|
|
Entrevista:
Jessica
Stern
O
terror vai continuar
Especialista americana que
entrevistou
mais de 100 terroristas prevê novos
ataques como os de 11 de setembro

José
Eduardo Barella
Nos
últimos quatro anos, a americana Jessica Stern dedicou-se
a uma tarefa arriscada: entrevistar terroristas. Ela esteve na Indonésia,
Índia, Paquistão, Israel e Líbano e entrevistou
mais de uma centena de pessoas envolvidas com terrorismo religioso.
O resultado dessa pesquisa está no livro Terror in the
Name of God (Terror em Nome de Deus), lançado neste ano
nos Estados Unidos. Professora da Universidade Harvard e especialista
em armas de destruição em massa e terrorismo, Jessica
nunca foi uma pesquisadora de gabinete. Diretora do Conselho de
Segurança Nacional no governo Bill Clinton, ela foi enviada
para Moscou com a missão de assessorar o governo russo na
elaboração de medidas para impedir o contrabando de
armas nucleares, químicas e biológicas do antigo arsenal
soviético. Sua experiência na Rússia serviu
de modelo para a personagem interpretada por Nicole Kidman no filme
O Pacificador, de 1997. "A personagem vivida por Nicole é
fictícia, mas o filme antecipou a possibilidade de um ataque
terrorista nos Estados Unidos", diz a professora. Aos 45 anos, Jessica
Stern falou a VEJA de Boston, onde vive com o marido e o filho de
2 anos.
Veja A senhora passou quatro anos entrevistando
terroristas de várias religiões e ideologias. Qual
sua conclusão?
Jessica O que mais me chamou a atenção
foi o que eles têm em comum, independentemente da crença
religiosa. Em primeiro lugar, o ressentimento em relação
à chamada nova ordem mundial ou seja, todos se consideram
excluídos do processo de globalização econômica.
Em segundo lugar, a estratégia usada pelas lideranças
dessas organizações para cooptar e mobilizar os combatentes,
principalmente os jovens. Todos os grupos terroristas que estudei
tendem a enfatizar o sentimento de humilhação a que
seus seguidores são submetidos pelo inimigo e o perigo que
este representa. O chavão é que a organização
está sob ameaça de uma entidade externa e que a única
saída para recuperar a dignidade é pegar em armas
e lutar contra esse inimigo.
Veja
A senhora teve medo de fazer entrevistas frente a frente com
terroristas assumidos?
Jessica O
que mais temi foi justamente um terrorista americano, cujo nome
não posso divulgar, ligado a uma organização
que combate o governo. Assim como ele, outros que entrevistei me
fizeram ameaças veladas. Mas, de uma maneira geral, não
corri riscos afinal, todos haviam concordado em conversar
comigo. Em algumas situações, notei que o entrevistado
fugia das respostas ou tentava me enganar. Em outras, quando a conversa
se centrava em assuntos pessoais e em seus motivos para abraçar
o terrorismo, muitos se mostraram ansiosos para falar. O relato
mais impressionante foi de um ex-líder separatista muçulmano
da Caxemira. Ele me contou como fundou e dirigiu um grupo terrorista
com o objetivo de reviver a era de ouro da civilização
islâmica. E como se sentia profundamente arrependido dos crimes
que havia cometido em nome desse sonho.
Veja
Há diferenças entre um terrorista religioso e aquele
que se inspira numa causa política?
Jessica
Sim. A diferença principal é que um líder de
um grupo terrorista religioso pode evocar o apoio da maior autoridade
que existe, Deus. Isso facilita ainda sua tarefa de persuadir seus
seguidores de que estão lutando por valores eternos, e não
por questões terrenas.
Veja
Por que os grupos terroristas islâmicos preferem
os atentados suicidas?
Jessica Porque, em termos de custo-benefício,
são mais vantajosos economicamente para a organização
terrorista. Num atentado suicida não é necessário
planejar a rota de fuga. Detalhe que evita a possibilidade de baixas
entre os outros integrantes do bando. Ismail Abu Shanab, líder
político do Hamas morto em agosto pelos israelenses, desenvolveu
uma teoria sobre o perfil ideal do terrorista para cada tipo de
ação. O que ataca com faca, segundo ele, deve ser
frio e calculista. Já o terrorista que utiliza arma de fogo
necessita de um longo treinamento. O homem-bomba, por sua vez, não
exige treinamento algum. Apenas o que Abu Shanab chamava de "um
momento de coragem". Ou seja, o maior trabalho do Hamas é
recrutar um jovem palestino que possa demonstrar esse sentimento.
De acordo com Abu Shanab, basta procurar alguém que tenha
presenciado ou sofrido alguma ação violenta por parte
das tropas israelenses nos territórios ocupados. Essa pessoa
certamente teria esse sentimento de coragem muito bem desenvolvido,
com base no ódio à ocupação israelense.
Veja
A senhora acredita que os atentados suicidas vão prosseguir
por muito tempo?
