Edição 1927 . 19 de outubro de 2005

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Televisão
Trono usurpado

Uma pesquisa confirma: a TV está
perdendo terreno para a internet
na preferência dos adolescentes


Ricardo Valladares


Desde que se popularizou, a internet modifica o comportamento de seus usuários – os jovens, principalmente – das formas mais variadas. Agora, uma pesquisa demonstra: o computador caseiro com acesso à rede transformou a maneira como os adolescentes brasileiros se relacionam com a TV. Eles ainda devotam um bom tempo ao hábito de ver televisão, mas ela não tem a mesma importância que teve para seus pais e até seus irmãos mais velhos, quando eram da mesma idade. Realizado pela ONG Midiativa e pelo instituto de pesquisa MultiFocus, o levantamento investigou os hábitos de 400 crianças e 200 adolescentes em relação aos meios de comunicação. O mesmo estudo foi feito no ano passado, e sua segunda rodada corrobora as conclusões sobre o universo infantil: há programas bem-feitos e atraentes para esse público, mas eles não cumprem todas as tarefas consideradas essenciais pelos pais, como reforçar valores e preparar para a vida. As novidades se concentram na pesquisa com os adolescentes, que desta vez foram estudados em maior profundidade.


Fotos Rede Globo/divulgação
gação
A GRANDE FAMÍLIA
Jovens apreciam e se identificam com programas de humor não dirigidos especificamente a eles
CALDEIRÃO DO HUCK
A atração da Globo está entre as poucas voltadas aos jovens – e erra o alvo

A pesquisa mostra que há um abismo entre eles e a programação da TV. Perguntou-se aos entrevistados – jovens de 12 a 17 anos de São Paulo e Rio de Janeiro, de todas as classes sociais – o que eles procuram nos meios de comunicação. Dos anseios mencionados – que se agrupam em categorias como busca de informação, busca de diversão, busca de identidade e conexão com o mundo –, a TV preencheu sobretudo aqueles que são considerados "menos destacados". O público encontra nela, principalmente, uma forma de afastar o tédio e se entreter a qualquer hora. Ou seja: a TV é um passatempo. Os jovens oscilam entre a televisão e a internet na busca por informações gerais. Mas itens valorizados, como a possibilidade de opinar e de "estar em contato imediato com tudo", são proporcionados apenas pela rede.

Assim como as crianças, os adolescentes gastam em média quatro horas por dia com a TV. Mas seu comportamento é bem diferente: enquanto os primeiros têm nela uma babá para todas as horas, os segundos usam a televisão como pano de fundo para outras atividades. Ao mesmo tempo em que a deixam ligada, os jovens falam ao telefone, ouvem rádio, conversam. Têm ainda um hábito desafiador para o mercado publicitário: não hesitam em zapear durante as propagandas. A internet, revela o estudo, já ocupa tanto tempo dos jovens quanto a televisão. Só que a ligação deles com o meio é mais estreita – dos bate-papos em serviços como o Messenger e o Orkut aos diários em forma de blogs, grande parte da vida social dos adolescentes passa hoje pela internet.

Quando colocados diante de um cardápio de 100 programas, os adolescentes tiveram preferência por atrações que não são especificamente voltadas para sua faixa etária. Das dezessete citadas, nove são humorísticas. Entre os campeões de popularidade estão A Grande Família e A Diarista, exibidos pela Rede Globo, e o jurássico Chaves, do SBT. A novelinha Malhação é uma rara exceção: os adolescentes gostam de vê-la e se identificam com ela. Mas outros programas "jovens", como o Altas Horas, apresentado por Serginho Groisman, e o Caldeirão do Huck, de Luciano Huck, foram solenemente ignorados. Os dados da Globo, que transmite essas atrações, corroboram os da pesquisa. "Os diretores de televisão acreditam que colocar no ar gente que fala gírias baste para se credenciar junto aos adolescentes. Nada mais falso", diz Beth Carmona, presidente da Midiativa e da TVE do Rio de Janeiro. O estudo, em outras palavras, é um banho de água fria para as emissoras. Elas carecem de programas feitos sob medida para os adolescentes – e, quando os criam, quase sempre erram o alvo.

 
 
 
 
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