Edição 1829 . 19 de novembro de 2003

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Entrevista: Jessica Stern
O terror vai continuar

Especialista americana que entrevistou
mais de 100 terroristas prevê novos
ataques como os de 11 de setembro


José Eduardo Barella

Nos últimos quatro anos, a americana Jessica Stern dedicou-se a uma tarefa arriscada: entrevistar terroristas. Ela esteve na Indonésia, Índia, Paquistão, Israel e Líbano e entrevistou mais de uma centena de pessoas envolvidas com terrorismo religioso. O resultado dessa pesquisa está no livro Terror in the Name of God (Terror em Nome de Deus), lançado neste ano nos Estados Unidos. Professora da Universidade Harvard e especialista em armas de destruição em massa e terrorismo, Jessica nunca foi uma pesquisadora de gabinete. Diretora do Conselho de Segurança Nacional no governo Bill Clinton, ela foi enviada para Moscou com a missão de assessorar o governo russo na elaboração de medidas para impedir o contrabando de armas nucleares, químicas e biológicas do antigo arsenal soviético. Sua experiência na Rússia serviu de modelo para a personagem interpretada por Nicole Kidman no filme O Pacificador, de 1997. "A personagem vivida por Nicole é fictícia, mas o filme antecipou a possibilidade de um ataque terrorista nos Estados Unidos", diz a professora. Aos 45 anos, Jessica Stern falou a VEJA de Boston, onde vive com o marido e o filho de 2 anos.

Veja – A senhora passou quatro anos entrevistando terroristas de várias religiões e ideologias. Qual sua conclusão?
Jessica – O que mais me chamou a atenção foi o que eles têm em comum, independentemente da crença religiosa. Em primeiro lugar, o ressentimento em relação à chamada nova ordem mundial – ou seja, todos se consideram excluídos do processo de globalização econômica. Em segundo lugar, a estratégia usada pelas lideranças dessas organizações para cooptar e mobilizar os combatentes, principalmente os jovens. Todos os grupos terroristas que estudei tendem a enfatizar o sentimento de humilhação a que seus seguidores são submetidos pelo inimigo e o perigo que este representa. O chavão é que a organização está sob ameaça de uma entidade externa e que a única saída para recuperar a dignidade é pegar em armas e lutar contra esse inimigo.

Veja – A senhora teve medo de fazer entrevistas frente a frente com terroristas assumidos?
Jessica – O que mais temi foi justamente um terrorista americano, cujo nome não posso divulgar, ligado a uma organização que combate o governo. Assim como ele, outros que entrevistei me fizeram ameaças veladas. Mas, de uma maneira geral, não corri riscos – afinal, todos haviam concordado em conversar comigo. Em algumas situações, notei que o entrevistado fugia das respostas ou tentava me enganar. Em outras, quando a conversa se centrava em assuntos pessoais e em seus motivos para abraçar o terrorismo, muitos se mostraram ansiosos para falar. O relato mais impressionante foi de um ex-líder separatista muçulmano da Caxemira. Ele me contou como fundou e dirigiu um grupo terrorista com o objetivo de reviver a era de ouro da civilização islâmica. E como se sentia profundamente arrependido dos crimes que havia cometido em nome desse sonho.

Veja – Há diferenças entre um terrorista religioso e aquele que se inspira numa causa política?
Jessica – Sim. A diferença principal é que um líder de um grupo terrorista religioso pode evocar o apoio da maior autoridade que existe, Deus. Isso facilita ainda sua tarefa de persuadir seus seguidores de que estão lutando por valores eternos, e não por questões terrenas.

Veja – Por que os grupos terroristas islâmicos preferem os atentados suicidas?
Jessica – Porque, em termos de custo-benefício, são mais vantajosos economicamente para a organização terrorista. Num atentado suicida não é necessário planejar a rota de fuga. Detalhe que evita a possibilidade de baixas entre os outros integrantes do bando. Ismail Abu Shanab, líder político do Hamas morto em agosto pelos israelenses, desenvolveu uma teoria sobre o perfil ideal do terrorista para cada tipo de ação. O que ataca com faca, segundo ele, deve ser frio e calculista. Já o terrorista que utiliza arma de fogo necessita de um longo treinamento. O homem-bomba, por sua vez, não exige treinamento algum. Apenas o que Abu Shanab chamava de "um momento de coragem". Ou seja, o maior trabalho do Hamas é recrutar um jovem palestino que possa demonstrar esse sentimento. De acordo com Abu Shanab, basta procurar alguém que tenha presenciado ou sofrido alguma ação violenta por parte das tropas israelenses nos territórios ocupados. Essa pessoa certamente teria esse sentimento de coragem muito bem desenvolvido, com base no ódio à ocupação israelense.

