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Justiça
Como funciona a quadrilha
de Rocha Mattos
Um
investigador relata que a turma
tinha até contabilidade própria, tão
minuciosa que anotava inclusive
gastos com corridas de táxi

Maurício
Lima e Policarpo Junior
J. F. Diorio/AE
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Paulo Pinto/AE
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| O
delegado José Augusto Bellini (à esq.) e o juiz Rocha
Mattos, ambos presos em São Paulo sob suspeita de fazer parte
da quadrilha: a defesa já aponta falhas policiais |
Na
manhã do dia 30 de outubro, quando fez uma devassa no apartamento
de Norma Regina Cunha, auditora aposentada da Receita Federal, a
Polícia Federal já sabia que encontraria elementos
úteis para a investigação que recebeu o nome
de Operação Anaconda. Com base nas conversas telefônicas
que interceptaram, os agentes estavam informados de que Norma Cunha,
ex-mulher do juiz João Carlos da Rocha Mattos, lidava com
um bom volume de informações. A colheita, porém,
foi até melhor do que a polícia imaginava. Na semana
passada, um dos investigadores da Operação Anaconda,
que tem amplo acesso ao material apreendido, contou a VEJA que,
no apartamento de Norma, os agentes federais encontraram vários
comprovantes de depósitos bancários, pilhas de dinheiro
vivo dólares, euros, guaranis e moedas de outros dez
países , um livro de capa preta e um arquivo de computador.
Levados à perícia, o livro e o arquivo revelaram-se
fundamentais. O investigador diz que o livro traz a contabilidade
da quadrilha integrada por juízes, policiais e delegados
referente ao ano de 2000. E o arquivo de computador, que impresso
rendeu cerca de 100 páginas, reúne a escritura contábil
de 2002.
O
exame desses documentos levou a Polícia Federal a reconsiderar
o papel de Norma Cunha na estrutura da quadrilha. "Ela é
muito mais importante do que imaginávamos", diz o investigador.
De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério
Público Federal, o juiz João Carlos da Rocha Mattos,
preso e afastado do comando da 4ª Vara Criminal Federal de
São Paulo, é o "mentor" da quadrilha mas a
polícia, agora, suspeita que, na linha de frente, também
ficava a auditora aposentada. Segundo o investigador, o livro de
capa preta traz anotações manuscritas e detalhadas,
com nomes de empresas e pessoas que supostamente pagaram à
organização e dela receberam dinheiro. Há minúcias,
como um gasto de 2,60 reais para uma passagem de ônibus. Há
retiradas de um certo "JCRM" que chegam em alguns casos a 100.000
reais, e todos os valores são convertidos ao câmbio
do dia. A Polícia Federal suspeita que "JCRM" sejam as iniciais
do nome do juiz João Carlos da Rocha Mattos. As abreviaturas
e os apelidos, ainda segundo o investigador que teve acesso ao livro-caixa,
são bastante freqüentes. Há vários pagamentos
para "Bel", "César" e "AAC".
Sem checar a conta bancária dos supostos beneficiários,
é temerário antecipar a identidade de quem recebia
os pagamentos. Bel, por coincidência, é o apelido do
delegado José Augusto Bellini, também preso sob a
acusação de pertencer ao grupo. Outro detido é
o agente federal César Herman Rodriguez, que pode ser o "César"
da contabilidade, segundo especula a polícia. E "AAC" ainda
é uma incógnita, mas um relatório do Departamento
de Inteligência da PF informa que as iniciais podem ser do
subprocurador da República em Brasília, Antônio
Augusto César. A suspeita de que "AAC" seja o subprocurador
não se deve apenas à presença da sigla na contabilidade.
Um "AAC" é mencionado com freqüência nas conversas
telefônicas interceptadas, e o subprocurador Antônio
Augusto César é o locatário da sala onde funciona
o escritório de outro suspeito de integrar a quadrilha, o
advogado Affonso Passarelli, preso na semana passada. Quando a PF
fez uma devassa no escritório de Affonso Passarelli, em São
Paulo, o subprocurador apareceu na sala e protestou contra a apreensão
de um computador, que alegou ser seu. O equipamento não foi
apreendido.
