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Governo
Lula como chanceler,
Dirceu como presidente
A
pouco mais de um mês de completar
um ano no poder, Lula ainda tem amadores
na equipe e falta-lhe um projeto de governo

Eurípedes
Alcântara
Reuters
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| Lula
na África com o ministro Gil: seis dias fora de Brasília
para cada quatro no Planalto |
Nem
os presidentes que desfrutam picos de popularidade como Luiz Inácio
Lula da Silva conseguem escapar do desgaste de uma seqüência
de trapalhadas de seus ministros. Nas duas últimas semanas,
a boa imagem de Lula foi bombardeada por disparates administrativos
produzidos em ritmo alucinante por seus auxiliares. Foram duas semanas
em que o Brasil pareceu viver uma forma nova de governo, uma espécie
de coabitação, em que o ramo do executivo foi comandado
pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu, enquanto o papel
decorativo de chefe de Estado ficou a cargo de Lula. Não
é segredo para ninguém que Dirceu e Lula formam um
sistema único. Dirceu reage com contrariedade quando alguém
se refere ao seu status de ministro plenipotenciário. Mas
a realidade é que nos últimos dias Lula e seu auxiliar
pareciam ter trocado de lugar. Como descreveu com a ironia habitual
o colunista Joelmir Beting, Lula tem se comportado como um "presidente
itinerante", um "chanceler" que tem como obrigação
visitar Brasília de vez em quando. Os números do vácuo
presidencial são impressionantes. Em menos de um ano de governo,
Lula saiu 21 vezes do Brasil e visitou 38 países. Antes que
2004 chegue, para cada quatro dias passados no batente em Brasília,
Lula terá ficado seis fora da capital. É um recorde
impressionante, ainda mais para Lula, que acusava Fernando Henrique
Cardoso de abandonar o governo "para se exibir para as elites lá
fora".
Sergio Lima/Folha Imagem
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| José
Dirceu cercado de microfones: carga pesada de poder e trabalho
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Errou-se
no atacado e no varejo. O ministro da Fazenda, Antonio Palocci,
posava com Anne Krueger, do Fundo Monetário Internacional
(FMI), celebrando um novo empréstimo, e Lula dizia na África
que ainda seria preciso discutir as bases do acordo que já
estava selado. Ricardo Berzoini, da Previdência, baixou uma
medida que colocou nas filas do INSS brasileiros com mais de 90
anos convocados a provar que estavam vivos. Das diversas maneiras
de prevenir fraudes dessa natureza, o ministro escolheu a mais insensata.
Outra demonstração do descompasso geral que impera
no governo foi a atitude, até agora sem conseqüências
disciplinares, de Luiz Pinguelli Rosa, presidente da Eletrobrás.
Embrenhou-se em uma disputa de poder com a ministra das Minas e
Energia, Dilma Rousseff. Diante de um impasse motivado por divergências
contratuais com a geradora de energia El Paso, Pinguelli ameaçou
ocupar militarmente a usina. No dia seguinte, admitiu que se excedera,
mas o estrago estava feito.
As trapalhadas dos ministros são mais desconcertantes por
confirmar a sensação de que o governo, desde seu início,
não possui um fio condutor. Parece uma ossada arqueológica
com ossos dispersos aleatoriamente pelo terreno. Falta-lhe uma espinha
dorsal que unifique o conjunto. E aqui não se está
falando apenas do fiasco do programa Fome Zero, vitrine política
do PT, que nunca saiu do ponto de partida. Nem se está falando
do comportamento da ministra Benedita da Silva, que gastou dinheiro
público em viagem particular. Ou da transparência vítrea
de uma dúzia de outros ministros que parecem fantasmas na
Esplanada dos Ministérios, sem que se possa entender o que
estão fazendo lá. O PT, por enquanto, já demonstrou
ter tido um belo projeto eleitoral. Tem também um desinibido
projeto de poder pela maneira com que seus integrantes o desfrutam
com sabor e agressividade. Depois da posse, o PT foi com fúria
à distribuição de cargos entre seus militantes
e realizou o que se convencionou chamar de "aparelhamento do Estado".
O que falta ao PT é um projeto de governo e, sem ele, nunca
se terá um projeto de país.
Tasso Marcelo/AE
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| Idoso
na fila do INSS para mostrar a Berzoini que está vivo: insensatez
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Há
resultados positivos. O PT no governo impediu a explosão
inflacionária ao agir de forma responsável nas finanças
públicas. Fez isso com convicção férrea,
expressa pelo próprio Lula ao afirmar que, se errasse a mão
nessa área e deixasse o Brasil quebrar, "nem o PT nem qualquer
outro partido de esquerda voltaria ao poder pelos próximos
cinqüenta anos". Na campanha, Lula prometeu "trabalhar 24 horas"
e disse que não daria trégua na cobrança aos
ministros. Com 32 ministros, isso é muito complicado. Com
esses 32 que lá estão é praticamente impossível.
Alguns deles sofrem de falta de convencimento ideológico
para cumprir suas tarefas conforme as exigências de um país
onde vigora um regime capitalista. Outros se paralisam por falta
de experiência que os leve a soluções de governança
aceitáveis. Há ministros que se chocam por disputar
as mesmas fatias de atividade, como acontece na área social.
É
sobre-humana a carga de trabalho nos ombros do ministro José
Dirceu. Na ausência de Lula, tem cabido a Dirceu enfrentar
algumas questões relativas ao rumo do governo. No domingo
passado, dia 9, em Campos do Jordão, durante o 4º Foro
Iberoamérica, ele defendeu a integração militar
dos países da América do Sul. O objetivo seria ajudar
a Colômbia, país onde a guerrilha das Farc, unida aos
narcotraficantes, quer tomar o poder. Segundo o argumento de Dirceu,
é dever dos sul-americanos encontrar uma solução
para a guerra civil no país vizinho, para que os atritos
entre os guerrilheiros e o governo não sirvam de pretexto
para uma intervenção americana. "Eles (os americanos)
estariam invadindo a Amazônia, de onde não sairiam
mais", afirmou Dirceu. Pergunta: o Brasil está interessado
em confrontar os americanos neste momento ou seu interesse é,
ao contrário, celebrar com os Estados Unidos e os demais
países das três Américas um acordo de livre-comércio,
a Alca? As duas posições são excludentes. É
justamente por não ter um projeto cristalino sobre esse decisivo
assunto que a posição do Brasil em relação
à Alca parece tão fluida. A área social, que
deveria ser o ponto forte do governo, apresenta desencontros piores
ainda. Toma-se um programa emergencial de pronto socorro aos miseráveis
como se só isso justificasse a existência de um novo
governo no Brasil. Pior, promete-se tudo aos pobres, como se "vontade
política" enchesse panela, e faz-se só aquilo que
as condições do Tesouro permitem. Ou seja, quase nada,
como todos os governos anteriores.
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