Edição 1829 . 19 de novembro de 2003

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Oriente Médio
A cunhada do terrorista

Ex-mulher de um dos irmãos
de Bin Laden revela o pesadelo
vivido na Arábia Saudita com
o fanatismo do clã


Carmen bin Laden em um lago suíço: de volta à vida sem véu depois de onze anos sob os rigores do Islã

O saudita Osama bin Laden já teve sua vida vasculhada desde que emergiu como o grande mentor dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Sabe-se bastante da militância política e do fanatismo religioso do chefão da Al Qaeda – mas faltava conhecer um pouco mais da intimidade que envolve sua numerosa família, uma das mais ricas e influentes da Arábia Saudita. Seu pai, Mohamed, teve 54 filhos com 22 esposas. Empreiteiro, ele ergueu um império econômico hoje avaliado em 5 bilhões de dólares. Coube a uma "infiel" – mulher e ocidental – revelar detalhes até agora desconhecidos do clã Laden no livro Por Dentro do Reino Opaco, que está sendo lançado na Europa. Sua autora é a suíça Carmen bin Laden, uma morena bonita de olhos verdes – e idade não revelada – que foi casada com Yeslam, irmão por parte de pai do terrorista. No livro, Carmen conta sua experiência saudita de onze anos com os Bin Laden, nas décadas de 70 e 80, na cidade de Jidá. E mostra como os rigores da seita wahabita, interpretação purista do Islã seguida entre os sauditas, forneceram o caldo de cultura para o nascimento do tenebroso Osama e de sua Al Qaeda. É bom lembrar que quinze dos dezenove terroristas dos atentados de 11 de setembro eram sauditas.

AFP
Yeslam, o irmão do terrorista: laços de sangue


O primeiro encontro com o cunhado Osama, no fim dos anos 70, foi memorável. Ele apareceu para visitar o irmão. Carmen abriu a porta e o convidou para entrar. Ainda não era terrorista, mas já tinha o comportamento fanático. "Ele ficou pálido, balbuciou algumas palavras em árabe e virou a cara", escreveu. O motivo: a cunhada estava sem o véu, e a visão de um rosto feminino era ultrajante para Osama. "Ele nunca mais dirigiu a palavra a mim." Filha de um empresário suíço com uma iraniana abastada, Carmen nasceu e foi criada em Genebra. Conheceu Yeslam quando ele passava férias na cidade, em 1973. Então com 23 anos, o milionário saudita a impressionou pelo estilo refinado e moderno – apreciava música clássica e tinha paixão por carros esportivos. O romance engatou de vez quando os dois decidiram estudar numa universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Com menos de um ano de namoro, o casal desembarcou em Jidá para o casamento. Como voltaram para os Estados Unidos em seguida, Carmen encarou a breve estada saudita como uma experiência exótica.

O pesadelo para ela começou quando, por causa dos negócios de família, Yeslam teve de fixar residência em Jidá, em 1976. O casal instalou-se numa casa de propriedade do clã, dentro de uma vila cercada de muros altos, sendo que os vizinhos eram todos parentes. Ela engravidou pouco depois de Waffa, a primeira das três filhas que teve com Yeslam. "Nunca podia sair sozinha, e até para ir ao jardim era preciso usar o véu", conta Carmen. "Passava o dia ao lado de mulheres que nunca tinham lido um livro na vida e que só falavam de parentes e do Corão." Sua desventura em Jidá terminou em 1987, quando a família se mudou para Genebra. O casal separou-se há mais de dez anos, mas só agora o divórcio está sendo acertado. Yeslam continua morando na Suíça, onde é dono de um banco.

 
Rahimullah Yousafzai/AP
Bin Laden: segundo a cunhada, ficou pálido e virou o rosto ao vê-la sem véu

Como vários dos integrantes do clã Laden, Yeslam condenou publicamente Osama após os atentados de 2001 – da mesma forma que outro irmão por parte de pai do terrorista, Khalil Mohamed bin Laden, casado com a brasileira Isabel Cristina Bayma e radicado em Jidá. Para Carmen, porém, o rompimento é apenas um jogo de cena. "Na cultura dos sauditas, os laços do clã são sagrados", assegura. Ela diz que Osama sempre foi reverenciado pela família por causa de seu fervor religioso. O prestígio do cunhado aumentou ainda mais quando ele decidiu lutar contra os soviéticos no Afeganistão, nos anos 80. Carmen escreveu que, naquela época, Osama era paparicado até pelo rei Fahd. Seu rompimento com a família real saudita se deu após a Guerra do Golfo, em 1991 – ele não aceitou a presença de tropas americanas no país, que abriga as cidades santas de Meca e Medina. Laden deu início a sua carreira de terrorista e nunca escondeu sua intenção de derrubar a monarquia saudita. A Al Qaeda é a principal suspeita no atentado suicida, no domingo 9, a um condomínio na capital saudita, Riad, onde só viviam árabes e muçulmanos. O ataque deixou dezessete mortos e mais de 120 feridos e colocou a família real em situação difícil. Ela já vinha sendo pressionada pelo governo americano para suspender a promoção do fundamentalismo islâmico e o envio de dinheiro a movimentos terroristas, como o Hamas, na Palestina. O ataque de domingo mostrou que a monarquia saudita está agora experimentando do próprio veneno.

 
 
 
 
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