O
subprocurador Antônio Augusto César admite que conhece
quase todos os personagens denunciados à Justiça,
mas nega qualquer envolvimento com a turma. "Sempre fui transparente,
gosto da verdade por inteiro e não quero esconder nada",
diz. Na semana passada, com base nas informações da
polícia, a corregedoria da Procuradoria-Geral da República
abriu uma sindicância para apurar o caso do subprocurador.
Na história da corregedoria, há registro de apenas
dois casos de procuradores que sofreram punição interna.
Um deles é justamente Antônio Augusto César,
flagrado advogando contra a União, o que é proibido
por lei. Ele foi suspenso. Hoje, está licenciado. Se for
confirmada a participação de um procurador da República
no esquema, será uma prova de que a corrupção
compartimentalizada em poderes federais é um mito. O caso
do juiz João Carlos da Rocha Mattos tem sido tratado como
se fosse uma quadrilha "do Judiciário". Na verdade, é
ingenuidade imaginar uma quadrilha que atue num poder específico.
Para aplicar seus golpes, a criminalidade sempre precisa de comparsas
operando em outros poderes. É por isso que a corrupção
é considerada um mal epidêmico.
No material apreendido no apartamento de Norma Cunha, a Polícia
Federal constatou seu hábito de gravar as próprias
conversas. A maior parte dos diálogos é de natureza
pessoal. Num deles, de acordo com o relato do investigador a VEJA,
Norma pede que Rocha Mattos dê mais atenção
ao filho. O juiz diz que anda muito ocupado e, segundo o mesmo investigador,
a ex-mulher fica irritada e diz que "se fosse para contar dólares
com o Luiz Estevão e o Mazloum você poderia". Luiz
Estevão é ex-senador, teve seu mandato cassado em
2000 por mentir no Congresso sobre seu envolvimento com o superfaturamento
da obra do Tribunal Regional do Trabalho, em São Paulo. Foi
absolvido na Justiça, porém, por uma sentença
prolatada pelo juiz Casem Mazloum. Há outra passagem com
o nome de Luiz Estevão. Num diálogo de onze minutos
e 31 segundos, Norma conversa com o agente César Herman,
que reclama por nunca ter sido ajudado por Rocha Mattos, ao que
Norma responde: "É porque você não se chama
Luiz Estevão, Wagner Baptista Ramos, Fausto Solano ou Enrico.
Eu não consigo dormir e tenho um filho com o nome desse cafajeste".
O mesmo investigador contou a VEJA que, entre o material sob perícia
do Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília,
há um rascunho manuscrito contestando o laudo que confirmava
o superfaturamento do prédio do TRT paulista. Os agentes
da PF constataram que o rascunho confere, no conteúdo, com
a contestação do laudo apresentada à Justiça
pelos advogados dos acusados. Há outra coincidência:
no computador pessoal do juiz Rocha Mattos, os agentes encontraram
uma cópia da sentença de Casem Mazloum que absolveu
o ex-senador. "Eu pedi emprestada para dar uma olhada", diz Rocha
Mattos. "Estava interessado em conhecer a sentença porque
havia conversado com o Casem e soube que ela estava muito bem fundamentada.
Um primor." O juiz Casem Mazloum, da 1ª Vara Criminal Federal,
em São Paulo, deu outra explicação a VEJA,
na semana passada. Por meio de seu advogado, Adriano Vanni, disse
que nunca enviou cópia da sentença a Rocha Mattos.
"Ele deve ter apanhado na internet", especulou o advogado do juiz.
Wilton Junior/AE
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| O
ex-senador Luiz Estevão: "Meu nome é usado em
tudo. Até em peça de teatro" |
O ex-senador Luiz Estevão nega envolvimento com o caso. "Não
conheço esse senhor, essa senhora e nenhuma dessas pessoas",
afirma ele, referindo-se ao juiz Rocha Mattos, sua ex-mulher e demais
suspeitos. Luiz Estevão diz que conhece o juiz Casem Mazloum,
a quem prestou depoimento em seu julgamento. No caso do laudo técnico,
ele também contesta. "Minha defesa nunca tratou da questão
de quanto foi gasto na obra do TRT. Minha defesa era apenas para
mostrar que eu nunca participei daquela obra", explica. Luiz Estevão,
que hoje se dedica a administrar o que restou de suas empresas e
a promover um time de futebol de Brasília, lamenta o aparecimento
de seu nome. "Infelizmente, para minha tristeza, não consigo
desfazer minha notoriedade. E o pior: é uma notoriedade nociva.
