Edição 1829 . 19 de novembro de 2003

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Governo
Lula como chanceler,
Dirceu como presidente

A pouco mais de um mês de completar
um ano no poder, Lula ainda tem amadores
na equipe e falta-lhe um projeto de governo


Eurípedes Alcântara

 
Reuters
Lula na África com o ministro Gil: seis dias fora de Brasília para cada quatro no Planalto

Notícias diárias sobre o governo Lula

Nem os presidentes que desfrutam picos de popularidade como Luiz Inácio Lula da Silva conseguem escapar do desgaste de uma seqüência de trapalhadas de seus ministros. Nas duas últimas semanas, a boa imagem de Lula foi bombardeada por disparates administrativos produzidos em ritmo alucinante por seus auxiliares. Foram duas semanas em que o Brasil pareceu viver uma forma nova de governo, uma espécie de coabitação, em que o ramo do executivo foi comandado pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu, enquanto o papel decorativo de chefe de Estado ficou a cargo de Lula. Não é segredo para ninguém que Dirceu e Lula formam um sistema único. Dirceu reage com contrariedade quando alguém se refere ao seu status de ministro plenipotenciário. Mas a realidade é que nos últimos dias Lula e seu auxiliar pareciam ter trocado de lugar. Como descreveu com a ironia habitual o colunista Joelmir Beting, Lula tem se comportado como um "presidente itinerante", um "chanceler" que tem como obrigação visitar Brasília de vez em quando. Os números do vácuo presidencial são impressionantes. Em menos de um ano de governo, Lula saiu 21 vezes do Brasil e visitou 38 países. Antes que 2004 chegue, para cada quatro dias passados no batente em Brasília, Lula terá ficado seis fora da capital. É um recorde impressionante, ainda mais para Lula, que acusava Fernando Henrique Cardoso de abandonar o governo "para se exibir para as elites lá fora".

 
Sergio Lima/Folha Imagem
José Dirceu cercado de microfones: carga pesada de poder e trabalho

Errou-se no atacado e no varejo. O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, posava com Anne Krueger, do Fundo Monetário Internacional (FMI), celebrando um novo empréstimo, e Lula dizia na África que ainda seria preciso discutir as bases do acordo que já estava selado. Ricardo Berzoini, da Previdência, baixou uma medida que colocou nas filas do INSS brasileiros com mais de 90 anos convocados a provar que estavam vivos. Das diversas maneiras de prevenir fraudes dessa natureza, o ministro escolheu a mais insensata. Outra demonstração do descompasso geral que impera no governo foi a atitude, até agora sem conseqüências disciplinares, de Luiz Pinguelli Rosa, presidente da Eletrobrás. Embrenhou-se em uma disputa de poder com a ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff. Diante de um impasse motivado por divergências contratuais com a geradora de energia El Paso, Pinguelli ameaçou ocupar militarmente a usina. No dia seguinte, admitiu que se excedera, mas o estrago estava feito.

As trapalhadas dos ministros são mais desconcertantes por confirmar a sensação de que o governo, desde seu início, não possui um fio condutor. Parece uma ossada arqueológica com ossos dispersos aleatoriamente pelo terreno. Falta-lhe uma espinha dorsal que unifique o conjunto. E aqui não se está falando apenas do fiasco do programa Fome Zero, vitrine política do PT, que nunca saiu do ponto de partida. Nem se está falando do comportamento da ministra Benedita da Silva, que gastou dinheiro público em viagem particular. Ou da transparência vítrea de uma dúzia de outros ministros que parecem fantasmas na Esplanada dos Ministérios, sem que se possa entender o que estão fazendo lá. O PT, por enquanto, já demonstrou ter tido um belo projeto eleitoral. Tem também um desinibido projeto de poder pela maneira com que seus integrantes o desfrutam com sabor e agressividade. Depois da posse, o PT foi com fúria à distribuição de cargos entre seus militantes e realizou o que se convencionou chamar de "aparelhamento do Estado". O que falta ao PT é um projeto de governo e, sem ele, nunca se terá um projeto de país.

 
Tasso Marcelo/AE
Idoso na fila do INSS para mostrar a Berzoini que está vivo: insensatez

Há resultados positivos. O PT no governo impediu a explosão inflacionária ao agir de forma responsável nas finanças públicas. Fez isso com convicção férrea, expressa pelo próprio Lula ao afirmar que, se errasse a mão nessa área e deixasse o Brasil quebrar, "nem o PT nem qualquer outro partido de esquerda voltaria ao poder pelos próximos cinqüenta anos". Na campanha, Lula prometeu "trabalhar 24 horas" e disse que não daria trégua na cobrança aos ministros. Com 32 ministros, isso é muito complicado. Com esses 32 que lá estão é praticamente impossível. Alguns deles sofrem de falta de convencimento ideológico para cumprir suas tarefas conforme as exigências de um país onde vigora um regime capitalista. Outros se paralisam por falta de experiência que os leve a soluções de governança aceitáveis. Há ministros que se chocam por disputar as mesmas fatias de atividade, como acontece na área social.

É sobre-humana a carga de trabalho nos ombros do ministro José Dirceu. Na ausência de Lula, tem cabido a Dirceu enfrentar algumas questões relativas ao rumo do governo. No domingo passado, dia 9, em Campos do Jordão, durante o 4º Foro Iberoamérica, ele defendeu a integração militar dos países da América do Sul. O objetivo seria ajudar a Colômbia, país onde a guerrilha das Farc, unida aos narcotraficantes, quer tomar o poder. Segundo o argumento de Dirceu, é dever dos sul-americanos encontrar uma solução para a guerra civil no país vizinho, para que os atritos entre os guerrilheiros e o governo não sirvam de pretexto para uma intervenção americana. "Eles (os americanos) estariam invadindo a Amazônia, de onde não sairiam mais", afirmou Dirceu. Pergunta: o Brasil está interessado em confrontar os americanos neste momento ou seu interesse é, ao contrário, celebrar com os Estados Unidos e os demais países das três Américas um acordo de livre-comércio, a Alca? As duas posições são excludentes. É justamente por não ter um projeto cristalino sobre esse decisivo assunto que a posição do Brasil em relação à Alca parece tão fluida. A área social, que deveria ser o ponto forte do governo, apresenta desencontros piores ainda. Toma-se um programa emergencial de pronto socorro aos miseráveis como se só isso justificasse a existência de um novo governo no Brasil. Pior, promete-se tudo aos pobres, como se "vontade política" enchesse panela, e faz-se só aquilo que as condições do Tesouro permitem. Ou seja, quase nada, como todos os governos anteriores.

 
 
 
 
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