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Entrevista: Peter
Eigen
"Obrigação de saber"
O criador da principal ONG de combate
à corrupção diz que Lula o desapontou
no campo da ética e que os brasileiros não
devem cair na tese de que ele nada sabia

Antonio Ribeiro, de Paris
O advogado alemão Peter Eigen, ex-diretor
do Banco Mundial, fundou e preside há doze anos a Transparência
Internacional, a principal organização não-governamental
de combate à corrupção no mundo. Nesse período
conseguiu o feito de incentivar a adoção de regras
éticas mais estritas tanto de empresas quanto de governos.
Em parte influenciada pela cruzada de Eigen, a Organização
para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico
(OCDE), que congrega as trinta maiores economias do mundo, tratou
de criar uma convenção para tentar evitar o pagamento
de propinas. Em dezembro próximo, será a vez da ONU
de propor um suporte legal para indiciar suspeitos de corrupção
em qualquer parte do mundo e recuperar fundos de origem ilícita
depositados em contas secretas de paraísos fiscais. Nesta
semana, a Transparência Internacional publica o seu já
esperado índice anual de Percepção da Corrupção,
com 159 países. O Brasil vem ocupando uma posição
intermediária no ranking, atrás de cerca de cinqüenta
países onde a corrupção é menos insidiosa.
Veja O senhor
rastreia a corrupção de governos pelo mundo há
muitos anos. Já deparou antes com um caso como o brasileiro,
em que um presidente é cercado de corruptos no partido, no
alto escalão do governo e até na família, mas
ele não sabe de nada?
Eigen Muitas vezes os dirigentes não querem
tomar conhecimento das sujeiras a seu redor. Assim imaginam escapar
da culpa. O abuso desse escudo da impunidade levou o sistema judicial
americano a evoluir para a noção da "obrigação
de saber". O chefe é responsável pela ação
dos seus subordinados. Ponto.
Veja O presidente
Lula subscreveu um programa contra a corrupção elaborado
pela Transparência Brasil e no governo ele e seu partido fizeram
tudo ao contrário...
Eigen Quando o presidente Lula foi eleito fiquei
muito otimista. Os escândalos, no entanto, me deixaram muito
desapontado. Como se diz, o poder corrompe, mas é preciso
que se tenha em mente que nem todos se deixam corromper. Os brasileiros
devem estar sempre céticos em relação às
desculpas dadas pelos governos.
Veja Nos últimos
meses, jornalistas de VEJA trouxeram à luz diversos
focos de corrupção oficial e, mais recentemente, revelaram
a existência de uma máfia que fraudava jogos de futebol.
O que se viu foi que no campo esportivo a denúncia surtiu
efeitos depurativos imediatos, enquanto na política pouco
ou nada aconteceu. Como o senhor explica isso?
Eigen Os brasileiros estão habituados com o
melhor futebol do mundo. Ele é razão de orgulho nacional.
É perfeitamente natural querer preservá-lo. Em contrapartida,
a expectativa a respeito da conduta dos políticos é
muito baixa e não haveria nada a preservar. Seria prudente
não se iludir, porém. Cada político corrupto
equivale a um gol contra, uma vaga na escola pública que
se sonega a uma criança, um tratamento de saúde a
que um idoso doente não terá acesso. Se os políticos
brasileiros contribuírem para resolver a atual crise de corrupção
de forma digna, vão inscrever seus nomes na história.
Os efeitos disso serão muito mais benéficos obviamente
do que a conquista de uma Copa do Mundo.
Veja Como o
senhor define a corrupção?
Eigen A corrupção é o uso indevido
de um poder qualquer para obter ganhos em benefício próprio.
Veja Os regimes
democráticos são mais ou menos suscetíveis
de sofrer com a corrupção?
Eigen A corrupção é o maior obstáculo
atual ao funcionamento das democracias. Ela provoca a desconfiança
dos cidadãos no processo político. Se as pessoas descobrem
que seus representantes submetem suas decisões a propinas
ou favores, elas perdem convicção e interesse no jogo
político. Democracia sem participação deixa
de ter sentido como tal e os líderes perdem a legitimidade.
Um ambiente corrupto exime as lideranças de prestar conta
de seus atos, torna difícil para a polícia e a imprensa
a investigação dos fatos, enquanto o sistema judicial
favorece a impunidade. Tudo isso em óbvio prejuízo
para o cidadão comum.
Veja Onde há
maior incidência de corrupção política?