Jessica
O terrorismo costuma alternar sempre suas táticas e características
de ação. Mas os ataques de homens-bomba certamente
vão continuar por um bom tempo, pelo menos enquanto existirem
pessoas dispostas a executá-los. Em alguns lugares, como
na Palestina, estamos assistindo a uma epidemia de atentados suicidas.
É o reflexo do sentimento de desespero e desilusão
de uma sociedade inteira. Até pouco tempo atrás, o
perfil-padrão de um homem-bomba palestino era um jovem de
18 a 25 anos, desempregado, solteiro, sem perspectiva de futuro
e morador de um acampamento de refugiados. Hoje, esse perfil já
não serve mais. Têm sido comuns ataques suicidas realizados
por mulheres ou jovens de classe média. Os líderes
desses grupos terroristas sabem disso e usam esses jovens para obter
o que buscam, a morte e a destruição. Em situações
assim, a resposta militar pura e simples pode não ser suficiente
e torna muito difícil a tarefa de combater esse tipo de terror.
Veja
É possível derrotar o terror?
Jessica
Não se trata de uma guerra que possa ser vencida no sentido
de que um dia simplesmente vamos acabar de vez com o terror. Mas
é possível combatê-lo de forma mais eficiente.
A luta contra o terror exige uma ampla mobilização,
envolvendo esforços em diferentes níveis. É
preciso reunir esforço militar e diplomático, além
de criar leis internacionais padronizadas, entre outras ações.
A maneira como os Estados Unidos vinham conduzindo a guerra ao terrorismo
desde os atentados de Nova York e Washington em 2001 estava correta
até o momento em que o presidente George W. Bush decidiu
invadir o Iraque. A partir daí, o governo americano cometeu
uma série de erros que tornaram muito mais difícil
a tarefa que o próprio Bush havia proposto.
Veja
Quais foram os erros de Bush?
Jessica O governo americano não mostrou provas
suficientes para convencer o mundo de que Saddam Hussein representava
uma ameaça iminente para a segurança internacional.
Assim, não é possível concordar com a invasão.
O governo Bush mostrou-se eficiente em derrubar o regime de Saddam,
mas fracassou em criar um governo funcional em seu lugar. No fim,
a ocupação militar americana fez apenas aumentar a
ameaça terrorista. Ou seja, o contrário do que se
pretendia com a queda de Saddam. A imagem de Bagdá sendo
ocupada por forças dos Estados Unidos e a crescente insatisfação
dos iraquianos com o vácuo de poder que se seguiu, por culpa
exclusiva da inépcia americana, transformaram o Iraque numa
meca para os grupos terroristas internacionais. Pior que estimular
a entrada no Iraque de terroristas muçulmanos foi dar motivos
para que esses fundamentalistas obtivessem apoio da população.
Veja O que os Estados Unidos deveriam fazer para
corrigir os erros cometidos no Iraque?
Jessica
O mais importante é que os iraquianos possam tomar as rédeas
do poder o mais rapidamente possível. Eles precisam governar
a si próprios, embora ainda necessitem da ajuda e da colaboração
da comunidade internacional. Além disso, acho que o governo
Bush não deveria contentar-se em perseguir o rei ou o ditador
que não segue sua política externa. Deveria ficar
atento aos efeitos da política americana na vida das pessoas
de outros países. Um exemplo vem da Arábia Saudita.
Atualmente, indivíduos ou pequenos grupos são capazes
de colocar em risco a segurança nacional dos Estados Unidos,
como os atentados de 11 de setembro deixaram claro.
Veja
O terrorismo islâmico parece mais terrível e determinado
que qualquer outro. A senhora concorda?
Jessica Todas
as religiões produziram fanáticos e terroristas ao
longo da história, incluindo o cristianismo e o judaísmo.
O extremismo islâmico é responsável, hoje, pela
maioria dos atentados no mundo, e há várias razões
para isso. Boa parte dos países muçulmanos é
governada por regimes ditatoriais e corruptos, que só fizeram
aumentar o sentimento de frustração da população.
É preciso lembrar que os Estados Unidos sempre preferiram
apoiar esse tipo de governo no mundo muçulmano. O apoio americano
incondicional a Israel, a despeito da política israelense
nos territórios ocupados, acabou alimentando esse sentimento
de ódio.
Veja
Isso é suficiente para levar alguém a se transformar
num homem-bomba e morrer para matar pessoas inocentes a sua volta?
Jessica
É evidente que a maioria das pessoas que se sentem humilhadas
não está disposta a tirar a própria vida ou
a matar inocentes. Ocorre que os líderes de grupos terroristas
costumam manipular, cinicamente, o sentimento de desespero e humilhação,
sobretudo entre os seguidores mais jovens. Eles acabam convencidos
de que a melhor maneira de enfrentar o problema é matar os
outros e a si próprios.
