Edição 1829 . 19 de novembro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
João Mellão Neto
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Estados Unidos
Um resgate forjado
pelo Pentágono

Prisioneira no Iraque e transformada em
ícone do heroísmo, a soldada Jessica Lynch
diz que foi usada como propaganda de guerra


AP
Jessica em Nova York: ela não deu um só tiro


A soldada Jessica Lynch viu-se transformada na principal heroína americana na guerra no Iraque sem ter disparado um único tiro. É que, por um acaso, Jessica se tornou prisioneira dos iraquianos em março de 2003, num momento em que o governo americano precisava reforçar o apoio à guerra no Oriente Médio. A loirinha interiorana de apenas 20 anos tinha a imagem perfeita para atrair a simpatia da população americana. O Pentágono fez chegar à imprensa uma versão estilo Rambo de sua captura – apesar da gravidade de seus ferimentos, ela teria lutado bravamente até ficar sem munição – e, depois, montou uma operação cinematográfica para salvá-la. Construía-se assim um mito, que acabou dissolvido exatamente pela fascinante sinceridade com que Jessica conta a própria história. Na semana passada, foi lançado o livro Eu Sou uma Soldada, Também: a História de Jessica Lynch, escrito por um jornalista com base em entrevistas com ela. A dupla recebeu adiantado 1 milhão de dólares da editora. Jessica foi, então, pela primeira vez a Nova York, para participar dos principais programas americanos de entrevista e receber o prêmio de mulher do ano de uma revista feminina. "Eu não sou uma heroína, sou uma sobrevivente", disse ela no discurso de agradecimento.

As circunstâncias que levaram à captura, da forma como sua biografia autorizada descreve, aproximam-se mais da saga quixotesca de uma pessoa comum indefesa diante de uma engrenagem além de seu controle do que de um ato de heroísmo. Quando ela se alistou no Exército, em 2001, seu objetivo era conhecer o mundo, sair do lugarejo de 900 habitantes em que nasceu, no Estado da Virgínia Ocidental. Queria ter um trabalho que lhe permitisse estudar para a profissão de seus sonhos: ser professora de jardim-de-infância. Com seu irmão Greg, apresentou-se no quartel apenas uma semana depois do ataque terrorista de 11 de setembro. Dezoito meses depois, a soldada de primeira classe Lynch estava no Iraque, encarregada de distribuir lápis, pacotes e papel higiênico à soldadesca.


Fotos Reuters
uters
Jessica após o resgate e, quatro meses depois, em desfile com o noivo, Ruben, e o irmão fardado

No dia em que foi capturada, oito meses atrás, ela viajava em uma unidade de manutenção que deveria dar apoio a uma coluna militar que avançava sobre Bagdá. Seu grupo constituía-se basicamente de cozinheiros, mecânicos e almoxarifes, com pouco treinamento em combate. Seu namorado, Ruben Contreras, fazia parte da mesma companhia, mas estava em uma unidade mais avançada. O comboio de Jessica ficou para trás porque os caminhões atolavam na areia do deserto. Perdido, o comandante da coluna fez os dezoito veículos – nenhum deles de combate – atravessar a cidade de Nassiriah, em pleno território inimigo. Surpreendida com a presa fácil que lhe caiu nas mãos, a milícia de Saddam Hussein levou algum tempo para se armar e atacar o comboio, que a essa altura dava meia-volta e tentava fugir da cidade. Os caminhões quebravam, atolavam na areia, e os americanos se defendiam precariamente. Onze dos 33 soldados morreram.

Logo após a emboscada, o Exército americano fez um relatório em que contava como uma mulher lutou bravamente até ser rendida pelos iraquianos. Um figurão não identificado do Pentágono disse ao jornal The Washington Post que essa mulher era Jessica Lynch. Começou aí o mito. No livro, Jessica desmente tudo. Conta que sua arma estava tão suja de areia que emperrou. Por isso, enquanto sua melhor amiga, Lori Piestewa, acelerava o jipe militar em que estavam e outros três companheiros atiravam contra os iraquianos, Jessica encolheu-se, colocou a cabeça entre os joelhos e rezou. Uma granada fez Lori perder o controle do carro, que se chocou contra um veículo à margem da estrada. Apenas Jessica sobreviveu, com múltiplas fraturas na perna esquerda e um ferimento na cabeça. O livro afirma, com base em relatórios médicos, que no intervalo de três horas entre o acidente e o momento em que foi levada pelos iraquianos a um hospital Jessica foi estuprada e seu braço, quebrado. Ela afirma que estava inconsciente e não se lembra de nada.

A jovem ficou nove dias no hospital de Nassiriah, quase totalmente paralisada. Os médicos iraquianos cuidaram bem dela. "Uma senhora veio e massageou minhas costas com uma espécie de pó enquanto cantava uma canção que eu não entendia. Aquilo me acalmou, mas eu ainda tinha muita dor", disse Jessica. No dia 1º de abril, os americanos montaram uma operação cinematográfica para resgatar Jessica. Chegaram de helicóptero e invadiram o hospital derrubando portas a pontapés, apesar de os médicos terem oferecido as chaves. Toda a operação foi filmada e as imagens distribuídas, depois, para as redes de televisão. Bonita e com aparência frágil, Jessica era perfeita para despertar as emoções dos americanos. Na semana passada, ela se declarou perturbada por seu resgate ter sido usado para a propaganda de guerra. "Mas o que importa é que entraram lá e me levaram segura para casa", disse. Hoje ela faz fisioterapia para poder andar sem muletas. Virou celebridade, com todas as vantagens e algumas desvantagens desses momentos de exposição às multidões. Entre as vantagens estão as medalhas, as homenagens e a simpatia de seus compatriotas. Entre as desvantagens, está ter despertado a atenção do célebre pornógrafo Larry Flynt. Dono da revista Hustler, ele diz ter comprado fotos dela nua "confraternizando" com dois soldados em uma tenda militar. Flynt disse na semana passada que não vai publicar as fotos porque "Jessica é uma boa garota". Pelo que se conhece de Flynt, logo as fotos estarão publicadas.

 
 
 
 
topo voltar