Edição 1829 . 19 de novembro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
João Mellão Neto
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ciência
Um rosto novo em folha

Médicos dizem estar prontos para realizar
o primeiro transplante facial da história


Anna Paula Buchalla


Christophe L.


Médicos ingleses, americanos e franceses estão dispostos a realizar uma cirurgia ousada do ponto de vista médico, moral e psicológico: o primeiro transplante facial. O comitê de ética do Royal College of Surgeons, uma das mais antigas entidades médicas da Inglaterra, publicará nesta semana um relatório que abrirá oficialmente os debates sobre o procedimento. O transplante de rosto é um tema recorrente na ficção. Foi abordado, por exemplo, no filme A Outra Face, de 1997. Na trama, John Travolta interpreta um agente do FBI que caça o terrorista vivido por Nicolas Cage. O vilão entra em coma, mas deixa armada uma bomba que destruirá boa parte de Los Angeles. A fim de encontrar o explosivo, Travolta tem de se passar por Cage. Para tanto, submete-se a um transplante facial.

Há cerca de um ano, médicos ingleses anunciaram que, com as novas técnicas de microcirurgia vascular e o uso de drogas anti-rejeição potentíssimas, seria viável transplantar lábios, nariz, orelhas, pele e músculos do rosto de um recém-falecido para uma vítima de deformidade facial. Como é a estrutura óssea que molda as feições de uma pessoa, elas não mudariam muito depois de uma operação dessas. Alguns cirurgiões, no entanto, consideram a hipótese de ir além. Assim como ocorre no filme A Outra Face, defendem também o transplante dos ossos de suporte do rosto, o que deixaria o paciente bem parecido com o doador. Na Inglaterra, dez pessoas que tiveram o rosto desfigurado por doença, queimadura ou acidente já procuraram o cirurgião plástico inglês Peter Butler, do Royal Free Hospital, de Londres, um dos médicos que lançaram a idéia.


Divulgação
Travolta e Cage: rostos trocados no filme A Outra Face

Para restaurar um rosto deformado, os métodos mais utilizados atualmente são os enxertos de pele e os transplantes de revestimento cutâneo. Nesse último caso, o médico retira das costas do próprio paciente um pedaço da camada mais superficial da pele, juntamente com parte do tecido gorduroso subjacente, e o transfere para o rosto. Essa cirurgia tem dois inconvenientes: deixa uma cicatriz no dorso da pessoa e seu resultado estético é pobre. Isso porque o tecido transplantado é de uma textura mais grossa que a do rosto, o que também compromete as expressões faciais. Os que apostam no transplante de rosto total dizem que esses problemas seriam eliminados. Eles reconhecem, contudo, que depois da cirurgia é grande o risco de ocorrerem transtornos graves. O principal seria a necessidade de tomar drogas imunossupressoras pesadas até o fim da vida. Apesar dos avanços farmacológicos, ninguém sabe exatamente qual é a extensão dos efeitos colaterais desses remédios. "Em tese, um transplante facial mais radical pode ser feito no Brasil. Mas ainda não estou convencido de que é uma vantagem para o paciente, tanto do ponto de vista estético quanto psicológico", diz o médico Marcus Castro Ferreira, chefe da cirurgia plástica do Hospital das Clínicas, de São Paulo. Independentemente da viabilidade médica ou do aspecto ético, há ainda outra questão difícil de responder: quem se disporia a doar a própria face, depois de morto?

 
 
 
 
topo voltar