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Em
foco: Sérgio Abranches
Retrato
falado do Brasil
"Uma
inversão típica caracteriza o problema
racial no Brasil. É como se os negros tivessem
um problema na cor, e não a sociedade o
problema do
preconceito"
Ilustração Ale Setti
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A primeira vez que falei em público da questão racial
no Brasil foi em 1973, no departamento de ciências sociais
da Universidade de Brasília, no curso de introdução
à sociologia. Eram várias turmas e usávamos
um livro-texto traduzido do inglês e dirigido à universidade
dos Estados Unidos. Cada capítulo tratava de um tema da sociologia,
introduzindo conceitos, metodologias e resultados de pesquisas empíricas
naquele país. Havia um capítulo sobre relações
raciais, entre o que tratava de estratificação e diferenças
de classes e o que discutia desigualdades sociais. Ao dizer que
discutiríamos esse capítulo na aula seguinte, os alunos,
surpresos, indagaram se não íamos "pular essa questão".
Era comum descartarem essa parte da matéria. Argumentei que
seria anti-sociológico e antipedagógico. Era tema
necessário à compreensão sociológica
do Brasil. Repeti uma frase de Roque Laraia, professor de antropologia
do departamento: "O Brasil tem discriminação racial,
não tem é conflito racial, como nos Estados Unidos".
Comecei
a aula com uma pergunta: "O que diferencia a questão racial
no Brasil e nos EUA?". Silêncio geral. Imaginei que os alunos
não tivessem lido o capítulo. Afirmaram que sim. Foi
só então que eu, imaturo, sem o olhar treinado para
capturar atitudes e comportamentos em pequenos gestos, percebi o
constrangimento da turma. O sinal, característico, que retive
como lição das formas sutis do preconceito era o olhar
coletivo de soslaio para o único negro na sala. Dirigi-me
a ele e denunciei: "Seus colegas estão constrangidos em falar
de racismo na sua frente", e lancei a pergunta silenciada: "Como
é que você está aqui?".
Convenhamos:
naquele longínquo 1973, um jovem negro na faculdade era uma
raridade que pedia explicação. A resposta é
que seu pai era sargento da Aeronáutica. Meus alunos acabavam
de ter uma bela aula de sociologia. Não porque o professor
fosse bom, mas porque a realidade social acabava de lhes dar uma
lição completa, ao vivo. Estava tudo ali: o racismo,
a desigualdade um negro em trinta , um canal de ascensão
social o serviço militar , a mobilidade
um jovem ultrapassando as barreiras da discriminação.
Um dos primeiros canais de mobilidade racial no Brasil foi o serviço
militar. Não oferecia ascensão completa, mas abria
o caminho até a baixa oficialidade. O suficiente para poder
dar estudo aos filhos. Retrato falado do Brasil.
Essa
cena se repete toda vez que falo em público sobre a desigualdade
racial no Brasil e há aquela pessoa negra, solitária,
na platéia. Recentemente, numa palestra para gerentes de
um banco, havia uma jovem gerente negra. Uma das raras mulheres
e a única pessoa negra. Enfrentou duas correntes discriminatórias
para estar ali: ser negra e ser mulher. Os colegas se sentiam desconfortáveis
porque eu falava do "problema dela". "Ela" não tinha problema,
claro. Era uma pessoa natural, do gênero feminino e negra.
Nascemos assim. O problema é os outros não quererem
ver a discriminação. Essa inversão típica
é que caracteriza a questão racial no Brasil. É
como se os negros tivessem um problema na cor, e não a sociedade
o problema do preconceito.
Por
que essa atitude? Por que negar a óbvia existência
da discriminação racial em nosso país? Vergonha?
Dificilmente. Haveria mecanismos mais imediatos e eficazes para
nos eximir de culpa por nossa história escravocrata. Racismo?
Em boa parte, sim. Preconceito, com certeza sim. Existe uma diferença.
O preconceito é uma deficiência cultural. Nasce da
má informação e da má formação.
É um ato de ignorância ou ausência de certos
valores. O racismo é uma falha moral. É uma atitude
consciente de menosprezo racial e intelectual. O ponto moral é
simples: negros africanos foram trazidos para o Brasil e aqui mantidos
à força, por mais de três séculos. Não
há como dizer: "Podem voltar para casa". A casa deles é
aqui, compatriotas e iguais.
Esta
é a semana do orgulho negro. Que não seja a semana
da vergonha branca. Está sendo lançada a camélia
branca, da paz racial, para reconhecer os que trabalham pela diversidade
no Brasil. Poderia ser a semana da consciência branca sobre
a discriminação dos negros. Sem a consciência
do problema, não poderemos enfrentá-lo de forma solidária,
sem precisar de leis de cotas ou de repressão ao racismo.
Será possível se cada vez mais de nós, integrados
em todas as nossas atividades públicas e privadas, trabalharmos
para que nossos compatrícios negros entrem nas salas da frente
dessa nossa grande casa Brasil como convivas, não como subalternos.
Sérgio
Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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