Edição 1927 . 19 de outubro de 2005

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Moda
Arrastando no chão

Rapazes, suspirem: as moças
agora resolveram cobrir tudo
com vestidos largos e compridos


Laura Ming

 
Fotos Roberto Valverde/Contigo, Luciano Trevisan/Fotomidia, Ag. News, Leonardo Marinho/Contigo, Nelson Peixoto
Profusão de listas e estampas: o vestidão conquista Camila, Ivete, Ingrid, Maria, Didi...

O sonho de quem trabalha a sério com moda não é criar uma peça de sucesso estrondoso – é fazer aflorar um desejo que estava lá, mas as pessoas nem faziam idéia disso. A explosão do vestido arrastando no chão, de estampado bem gritante e pouca ou nenhuma alça é a prova de que desejos ignotos habitam os guarda-roupas femininos. Nem bem a peça começou a ser testada e nem bem o verão chegou, os vestidões viraram uma febre, especialmente entre mulheres famosas, que freqüentam muitas festas por força da profissão e adoraram a novidade que substitui com frescor os habituais modelos escuros ou bordados. Camila Pitanga, Ivete Sangalo, Ingrid Guimarães, Didi Wagner (gravidíssima debaixo de toda aquela estamparia), Deborah Evelyn, Maria Flor, Guilhermina Guinle, Isabella Fiorentino – a lista de beldades flagradas nas últimas semanas com seus longos chamativos é enorme. No exterior, a porta-bandeira do modismo é Joss Stone, a inglesinha de 18 anos que canta blues com pés descalços e voz de negra americana. O efeito engana-olho da estamparia também foi usado recentemente pela modelo alemã Heidi Klum para abrandar as conseqüências da maternidade ultra-recente.

Quem tem experiência suficiente para se lembrar de Janis Joplin cantando ao vivo sabe exatamente de onde saiu o vestidão (e seu filhote, a saiona): das meninas hippies dos anos 70. Ou melhor, do movimento flower power (o povo da moda detesta a palavra hippie; acha que lembra desleixo e falta de banho). "O flower power é muito atual", diz o estilista carioca Carlos Tufvesson, que pela primeira vez introduziu estampas em seus vestidos longos. A conversão em peso de famosas ao modismo deve ajudar a vencer a resistência das massas. "A brasileira gosta de mostrar o corpo, principalmente os quadris e a barriga", observa o estilista André Lima, outro apologista do vestidão. Mas a mãe de todos os longos em flor é a paulista Adriana Barra. Muito antes que eles virassem moda, contra tudo e contra todas, ela fez do modelo sua marca registrada. Com uma clientela estrelada que vai de Fernanda Lima a Cleo Pires e Ivete Sangalo (esta uma fanática, com sete modelos no guarda-roupa, ao preço médio de 3.000 reais), Adriana celebra sua presciência: "É um nicho de mercado que descobri. E vai durar – a mulher quer ser mais misteriosa".

O furor do modismo pode, ao contrário, queimar a peça depressa demais. Como as estampas são muito gritantes, também podem enjoar rapidamente. "É preciso tomar muito cuidado no acabamento, senão fica parecendo um bolo de pano sobre o corpo", diz Fernanda de Goeye, da grife Raia de Goeye. Vestidões podem ser usados de dia, com sandália rasteira, bolsa grande e, para as mais ousadas, flor no cabelo, e à noite, com salto alto, carteira e maquiagem mais elaborada. Apesar de tentadores, por esconder as curvas, deixam as gordas, infelizmente, mais gordas. E os mandamentos de deusas da elegância como Jacqueline Kennedy, que não usava roupas estampadas, muito menos com motivos graúdos, para não desaparecer atrás delas? "Tem de saber segurar a roupa, senão ela ofusca quem a veste", reconhece André Lima.

 

Quanto mais, melhor

Compra por impulso é coisa de mulher – e daquelas com tempo e dinheiro sobrando para dar uma voltinha no shopping, ver uma roupa que é uma graça e ser fisgada sem se preocupar com a conta. Esse é o lugar-comum sobre o comportamento do consumidor de vestuário. Bem, nada aqui irá desmenti-lo: a única novidade de uma pesquisa realizada com 4 073 pessoas entre julho e agosto pelo Instituto de Estudos e Marketing Industrial (Iemi) é que os homens também caíram na rede. Consumidores de ambos os sexos gostam de comprar roupas, mesmo sem precisar, e escolhem pela beleza da peça (veja quadro ao lado). "A pesquisa comprova: vivemos em um país de consumistas", diz o diretor do Iemi, Marcelo Prado. Mais de 80% das mulheres e 67% dos homens disseram ter comprado roupas nos trinta dias anteriores. A maioria (61% delas, 71% deles), aliás, saiu de casa especificamente para isso. Na hora de escolher, segundo a pesquisa, a qualidade vem antes do preço e as preferidas são as lojas multimarcas localizadas em shopping centers. Homem que é homem, comprova-se assim, entra, sim, em shopping. E até gasta um dinheirinho no visual.

 
 
 
 
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