Estou pagando um preço absurdo. Parece brincadeira. Meu nome
é usado para tudo. Até em peça de teatro. Era
só o que me faltava agora." Na semana passada, em entrevista
a VEJA, por escrito, Norma Cunha, que se encontra presa em São
Paulo, isentou Luiz Estevão, mas acusou seu ex-marido. Na
entrevista, ela conta que:
Os diálogos em que se refere a Luiz Estevão
não são uma acusação, mas apenas um
desabafo, provocado pelas dores da separação matrimonial
de Rocha Mattos.
Nunca soube, ao contrário do que diz Rocha Mattos,
que havia em seu apartamento cópias das fitas de Santo André,
nas quais haveria conversas de vários petistas.
Rocha Mattos tinha conduta irregular e, por isso,
gravava os próprios telefonemas. "Eu resolvi demonstrar que
ele estava na companhia de pessoas perniciosas que iriam destruí-lo",
escreveu Norma.
O dinheiro encontrado em seu apartamento é fruto da
venda de imóveis no exterior, de auditorias e dos anos em
que trabalhou na Receita Federal. Ela admitiu, porém, que
alguns bens não foram declarados à Receita.
Em valores, pelo menos até agora, o caso está muito
aquém de outros escândalos. Só como comparação,
o juiz Nicolau dos Santos Neto, envolvido no desvio de dinheiro
do TRT paulista, tinha 30 milhões de reais em suas contas
bancárias. Na Operação Anaconda, não
se encontrou nenhum valor parecido com esse. O que chama atenção
no caso, pelo que já foi investigado, é a voracidade
com que os membros da suposta quadrilha agiam. Há golpes
de 2.000 reais. Há até pagamentos em mercadoria, como
um aparelho de televisão. Na denúncia do Ministério
Público, consta que um dos acusados, que se encontra preso,
chegou a interceptar um vôo internacional apenas para capturar
um mexicano que lhe devia dinheiro. Na semana passada, o empresário
chinês Law Kin Chong, considerado pela Polícia Federal
um dos maiores contrabandistas do Brasil, admitiu que cedia alguns
produtos ao delegado José Augusto Bellini. "Coisa de 300
reais", disse Law aos deputados da CPI da Pirataria. Trata-se de
um festival de varejo.
Celso Junior/AE
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Divulgação
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| O
chinês Law Chong (à esq.), ao depor numa
CPI em Brasília, e o magistrado Silveira e sua mulher,
a juíza Vera Carla |
Na
Justiça, por artes do corporativismo, é comum que
juízes acusados acabem absolvidos ou punidos com penas leves,
como advertência ou suspensão. Na semana passada, o
desembargador Eustáquio Silveira e sua mulher, a juíza
Vera Carla Silveira, ambos atuando em Brasília e suspeitos
de vender sentenças, foram condenados à aposentadoria
compulsória. Ficarão em casa, recebendo um salário
conjunto de 15.000 reais. Mas, para que uma investigação
chegue a bom termo, o trabalho policial tem de ser feito com rigor
e correção. Na Operação Anaconda, é
por essa fresta que os advogados dos suspeitos começaram
a atuar. Alegam que o auto de apreensão no apartamento de
Norma Cunha, por exemplo, que, conforme manda a lei, deveria ser
encerrado no próprio local, só foi concluído
em Brasília. Alegam, ainda, que uma testemunha assinou o
auto de apreensão de duas buscas diferentes, que ocorriam
na mesma hora. "As provas podem ser consideradas inválidas
mais tarde", diz o jurista Tales Castelo Branco. E tudo virará
só espuma.
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