Eigen O fenômeno é global, mas nos países
emergentes seus efeitos são ainda mais danosos. Uma pesquisa
recente da Transparência Internacional revelou uma realidade
terrível. Os políticos de 65 países, comparados
com todas as outras profissões, são considerados as
pessoas menos confiáveis na sociedade. Na Alemanha, o ex-chanceler
Helmut Kohl se recusa a revelar a fonte de uma gigantesca contribuição
financeira ao seu partido, o que constitui uma violação
clara da lei de financiamento dos partidos políticos. O mau
exemplo dos dirigentes age como um catalisador sobre as pessoas
chancelando os atos ilícitos no dia-a-dia. Um cotidiano corrupto,
por sua vez, impulsiona a corrupção oficial, dando
continuidade ao ciclo. Em muitos lugares, as pesquisas mostram que
os jovens estão se sentindo impotentes quando percebem que
seus votos não têm força para mudar o rumo do
seu país. Boa parte da violência aparece como resultado
dessa situação. Nos países emergentes que até
poucos anos atrás eram governados por ditaduras, os efeitos
da corrupção são mais preocupantes.
Veja Alguns
economistas acham a corrupção inelutável e
até admitem a existência dela de modo que a economia
possa crescer. Isso tem fundamento?
Eigen Essa é uma concepção equivocada.
Durante 25 anos me debati no Banco Mundial para a corrupção
ser considerada uma questão de primeira grandeza. Não
consegui. Meus colegas achavam sua ocorrência normal como
a alternância das estações climáticas.
Por isso saí e fundei a Transparência Internacional.
Hoje, o Banco Mundial reviu suas concepções e passou
a encarar a corrupção como um desastre social e econômico.
A corrupção desequilibra de forma perversa as concorrências
econômicas saudáveis. Qualidade, baixo custo e bons
serviços deixam de ser vitais quando um negócio pode
ser decidido pelo valor das propinas. Isso é um forte inibidor
da produtividade. Obviamente muitas empresas imaginam que, se não
corromperem, vão ficar fora do jogo econômico. Mas
essa visão é ruinosa. A corrupção destrói
a riqueza e todos perdem. O capital obtido pela exploração
dos recursos naturais dos países, um patrimônio de
todos, é drenado para o bolso de alguns poucos. A Nigéria,
o 12º maior produtor de petróleo, poderia ser um dos
países mais ricos do mundo. Não é. O que se
tem é um país em que 130 milhões de nigerianos
vivem na miséria, enquanto o regime do ditador Sani Abacha
foi acusado de ter estocado 4 bilhões de dólares em
contas na Suíça. Na Indonésia, a família
Suharto fez coisa parecida a ponto de os indonésios considerarem
a descoberta de petróleo um castigo, e não um caminho
para a prosperidade. Salvo a Noruega, todos os países produtores
de gás natural e de petróleo têm alto grau de
corrupção.
Veja Que benefícios
aparecem mais rapidamente quando um país consegue controlar
a corrupção?
Eigen Um exemplo é a Itália. Lá
a normalização ética derrubou dramaticamente
os preços das obras públicas, facilitando a modernização
do país. O mesmo efeito pode ser esperado nos países
em desenvolvimento. Quantos hospitais mais poderiam ser construídos
com o mesmo dinheiro se a roubalheira fosse interrompida? Quantas
vidas poderiam ser salvas? Não hesito em dizer que a corrupção
é o principal motivo da miséria na América
Latina, na Ásia e na África. Não faltam recursos
para erradicar a miséria nessas regiões. Falta evitar
que eles sejam desviados.
Veja Está
ficando mais fácil detectar e conter a corrupção?
Eigen Até bem pouco tempo atrás, empresas
européias podiam deduzir do imposto o suborno feito em países
para onde exportavam. Criticamos duramente essa prática.
Ela foi proibida em maio de 1999. Se um alemão for pego subornando
alguém em Brasília, ele será punido pelas leis
alemãs como se tivesse cometido o crime em Berlim ou Hamburgo.
Na era digital e da cooperação judicial multilateral,
esconder corrupção equivale a colocar gato debaixo
do tapete. Cedo ou tarde, o bicho derruba o dono.
Veja Determinadas
culturas e povos são mais lenientes com a corrupção
do que outros?