Veja – A senhora acredita que os atentados suicidas vão prosseguir por muito tempo?
Jessica – O terrorismo costuma alternar sempre suas táticas e características de ação. Mas os ataques de homens-bomba certamente vão continuar por um bom tempo, pelo menos enquanto existirem pessoas dispostas a executá-los. Em alguns lugares, como na Palestina, estamos assistindo a uma epidemia de atentados suicidas. É o reflexo do sentimento de desespero e desilusão de uma sociedade inteira. Até pouco tempo atrás, o perfil-padrão de um homem-bomba palestino era um jovem de 18 a 25 anos, desempregado, solteiro, sem perspectiva de futuro e morador de um acampamento de refugiados. Hoje, esse perfil já não serve mais. Têm sido comuns ataques suicidas realizados por mulheres ou jovens de classe média. Os líderes desses grupos terroristas sabem disso e usam esses jovens para obter o que buscam, a morte e a destruição. Em situações assim, a resposta militar pura e simples pode não ser suficiente e torna muito difícil a tarefa de combater esse tipo de terror.

Veja – É possível derrotar o terror?
Jessica – Não se trata de uma guerra que possa ser vencida no sentido de que um dia simplesmente vamos acabar de vez com o terror. Mas é possível combatê-lo de forma mais eficiente. A luta contra o terror exige uma ampla mobilização, envolvendo esforços em diferentes níveis. É preciso reunir esforço militar e diplomático, além de criar leis internacionais padronizadas, entre outras ações. A maneira como os Estados Unidos vinham conduzindo a guerra ao terrorismo desde os atentados de Nova York e Washington em 2001 estava correta até o momento em que o presidente George W. Bush decidiu invadir o Iraque. A partir daí, o governo americano cometeu uma série de erros que tornaram muito mais difícil a tarefa que o próprio Bush havia proposto.

Veja – Quais foram os erros de Bush?
Jessica – O governo americano não mostrou provas suficientes para convencer o mundo de que Saddam Hussein representava uma ameaça iminente para a segurança internacional. Assim, não é possível concordar com a invasão. O governo Bush mostrou-se eficiente em derrubar o regime de Saddam, mas fracassou em criar um governo funcional em seu lugar. No fim, a ocupação militar americana fez apenas aumentar a ameaça terrorista. Ou seja, o contrário do que se pretendia com a queda de Saddam. A imagem de Bagdá sendo ocupada por forças dos Estados Unidos e a crescente insatisfação dos iraquianos com o vácuo de poder que se seguiu, por culpa exclusiva da inépcia americana, transformaram o Iraque numa meca para os grupos terroristas internacionais. Pior que estimular a entrada no Iraque de terroristas muçulmanos foi dar motivos para que esses fundamentalistas obtivessem apoio da população.

Veja – O que os Estados Unidos deveriam fazer para corrigir os erros cometidos no Iraque?
Jessica – O mais importante é que os iraquianos possam tomar as rédeas do poder o mais rapidamente possível. Eles precisam governar a si próprios, embora ainda necessitem da ajuda e da colaboração da comunidade internacional. Além disso, acho que o governo Bush não deveria contentar-se em perseguir o rei ou o ditador que não segue sua política externa. Deveria ficar atento aos efeitos da política americana na vida das pessoas de outros países. Um exemplo vem da Arábia Saudita. Atualmente, indivíduos ou pequenos grupos são capazes de colocar em risco a segurança nacional dos Estados Unidos, como os atentados de 11 de setembro deixaram claro.

Veja – O terrorismo islâmico parece mais terrível e determinado que qualquer outro. A senhora concorda?
Jessica – Todas as religiões produziram fanáticos e terroristas ao longo da história, incluindo o cristianismo e o judaísmo. O extremismo islâmico é responsável, hoje, pela maioria dos atentados no mundo, e há várias razões para isso. Boa parte dos países muçulmanos é governada por regimes ditatoriais e corruptos, que só fizeram aumentar o sentimento de frustração da população. É preciso lembrar que os Estados Unidos sempre preferiram apoiar esse tipo de governo no mundo muçulmano. O apoio americano incondicional a Israel, a despeito da política israelense nos territórios ocupados, acabou alimentando esse sentimento de ódio.

Veja – Isso é suficiente para levar alguém a se transformar num homem-bomba e morrer para matar pessoas inocentes a sua volta?
Jessica – É evidente que a maioria das pessoas que se sentem humilhadas não está disposta a tirar a própria vida ou a matar inocentes. Ocorre que os líderes de grupos terroristas costumam manipular, cinicamente, o sentimento de desespero e humilhação, sobretudo entre os seguidores mais jovens. Eles acabam convencidos de que a melhor maneira de enfrentar o problema é matar os outros e a si próprios.

