Edição 1829 . 19 de novembro de 2003

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Em foco: Sérgio Abranches
Retrato falado do Brasil

"Uma inversão típica caracteriza o problema
racial no Brasil. É como se os negros tivessem
um problema na cor, e não a sociedade o
problema
do preconceito"


Ilustração Ale Setti


A primeira vez que falei em público da questão racial no Brasil foi em 1973, no departamento de ciências sociais da Universidade de Brasília, no curso de introdução à sociologia. Eram várias turmas e usávamos um livro-texto traduzido do inglês e dirigido à universidade dos Estados Unidos. Cada capítulo tratava de um tema da sociologia, introduzindo conceitos, metodologias e resultados de pesquisas empíricas naquele país. Havia um capítulo sobre relações raciais, entre o que tratava de estratificação e diferenças de classes e o que discutia desigualdades sociais. Ao dizer que discutiríamos esse capítulo na aula seguinte, os alunos, surpresos, indagaram se não íamos "pular essa questão". Era comum descartarem essa parte da matéria. Argumentei que seria anti-sociológico e antipedagógico. Era tema necessário à compreensão sociológica do Brasil. Repeti uma frase de Roque Laraia, professor de antropologia do departamento: "O Brasil tem discriminação racial, não tem é conflito racial, como nos Estados Unidos".

Comecei a aula com uma pergunta: "O que diferencia a questão racial no Brasil e nos EUA?". Silêncio geral. Imaginei que os alunos não tivessem lido o capítulo. Afirmaram que sim. Foi só então que eu, imaturo, sem o olhar treinado para capturar atitudes e comportamentos em pequenos gestos, percebi o constrangimento da turma. O sinal, característico, que retive como lição das formas sutis do preconceito era o olhar coletivo de soslaio para o único negro na sala. Dirigi-me a ele e denunciei: "Seus colegas estão constrangidos em falar de racismo na sua frente", e lancei a pergunta silenciada: "Como é que você está aqui?".

Convenhamos: naquele longínquo 1973, um jovem negro na faculdade era uma raridade que pedia explicação. A resposta é que seu pai era sargento da Aeronáutica. Meus alunos acabavam de ter uma bela aula de sociologia. Não porque o professor fosse bom, mas porque a realidade social acabava de lhes dar uma lição completa, ao vivo. Estava tudo ali: o racismo, a desigualdade – um negro em trinta –, um canal de ascensão social – o serviço militar –, a mobilidade – um jovem ultrapassando as barreiras da discriminação. Um dos primeiros canais de mobilidade racial no Brasil foi o serviço militar. Não oferecia ascensão completa, mas abria o caminho até a baixa oficialidade. O suficiente para poder dar estudo aos filhos. Retrato falado do Brasil.

Essa cena se repete toda vez que falo em público sobre a desigualdade racial no Brasil e há aquela pessoa negra, solitária, na platéia. Recentemente, numa palestra para gerentes de um banco, havia uma jovem gerente negra. Uma das raras mulheres e a única pessoa negra. Enfrentou duas correntes discriminatórias para estar ali: ser negra e ser mulher. Os colegas se sentiam desconfortáveis porque eu falava do "problema dela". "Ela" não tinha problema, claro. Era uma pessoa natural, do gênero feminino e negra. Nascemos assim. O problema é os outros não quererem ver a discriminação. Essa inversão típica é que caracteriza a questão racial no Brasil. É como se os negros tivessem um problema na cor, e não a sociedade o problema do preconceito.

Por que essa atitude? Por que negar a óbvia existência da discriminação racial em nosso país? Vergonha? Dificilmente. Haveria mecanismos mais imediatos e eficazes para nos eximir de culpa por nossa história escravocrata. Racismo? Em boa parte, sim. Preconceito, com certeza sim. Existe uma diferença. O preconceito é uma deficiência cultural. Nasce da má informação e da má formação. É um ato de ignorância ou ausência de certos valores. O racismo é uma falha moral. É uma atitude consciente de menosprezo racial e intelectual. O ponto moral é simples: negros africanos foram trazidos para o Brasil e aqui mantidos à força, por mais de três séculos. Não há como dizer: "Podem voltar para casa". A casa deles é aqui, compatriotas e iguais.

Esta é a semana do orgulho negro. Que não seja a semana da vergonha branca. Está sendo lançada a camélia branca, da paz racial, para reconhecer os que trabalham pela diversidade no Brasil. Poderia ser a semana da consciência branca sobre a discriminação dos negros. Sem a consciência do problema, não poderemos enfrentá-lo de forma solidária, sem precisar de leis de cotas ou de repressão ao racismo. Será possível se cada vez mais de nós, integrados em todas as nossas atividades públicas e privadas, trabalharmos para que nossos compatrícios negros entrem nas salas da frente dessa nossa grande casa Brasil como convivas, não como subalternos.

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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