. "Posso declarar com toda a certeza, depois
de vê-lo na companhia de mulheres ao longo de muitos anos,
que o príncipe é saudavelmente heterossexual", resumiu
um jornalista que acompanha Charles desde os 18 anos, James Whitaker,
do Daily Mirror. O advérbio "saudavelmente" denota
o preconceito, mas reforça a negativa: um homem que vê
o homossexualismo como pouco saudável certamente teria olho
apurado para suas manifestações.
A maneira como o príncipe se viu enredado numa alegação
ao que tudo indica falsa revela, porém, como ele e seus assessores
conduzem mal assuntos importantes. E como não consegue se
livrar das conseqüências de seu casamento infeliz com
Diana ela, sempre ela, a princesa que mesmo depois de morta
continua a atormentar o homem que a rejeitou. Resumindo: George
Smith, um ex-camareiro a serviço de Charles, diz ter entrado
um dia com a bandeja do café-da-manhã (ou chá,
mais propriamente) no quarto do patrão e o encontrado na
cama com seu mordomo de confiança, Michael Fawcett. Smith
tem um histórico de acusações escabrosas e
de ódio por Fawcett: afirma, há tempos, que o mais
importante funcionário doméstico do príncipe
o sodomizou à força não uma, mas duas vezes,
depois de noites de bebedeira. A alegada violência sexual
já foi objeto de três investigações,
por parte do palácio e da polícia, sem que tenha sido
comprovada. Assessores do príncipe sempre insistem que o
ex-criado tem um histórico de alcoolismo e de stress pós-traumático,
distúrbio psicológico supostamente adquirido na Guerra
das Malvinas, em que Smith, que era militar, combateu. Smith diz
que todos os seus problemas decorrem da violência sofrida
e da revolta diante da impunidade do culpado.
Os boatos sobre o que Smith diz ter visto no quarto do palácio
já correm há pelo menos dois anos. São tão
recorrentes que um ex-assessor de imprensa de Charles, Mark Bolland,
revelou na semana passada que o secretário particular do
príncipe, Michael Peat, o abordou ao assumir o cargo, há
um ano, com uma pergunta impensável em outros tempos: "Você
acha que Charles é bissexual?". "Fiquei estarrecido com a
pergunta de sir Michael. Disse-lhe enfaticamente que o príncipe
não é gay nem bissexual", recorda Bolland. Peat, um
homem rigoroso e respeitado, que assumiu o cargo com a missão
de pôr ordem na bagunça da criadagem de Charles, desmentiu
com uma frase deliciosamente inglesa: "Não me lembro de jamais
ter usado a palavra bissexual na minha vida". A assessoria do príncipe,
no entanto, acabou por confirmar que a conversa ocorreu mesmo
outro sinal de falta de coordenação.
A boataria recobrou força recentemente com a publicação
do livro de outro mordomo, Paul Burrell, o mais fiel empregado de
Diana. Burrell escreve que Smith procurou a princesa em 1996 para
contar a história do ataque que afirma ter sofrido. "A princesa
gostava de George e ficou abalada", diz. Depois, munida de um gravador,
visitou-o na clínica onde fazia tratamento para depressão
e gravou tudo numa hoje famosa e desaparecida fita. Chegou a ligar
para o ex-marido, pedindo punição para Fawcett, o
mordomo mau. "Charles, esse homem é um monstro", disse, segundo
Burrell, que obviamente se apresenta como o mordomo bom. Agora,
Burrell afirma que Smith falou também do suposto flagrante
no quarto de Charles. Para impedir que o ex-camareiro espalhasse
a história, Fawcett, demitido desde que a acusação
inicial de sodomia forçada veio à tona, obteve na
Justiça um mandado proibindo qualquer jornal inglês
de publicar detalhes do tal "incidente" o que naturalmente
bastou para deixar a imprensa em surto, dando uma dimensão
maior ainda ao caso.
Como o príncipe se viu enredado nessa intrigalhada de mordomos,
com seu nome tão enxovalhado a ponto de, mais uma vez, levantar
dúvidas sobre o futuro da monarquia? A maioria das pessoas
que já circularam na órbita de Charles concorda que
ele é um sujeito basicamente decente, que leva a sério
seus deveres de herdeiro e se dedica com afinco a atividades benemerentes.
Ele também se esforçou, na medida de suas possibilidades,
para que o casamento com Diana desse certo, ao contrário
da versão popularmente divulgada de que foi tudo arranjado
e ele esperava que a noivinha inocente se conformasse com um relacionamento
de fachada. Seu amor pela outra, Camilla Parker-Bowles, hoje praticamente
uma rainha morganática, é sincero e até comovente.
O fato, tão ridicularizado, de que tenha "trocado" uma esposa
bela e jovem por uma amante feiosa e mais velha demonstra apenas
que ele seguiu seu coração ou outras necessidades,
vá se saber. Mas o herdeiro do trono também é
"um homem fraco, que se cerca de sicofantas", afirma a colunista
Vivienne Parry, especialista em assuntos da realeza. Quando se separou
de Diana, intimidado com a enorme popularidade da princesa rejeitada,
ele permitiu que seus assessores lançassem uma campanha para
"arrastar na lama o nome da mãe de seus filhos". Por causa
disso, diz Vivienne, ela "passou a ter medo de perder a guarda dos
meninos; e por causa disso gravou as alegações de
George Smith, que via como munição em potencial num
processo de divórcio". É essa fita que agora assombra
o príncipe, como uma maldição de além-túmulo.
Não é de estranhar que, na interpretação
popular, Charles esteja simplesmente se enredando cada vez mais
na vingança da princesa morta.
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