Edição 1829 . 19 de novembro de 2003

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Realeza
Outra dos ingleses:
o rei é gay?

Mais um escândalo enxovalha
o herdeiro do trono britânico:
agora, um ex-camareiro afirma
tê-lo visto na cama com
o mordomo de confiança

 
Fotos AP
Intrigas de mordomos: Smith (na capa do jornal) acusa Fawcett de sodomia – e de caso com o príncipe

As simples perguntas levantadas por esse caso já dão idéia do tamanho do escândalo. O herdeiro do trono britânico fez sexo com um homem? Esse homem era seu empregado? Um futuro rei, exposto dessa forma, teria condições de herdar o título? Num mundo ideal, essas perguntas não deveriam provocar constrangimento: mesmo que o herdeiro do trono fosse gay, qual seria o problema? No mundo real, no entanto, a coisa é diferente. Essas indagações, só pelo fato de terem sido feitas, cravam mais um prego simbólico numa coroa já tantas vezes lascada por intrigas, baixarias, traições, inconfidências amorosas e atos privados dolorosamente escancarados em público, em tal quantidade e com tanta constância que muitas vezes é impossível divisar onde está a verdade, onde está a mentira.

Charles, príncipe de Gales, filho da rainha Elizabeth II, próximo da fila a envergar um manto e uma história com 1.000 anos de tradição, é homossexual? Desta vez, pelo menos, não parece haver dúvidas. A possibilidade de que a resposta seja sim é praticamente inexistente. Nada em seu comportamento jamais indicou isso – e não foi por falta de escrutínio em cada mínimo detalhe de 55 anos vividos diante do mundo e da curiosidade dos insaciáveis tablóides ingleses. "Posso declarar com toda a certeza, depois de vê-lo na companhia de mulheres ao longo de muitos anos, que o príncipe é saudavelmente heterossexual", resumiu um jornalista que acompanha Charles desde os 18 anos, James Whitaker, do Daily Mirror. O advérbio "saudavelmente" denota o preconceito, mas reforça a negativa: um homem que vê o homossexualismo como pouco saudável certamente teria olho apurado para suas manifestações.

A maneira como o príncipe se viu enredado numa alegação ao que tudo indica falsa revela, porém, como ele e seus assessores conduzem mal assuntos importantes. E como não consegue se livrar das conseqüências de seu casamento infeliz com Diana – ela, sempre ela, a princesa que mesmo depois de morta continua a atormentar o homem que a rejeitou. Resumindo: George Smith, um ex-camareiro a serviço de Charles, diz ter entrado um dia com a bandeja do café-da-manhã (ou chá, mais propriamente) no quarto do patrão e o encontrado na cama com seu mordomo de confiança, Michael Fawcett. Smith tem um histórico de acusações escabrosas e de ódio por Fawcett: afirma, há tempos, que o mais importante funcionário doméstico do príncipe o sodomizou à força não uma, mas duas vezes, depois de noites de bebedeira. A alegada violência sexual já foi objeto de três investigações, por parte do palácio e da polícia, sem que tenha sido comprovada. Assessores do príncipe sempre insistem que o ex-criado tem um histórico de alcoolismo e de stress pós-traumático, distúrbio psicológico supostamente adquirido na Guerra das Malvinas, em que Smith, que era militar, combateu. Smith diz que todos os seus problemas decorrem da violência sofrida e da revolta diante da impunidade do culpado.

Os boatos sobre o que Smith diz ter visto no quarto do palácio já correm há pelo menos dois anos. São tão recorrentes que um ex-assessor de imprensa de Charles, Mark Bolland, revelou na semana passada que o secretário particular do príncipe, Michael Peat, o abordou ao assumir o cargo, há um ano, com uma pergunta impensável em outros tempos: "Você acha que Charles é bissexual?". "Fiquei estarrecido com a pergunta de sir Michael. Disse-lhe enfaticamente que o príncipe não é gay nem bissexual", recorda Bolland. Peat, um homem rigoroso e respeitado, que assumiu o cargo com a missão de pôr ordem na bagunça da criadagem de Charles, desmentiu com uma frase deliciosamente inglesa: "Não me lembro de jamais ter usado a palavra bissexual na minha vida". A assessoria do príncipe, no entanto, acabou por confirmar que a conversa ocorreu mesmo – outro sinal de falta de coordenação.

A boataria recobrou força recentemente com a publicação do livro de outro mordomo, Paul Burrell, o mais fiel empregado de Diana. Burrell escreve que Smith procurou a princesa em 1996 para contar a história do ataque que afirma ter sofrido. "A princesa gostava de George e ficou abalada", diz. Depois, munida de um gravador, visitou-o na clínica onde fazia tratamento para depressão e gravou tudo numa hoje famosa e desaparecida fita. Chegou a ligar para o ex-marido, pedindo punição para Fawcett, o mordomo mau. "Charles, esse homem é um monstro", disse, segundo Burrell, que obviamente se apresenta como o mordomo bom. Agora, Burrell afirma que Smith falou também do suposto flagrante no quarto de Charles. Para impedir que o ex-camareiro espalhasse a história, Fawcett, demitido desde que a acusação inicial de sodomia forçada veio à tona, obteve na Justiça um mandado proibindo qualquer jornal inglês de publicar detalhes do tal "incidente" – o que naturalmente bastou para deixar a imprensa em surto, dando uma dimensão maior ainda ao caso.

Como o príncipe se viu enredado nessa intrigalhada de mordomos, com seu nome tão enxovalhado a ponto de, mais uma vez, levantar dúvidas sobre o futuro da monarquia? A maioria das pessoas que já circularam na órbita de Charles concorda que ele é um sujeito basicamente decente, que leva a sério seus deveres de herdeiro e se dedica com afinco a atividades benemerentes. Ele também se esforçou, na medida de suas possibilidades, para que o casamento com Diana desse certo, ao contrário da versão popularmente divulgada de que foi tudo arranjado e ele esperava que a noivinha inocente se conformasse com um relacionamento de fachada. Seu amor pela outra, Camilla Parker-Bowles, hoje praticamente uma rainha morganática, é sincero e até comovente. O fato, tão ridicularizado, de que tenha "trocado" uma esposa bela e jovem por uma amante feiosa e mais velha demonstra apenas que ele seguiu seu coração – ou outras necessidades, vá se saber. Mas o herdeiro do trono também é "um homem fraco, que se cerca de sicofantas", afirma a colunista Vivienne Parry, especialista em assuntos da realeza. Quando se separou de Diana, intimidado com a enorme popularidade da princesa rejeitada, ele permitiu que seus assessores lançassem uma campanha para "arrastar na lama o nome da mãe de seus filhos". Por causa disso, diz Vivienne, ela "passou a ter medo de perder a guarda dos meninos; e por causa disso gravou as alegações de George Smith, que via como munição em potencial num processo de divórcio". É essa fita que agora assombra o príncipe, como uma maldição de além-túmulo. Não é de estranhar que, na interpretação popular, Charles esteja simplesmente se enredando cada vez mais na vingança da princesa morta.

 
 
 
 
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