Edição 1829 . 19 de novembro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
João Mellão Neto
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Política
Aos poucos, a
oposição sai da toca

Com inexperiência e timidez, neo-oposicionistas
usam frases de efeito, organizam protestos e
até cantam o Hino Nacional


Malu Gaspar


 

Roberto Castro/AE

"Berzoini é o ministro Doris, a moça má da novela Mulheres Apaixonadas."  

"O governo está criando o xaxado cívico: um passo para a frente e dois para trás."
Arthur Virgílio,
senador do PSDB do Amazonas

Há poucos dias, o senador José Agripino (PFL-RN) subia a arquibancada num estádio de futebol no interior de seu Estado e levou um susto quando a torcida começou a saudá-lo. "Faziam olas", relata, com orgulho. Seu colega Arthur Virgílio (PSDB-AM) conta que vive sendo convidado a posar para fotos com populares. "No Congresso ou nas ruas das cidades que visito", especifica, com uma ponta de satisfação. O deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA) perdeu o receio de participar de debates com universitários. "Ninguém vaia", regozija-se. Os dois senadores e o deputado sofrem as agruras de não pertencer mais à base de apoio do Palácio do Planalto, depois de oito anos de governo tucano – mas, como se vê, estão descobrindo as delícias de ser oposição. Nas últimas semanas, graças a alguns erros e gafes cometidos pelo governo, como a desengonçada exigência de que os velhinhos aposentados com mais de 90 anos fossem às filas do INSS para pedir um recadastramento, a oposição fez uma festa – e, pela primeira vez, mostrou que já tem alguma estrutura e articulação. Mas isso dá um trabalho...

Agora, ex-governistas dão expediente em Brasília na semana inteira. Desembarcam na segunda-feira, para bolar os ataques ao governo, e com freqüência ficam até sexta, para aproveitar deslizes de última hora. Na sexta, 7, por exemplo, amplificaram ao máximo a idéia do ministro Ricardo Berzoini de recadastrar os velhinhos acima de 90 anos – e ganharam generosos espaços nos jornais. Arthur Virgílio, esmerado em frases de efeito, chamou Berzoini de "ministro Doris", referindo-se à personagem da novela Mulheres Apaixonadas que vivia torturando os avós. Além de frases de efeito, Arthur Virgílio já é recordista em pedir CPI, requerer informações ao governo ou exigir a convocação de ministros ao Congresso Nacional. Já fez 140 pedidos de informação e pediu a instalação de cinco CPIs. Nenhuma saiu do papel, mas isso não vem ao caso. O que importa, como ensinou o PT quando militava na oposição, é fazer barulho. "A oposição passada dizia 'Fora FHC'. Nós queremos que Lula fique, nem que seja como castigo", diz ele.


Dida Sampaio/AE

"O governo se apaixonou pela mulher errada." (falando do FMI)

"Este é um governo de faz-de-conta." (sobre o trabalho de Duda Mendonça)
José Agripino, senador do PFL do Rio Grande do Norte

A nova oposição, sem nenhum pudor, tem percorrido os caminhos que os petistas desbravaram. O PFL, que nunca propusera uma ação de inconstitucionalidade contra uma medida governamental, especializou-se no tema. Neste ano, já propôs três. Uma foi indeferida e as outras duas ainda não foram julgadas. Os parlamentares aprenderam a obstruir votações. Na semana passada, impediram a realização de uma sessão que votaria a liberação de créditos suplementares ao governo. Em outra ocasião, retardaram uma votação por dezoito horas consecutivas. Cerca de um mês atrás, o PFL formou uma equipe que esquadrinha o Siafi, sistema que exibe os gastos do governo, para colher pequenos ou grandes desvios – e municiar a imprensa. Os pefelistas estão até criando o Instituto Laborare, uma versão liberal do Instituto Cidadania petista, cujo objetivo é discutir alternativas para a geração de empregos.

Uma das regras de ouro dos neo-oposicionistas é criar fatos e aparecer na mídia. Nesse campo, estão claudicando ainda, seja por inexperiência, seja por timidez. Há poucos dias, num flagrante de inexperiência, encenaram uma "sessão de enforcamento" dos brasileiros, em frente ao Congresso Nacional. Era para denunciar o aumento de uma contribuição tributária, cujo nome ninguém sabe direito. Naturalmente, a platéia era um deserto desolador. Paciência. Dissabores de oposição. Na madrugada em que se votou a reforma tributária na Câmara, os deputados do PFL, contrários ao texto, retiraram-se do plenário. Alguém teve a idéia de que todos cantassem o Hino Nacional, para ressaltar o caráter patriótico do protesto. Perfilados, entoando o hino, alguns parlamentares não escondiam a timidez. O deputado Luiz Carlos Santos (PFL-SP), encabulado, cochichava para o colega ao lado: "Só canto porque é de madrugada". Mas que cantou, cantou.

 
 
 
 
topo voltar