Veja – Por que as famílias de terroristas suicidas islâmicos, principalmente palestinos, manifestam publicamente orgulho por isso?
Jessica – Sou cética em relação a esse comportamento. O orgulho esconde um profundo sentimento de desespero, que é visível principalmente nas mães de jovens suicidas palestinos. A maneira como esse comportamento se alastrou nos territórios ocupados transformou-se numa espécie de fenômeno cultural. Há uma celebração do martírio: a família ganha status na comunidade e, freqüentemente, recebe apoio financeiro dos grupos terroristas locais e até do exterior. Não se trata de algo novo: há similaridades com a forma como os cristãos martirizados eram tratados no início do cristianismo, com adulação e a certeza de que seu sacrifício não fora em vão.

Veja – Qual é, afinal, o objetivo do terror?
Jessica – A maioria dos grupos terroristas está mais interessada em destruir do que propriamente construir ou criar algo. A Al Qaeda, por exemplo, tem uma agenda muito clara no sentido de usar atentados para causar medo aos cidadãos do Ocidente e destruir sua economia. Mas, quando se pergunta que tipo de sociedade seus dirigentes pretendem erguer no futuro, as respostas são vagas. Todas as organizações são semelhantes nesse aspecto. O Hamas, o mais violento grupo terrorista palestino, só admite uma paz provisória com Israel. Seu objetivo a longo prazo é destruir totalmente o Estado judeu. Por outro lado, nunca apresentou uma proposta concreta para melhorar a qualidade de vida dos palestinos.

Veja – Como será a ameaça terrorista no futuro?
Jessica – A maioria dos atentados deverá continuar deixando um número relativamente reduzido de baixas e alguns poucos terão efeito devastador, com muitos mortos. Não vejo, no futuro, uma revolução na forma de fazer terror, e sim uma evolução. Os atentados de 11 de setembro enquadram-se nesse raciocínio. Entre as várias surpresas, o que mais chamou atenção foi o baixo grau de tecnologia empregado nos ataques. Temiam-se ataques terroristas com o uso de armas de destruição em massa, não da forma como ocorreram.

Veja – A senhora teme que possa ocorrer a curto prazo um grande atentado com armas de destruição em massa?
Jessica – Acredito que sim, pois esse tipo de arsenal está ficando acessível aos grupos terroristas. As armas químicas e biológicas do Iraque servem de exemplo do risco que corremos. Na verdade, alguns grupos terroristas já usaram agentes químicos e biológicos, mas nunca em atentados em escala maciça. Ataques menores com esses tipos de agente são relativamente simples de organizar, mas podem produzir grande impacto. Os atentados com anthrax, uma bactéria letal, provocaram preocupação nos Estados Unidos há dois anos. As pessoas passaram a ter medo de abrir a correspondência e até o Congresso foi esvaziado por causa de um envelope suspeito. O anthrax é uma amostra do potencial terrível das armas químicas e bacteriológicas se usadas por grupos terroristas.

Veja – O arsenal de armas químicas e biológicas do Iraque não foi encontrado. A senhora acredita que Saddam tinha mesmo essas armas?
Jessica – Sabemos que Saddam teve, no passado, um número significativo de agentes químicos e biológicos. Por outro lado, os serviços de informação americanos não tinham confirmação da suposta existência desse arsenal quando foi decidida a invasão do Iraque. Acredito que Saddam manteve ativo seu programa de armas de destruição em massa durante todo esse tempo. Só que ninguém pode provar isso, e tampouco acredito que fosse necessária uma guerra com o objetivo específico de localizar e destruir tal arsenal. Pela forma como vem sendo conduzida a ocupação americana, temo que essas armas possam cair mais facilmente nas mãos de grupos terroristas islâmicos.

Veja – Qual é a possibilidade de o arsenal de destruição em massa da antiga União Soviética cair nas mãos do terrorismo?
Jessica – Não sabemos se grupos terroristas tiveram acesso a componentes do antigo arsenal soviético. Apenas que tentaram, assim como integrantes do crime organizado russo. Há programas em curso para tentar manter esse arsenal seguro, mas os esforços ainda estão longe de ser concluídos.

Veja – De que forma os ataques de 11 de setembro mudaram a vida dos americanos?
Jessica – Eles alteraram a rotina dos americanos de uma maneira inesperada, como nunca havia ocorrido nos Estados Unidos em mais de uma geração. O impacto maior foi que passamos a conviver com uma sensação de medo, que permanece presente, mesmo inconscientemente, em todos os movimentos do cotidiano. As medidas de segurança adotadas depois dos atentados causaram uma série de aborrecimentos aos americanos e estão sempre nos fazendo lembrar o que ocorreu ou pode acontecer. Isso é muito comum quando se entra num avião, por exemplo. Eu asseguro que a sensação é desagradável.

 
 
 
 
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