Veja
Por que as famílias de terroristas suicidas islâmicos,
principalmente palestinos, manifestam publicamente orgulho por isso?
Jessica
Sou cética em relação a esse comportamento.
O orgulho esconde um profundo sentimento de desespero, que é
visível principalmente nas mães de jovens suicidas
palestinos. A maneira como esse comportamento se alastrou nos territórios
ocupados transformou-se numa espécie de fenômeno cultural.
Há uma celebração do martírio: a família
ganha status na comunidade e, freqüentemente, recebe apoio
financeiro dos grupos terroristas locais e até do exterior.
Não se trata de algo novo: há similaridades com a
forma como os cristãos martirizados eram tratados no início
do cristianismo, com adulação e a certeza de que seu
sacrifício não fora em vão.
Veja
Qual é, afinal, o objetivo do terror?
Jessica
A maioria dos grupos terroristas está mais interessada em
destruir do que propriamente construir ou criar algo. A Al Qaeda,
por exemplo, tem uma agenda muito clara no sentido de usar atentados
para causar medo aos cidadãos do Ocidente e destruir sua
economia. Mas, quando se pergunta que tipo de sociedade seus dirigentes
pretendem erguer no futuro, as respostas são vagas. Todas
as organizações são semelhantes nesse aspecto.
O Hamas, o mais violento grupo terrorista palestino, só admite
uma paz provisória com Israel. Seu objetivo a longo prazo
é destruir totalmente o Estado judeu. Por outro lado, nunca
apresentou uma proposta concreta para melhorar a qualidade de vida
dos palestinos.
Veja
Como será a ameaça terrorista no futuro?
Jessica
A maioria dos atentados deverá continuar deixando um número
relativamente reduzido de baixas e alguns poucos terão efeito
devastador, com muitos mortos. Não vejo, no futuro, uma revolução
na forma de fazer terror, e sim uma evolução. Os atentados
de 11 de setembro enquadram-se nesse raciocínio. Entre as
várias surpresas, o que mais chamou atenção
foi o baixo grau de tecnologia empregado nos ataques. Temiam-se
ataques terroristas com o uso de armas de destruição
em massa, não da forma como ocorreram.
Veja A senhora teme que possa ocorrer a curto prazo
um grande atentado com armas de destruição em massa?
Jessica
Acredito que sim, pois esse tipo de arsenal está ficando
acessível aos grupos terroristas. As armas químicas
e biológicas do Iraque servem de exemplo do risco que corremos.
Na verdade, alguns grupos terroristas já usaram agentes químicos
e biológicos, mas nunca em atentados em escala maciça.
Ataques menores com esses tipos de agente são relativamente
simples de organizar, mas podem produzir grande impacto. Os atentados
com anthrax, uma bactéria letal, provocaram preocupação
nos Estados Unidos há dois anos. As pessoas passaram a ter
medo de abrir a correspondência e até o Congresso foi
esvaziado por causa de um envelope suspeito. O anthrax é
uma amostra do potencial terrível das armas químicas
e bacteriológicas se usadas por grupos terroristas.
Veja
O
arsenal de armas químicas e biológicas do Iraque não
foi encontrado. A senhora acredita que Saddam tinha mesmo essas
armas?
Jessica
Sabemos que Saddam teve, no passado, um número significativo
de agentes químicos e biológicos. Por outro lado,
os serviços de informação americanos não
tinham confirmação da suposta existência desse
arsenal quando foi decidida a invasão do Iraque. Acredito
que Saddam manteve ativo seu programa de armas de destruição
em massa durante todo esse tempo. Só que ninguém pode
provar isso, e tampouco acredito que fosse necessária uma
guerra com o objetivo específico de localizar e destruir
tal arsenal. Pela forma como vem sendo conduzida a ocupação
americana, temo que essas armas possam cair mais facilmente nas
mãos de grupos terroristas islâmicos.
Veja
Qual é a possibilidade de o arsenal de destruição
em massa da antiga União Soviética cair nas mãos
do terrorismo?
Jessica
Não sabemos se grupos terroristas tiveram acesso a componentes
do antigo arsenal soviético. Apenas que tentaram, assim como
integrantes do crime organizado russo. Há programas em curso
para tentar manter esse arsenal seguro, mas os esforços ainda
estão longe de ser concluídos.
Veja
De que forma os ataques de 11 de setembro mudaram a vida dos americanos?
Jessica
Eles alteraram a rotina dos americanos de uma maneira inesperada,
como nunca havia ocorrido nos Estados Unidos em mais de uma geração.
O impacto maior foi que passamos a conviver com uma sensação
de medo, que permanece presente, mesmo inconscientemente, em todos
os movimentos do cotidiano. As medidas de segurança adotadas
depois dos atentados causaram uma série de aborrecimentos
aos americanos e estão sempre nos fazendo lembrar o que ocorreu
ou pode acontecer. Isso é muito comum quando se entra num
avião, por exemplo. Eu asseguro que a sensação
é desagradável.
|