Eigen Em algumas culturas as cortesias e a troca de
presentes fazem parte do cotidiano. Mas corrupção
não é isso. Nenhuma cultura aceita que apenas alguns
poucos enriqueçam desonestamente. Não há relativismo
para o roubo. Ele é condenado em qualquer cultura, religião
ou código.
Veja O exame
de edições sucessivas do Índice de Percepções
de Corrupção mostra um padrão. Os países
escandinavos são vistos como ilhas de integridade, enquanto
a corrupção é mais fortemente percebida no
Hemisfério Sul. Qual é a explicação?
Eigen A questão não é geográfica.
Os países escandinavos são vistos como sendo mais
honestos se comparados com Rússia, Canadá e França,
países do norte. Hong Kong tem muito melhor desempenho que
a China e Taiwan, e todos têm o mesmo povo, religião
e cultura. Cingapura é um país do sul muito bem posicionado,
embora no Índice de Pagamento de Propinas, outra pesquisa
nossa, vá muito mal. Se eu tivesse de investir em um projeto
escolheria Botsuana e não colocaria um tostão no Zimbábue.
Apesar de ocuparem posições muito distantes no índice,
ambos estão localizados na África Subsaariana, são
países vizinhos com população, superfície
e clima semelhantes.
Veja Muitas
vezes, em países em que as pessoas têm uma férrea
ética pessoal, prosperam máfias empresariais, casos
do Japão e da Coréia do Sul. Como explicar essa situação?
Eigen Persuadir empresas e seus acionistas de que
a extorsão trará má reputação
e, a termo, inevitáveis prejuízos não é
uma tarefa fácil. Leva-se anos, às vezes décadas,
de conscientização até que mudanças
substanciais possam ser detectadas. Na Coréia do Sul, o governo
criou leis rigorosas anticorrupção e tem tido bom
desempenho no seu cumprimento. A Justiça é implacável
com todos. Um presidente e um primeiro-ministro, acusados de corrupção,
foram presos. Não foi por acaso que o diretor da Transparência
na Coréia do Sul foi alçado ao cargo de primeiro-ministro
do país. Quando ele era prefeito de Seul, introduziu um sistema
anticorrupção, apoiando-se numa base de dados informatizada.
A experiência tornou-se modelo no mundo. Ainda não
conseguimos esse mesmo grau de eficiência no Japão.
Veja O que efetivamente
inibe a corrupção?
Eigen Uma estrutura que chamo de Sistema de Integridade.
Sua forma é semelhante à de um templo grego, em que
uma cobertura é escorada por pilares. Se um ruir, os outros
permanecerão firmes até a reparação
daquele que falhou. Esses pilares são um Poder Executivo
a salvo de interesses menores, um Parlamento representativo e um
Judiciário independente. Os outros sustentáculos são
uma imprensa livre e com acesso à informação
e o exercício da liberdade de expressão. Deve existir
também uma auditoria pública transparente, e as CPIs
precisam ter poderes para questionar altos dirigentes do setor público
e privado. Se você somar a esse cenário um serviço
público ético e empresas privadas competitivas, terá
um país com enorme chance de vencer a corrupção.
Um Sistema de Integridade como o descrito acima promove o desenvolvimento
sustentado, o estado de direito e aumenta a qualidade de vida das
pessoas.
Veja Uma dose
de vergonha ajuda?
Eigen Certamente não atrapalha. Eu sou
pessoalmente motivado por valores morais. Já a Transparência
atua numa diversidade mundial. Por uma questão estratégica,
ela deve se basear em argumentos técnicos. Estamos presentes
em noventa países, e, se algum dos nossos associados achar
ser eficaz evocar valores éticos locais para combater a corrupção,
apoiaremos sem restrição.
Veja Além
de ser uma virtude, qual é a vantagem intrínseca de
ser honesto?
Eigen Para o indivíduo é isso mesmo,
uma virtude. Para um país, contar com homens públicos
honestos é uma garantia de que o interesse nacional estará
mais próximo de ser atendido. As decisões de um ministro
da Economia íntegro não servem aos interesses de quem
suborna e, assim, o ministro pode focar toda a sua energia no desempenho
da economia. Os resultados positivos vão se refletir no crescimento
do país e no aumento do bem-estar dos cidadãos. Esconder
coisa malfeita dá muito trabalho. A suspeita produz obstáculos
ao desempenho de uma pessoa qualquer, de um empresário, profissional
ou de um homem público. A corrupção é
contraproducente para todos, pois transforma as relações
pessoais e profissionais em desastres.
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