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Diogo
Mainardi
A
África que
Lula adorou
"Lula
encantou-se com a capital da Namíbia,
produto arquitetônico do apartheid. É bonita e
limpa porque foi feita por brancos e para brancos.
Os negros foram segregados em Katatura, feia e
suja. Lula não foi a Katatura"
A África
é feia e suja, segundo Lula. Exceto Windhoek, capital da
Namíbia. Windhoek é bonita e limpa. Tanto que nem
parece a África. Gilberto Gil e Benedita da Silva concordaram
com o presidente. Quem também concordou foi outra ministra
negra do governo, Matilde Ribeiro, que recebe um salário
para promover a igualdade racial no Brasil.
Windhoek
é bonita e limpa porque foi feita por brancos e para brancos.
Fundada por descendentes de holandeses, foi sucessivamente ocupada
pela Alemanha, Inglaterra e África do Sul. Lula apreciou
muito a arquitetura de Windhoek. Ele acha que a eleição
a presidente lhe conferiu legitimidade para proferir julgamentos
estéticos. No caso de Windhoek, todas as atrações
arquitetônicas foram construídas por brancos, durante
o regime colonial. Como a catedral luterana, que fica numa rua chamada
Fidel Castro, em homenagem ao ditador de Cuba. Ou o Congresso Nacional,
que fica numa avenida chamada Robert Mugabe, em homenagem ao ditador
do Zimbábue.
A
África do Sul, depois da II Guerra Mundial, implantou o regime
de apartheid na Namíbia. Windhoek se tornou uma cidade exclusivamente
branca, e permaneceu assim até 1990. Os pardos foram transferidos
à força para o subúrbio de Khomasdal. Os negros
foram segregados em Katatura, ainda mais distante. Katatura significa
"o lugar onde não queremos estar". Como o resto da África,
é feia e suja. Um amontoado de favelas, onde só moram
negros. Tem até uma favela chamada Babilônia, como
a do Rio de Janeiro. O crítico de arte Lula não emitiu
uma opinião estética sobre Katatura. Ele não
foi a Katatura.
Tecnicamente,
Lula seria considerado um pardo no regime de apartheid. Não
poderia morar na bonita e limpa Windhoek. Nem poderia ter casado
com uma branca. Mas isso não importa. O revisionismo histórico
é uma especialidade dos petistas. Eles já engoliram
tudo o que disseram no passado a respeito da ditadura militar, dos
coronéis nordestinos, dos alimentos transgênicos, da
reforma agrária, do salário mínimo, do FMI
e do neoliberalismo malaniano. Faltava apenas enaltecer a política
social do apartheid.
O
importante, agora, é descobrir se o encantamento do presidente
com o produto arquitetônico do apartheid terá alguma
conseqüência prática. O planejamento urbano de
Windhoek levou à demolição arbitrária
de todos os barracos pertencentes a negros e pardos. O Rio de Janeiro,
como Windhoek, ficaria mais bonito e limpo sem suas 700 favelas.
O governo federal poderia incendiar todos os barracos e reflorestar
as encostas dos morros. Benedita da Silva e os outros favelados
seriam removidos para além de Duque de Caxias. A microcriminalidade
diminuiria, sobretudo se os favelados, para entrar no Rio de Janeiro,
fossem submetidos a uma meticulosa inspeção, como
acontecia em Windhoek.
Depois
de elogiar o cenário do apartheid, Lula assumiu novamente
o papel de crítico de arte e prometeu que o Brasil participaria
da Renascença africana. Lula não gosta de pobre. Ele
gosta mesmo é de Palladio e Sansovino.
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