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Estados
Unidos
Um
resgate forjado
pelo Pentágono
Prisioneira
no Iraque e transformada em
ícone do heroísmo, a soldada Jessica Lynch
diz que foi usada como propaganda de guerra
AP
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| Jessica
em Nova York: ela não deu um só tiro |
A soldada Jessica Lynch viu-se transformada na principal heroína
americana na guerra no Iraque sem ter disparado um único
tiro. É que, por um acaso, Jessica se tornou prisioneira
dos iraquianos em março de 2003, num momento em que o governo
americano precisava reforçar o apoio à guerra no Oriente
Médio. A loirinha interiorana de apenas 20 anos tinha a imagem
perfeita para atrair a simpatia da população americana.
O Pentágono fez chegar à imprensa uma versão
estilo Rambo de sua captura apesar da gravidade de seus ferimentos,
ela teria lutado bravamente até ficar sem munição
e, depois, montou uma operação cinematográfica
para salvá-la. Construía-se assim um mito, que acabou
dissolvido exatamente pela fascinante sinceridade com que Jessica
conta a própria história. Na semana passada, foi lançado
o livro Eu Sou uma Soldada, Também: a História
de Jessica Lynch, escrito por um jornalista com base em entrevistas
com ela. A dupla recebeu adiantado 1 milhão de dólares
da editora. Jessica foi, então, pela primeira vez a Nova
York, para participar dos principais programas americanos de entrevista
e receber o prêmio de mulher do ano de uma revista feminina.
"Eu não sou uma heroína, sou uma sobrevivente", disse
ela no discurso de agradecimento.
As
circunstâncias que levaram à captura, da forma como
sua biografia autorizada descreve, aproximam-se mais da saga quixotesca
de uma pessoa comum indefesa diante de uma engrenagem além
de seu controle do que de um ato de heroísmo. Quando ela
se alistou no Exército, em 2001, seu objetivo era conhecer
o mundo, sair do lugarejo de 900 habitantes em que nasceu, no Estado
da Virgínia Ocidental. Queria ter um trabalho que lhe permitisse
estudar para a profissão de seus sonhos: ser professora de
jardim-de-infância. Com seu irmão Greg, apresentou-se
no quartel apenas uma semana depois do ataque terrorista de 11 de
setembro. Dezoito meses depois, a soldada de primeira classe Lynch
estava no Iraque, encarregada de distribuir lápis, pacotes
e papel higiênico à soldadesca.
Fotos Reuters
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uters
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| Jessica
após o resgate e, quatro meses depois, em desfile com o noivo,
Ruben, e o irmão fardado |
No
dia em que foi capturada, oito meses atrás, ela viajava em
uma unidade de manutenção que deveria dar apoio a
uma coluna militar que avançava sobre Bagdá. Seu grupo
constituía-se basicamente de cozinheiros, mecânicos
e almoxarifes, com pouco treinamento em combate. Seu namorado, Ruben
Contreras, fazia parte da mesma companhia, mas estava em uma unidade
mais avançada. O comboio de Jessica ficou para trás
porque os caminhões atolavam na areia do deserto. Perdido,
o comandante da coluna fez os dezoito veículos nenhum
deles de combate atravessar a cidade de Nassiriah, em pleno
território inimigo. Surpreendida com a presa fácil
que lhe caiu nas mãos, a milícia de Saddam Hussein
levou algum tempo para se armar e atacar o comboio, que a essa altura
dava meia-volta e tentava fugir da cidade. Os caminhões quebravam,
atolavam na areia, e os americanos se defendiam precariamente. Onze
dos 33 soldados morreram.
Logo
após a emboscada, o Exército americano fez um relatório
em que contava como uma mulher lutou bravamente até ser rendida
pelos iraquianos. Um figurão não identificado do Pentágono
disse ao jornal The Washington Post que essa mulher era Jessica
Lynch. Começou aí o mito. No livro, Jessica desmente
tudo. Conta que sua arma estava tão suja de areia que emperrou.
Por isso, enquanto sua melhor amiga, Lori Piestewa, acelerava o
jipe militar em que estavam e outros três companheiros atiravam
contra os iraquianos, Jessica encolheu-se, colocou a cabeça
entre os joelhos e rezou. Uma granada fez Lori perder o controle
do carro, que se chocou contra um veículo à margem
da estrada. Apenas Jessica sobreviveu, com múltiplas fraturas
na perna esquerda e um ferimento na cabeça. O livro afirma,
com base em relatórios médicos, que no intervalo de
três horas entre o acidente e o momento em que foi levada
pelos iraquianos a um hospital Jessica foi estuprada e seu braço,
quebrado. Ela afirma que estava inconsciente e não se lembra
de nada.
A
jovem ficou nove dias no hospital de Nassiriah, quase totalmente
paralisada. Os médicos iraquianos cuidaram bem dela. "Uma
senhora veio e massageou minhas costas com uma espécie de
pó enquanto cantava uma canção que eu não
entendia. Aquilo me acalmou, mas eu ainda tinha muita dor", disse
Jessica. No dia 1º de abril, os americanos montaram uma operação
cinematográfica para resgatar Jessica. Chegaram de helicóptero
e invadiram o hospital derrubando portas a pontapés, apesar
de os médicos terem oferecido as chaves. Toda a operação
foi filmada e as imagens distribuídas, depois, para as redes
de televisão. Bonita e com aparência frágil,
Jessica era perfeita para despertar as emoções dos
americanos. Na semana passada, ela se declarou perturbada por seu
resgate ter sido usado para a propaganda de guerra. "Mas o que importa
é que entraram lá e me levaram segura para casa",
disse. Hoje ela faz fisioterapia para poder andar sem muletas. Virou
celebridade, com todas as vantagens e algumas desvantagens desses
momentos de exposição às multidões.
Entre as vantagens estão as medalhas, as homenagens e a simpatia
de seus compatriotas. Entre as desvantagens, está ter despertado
a atenção do célebre pornógrafo Larry
Flynt. Dono da revista Hustler, ele diz ter comprado fotos
dela nua "confraternizando" com dois soldados em uma tenda militar.
Flynt disse na semana passada que não vai publicar as fotos
porque "Jessica é uma boa garota". Pelo que se conhece de
Flynt, logo as fotos estarão publicadas.
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