Edição 1927 . 19 de outubro de 2005

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Auto-retrato
Gregory Olsen

Ivan Sekreta/AP


O empresário americano, de 60 anos, é o terceiro turista espacial da história. Ele voltou à Terra na semana passada, a bordo da nave russa Soyuz, depois de passar dez dias na Estação Espacial Internacional em companhia de quatro astronautas. Pela aventura, pagou 20 milhões de dólares. Olsen falou ao repórter Tiago Cordeiro.

A VIAGEM AO ESPAÇO VALEU OS 20 MILHÕES DE DOLARES PAGOS POR ELA?
Sem dúvida. Foi uma experiência maravilhosa. Agora entendo por que os astronautas não conseguem descrever a sensação de ver a Terra do espaço. Pode parecer bobo dizer isso, mas é incrível como a Terra é redonda e azul!  

O QUE O SENHOR FEZ NA ESTAÇÃO ESPACIAL INTERNACIONAL?
Apreciei a vista, ouvi música e fui uma espécie de cobaia. Os cientistas das agências espaciais da Rússia e da Europa queriam observar a reação física de um leigo à falta de gravidade. O curioso é que eu não sofri nenhum dos problemas mais comuns no espaço, como tonturas e dores nas costas. Também tirei várias fotos. Pena que esqueci lá minha câmera digital. Neste momento, ela deve estar flutuando em algum lugar da estação.  

COMO É A ROTINA NO ESPAÇO?
Lá em cima, nossas convenções de tempo e espaço perdem o sentido. Não existe mais em cima ou embaixo. Como a estação leva uma hora e meia para dar a volta na Terra, víamos o Sol nascer dezesseis vezes a cada 24 horas. Nessa situação é impossível falar em dia ou noite. Mas manter uma rotina é muito importante para a saúde dos astronautas. Guiando-nos pelo horário de Londres, acordávamos sempre às 8 horas, fazíamos três refeições e dormíamos às 23 horas.

COMO É DORMIR NUM AMBIENTE DE GRAVIDADE ZERO?
Não há colchão nem travesseiro porque o corpo não precisa de nenhum tipo de apoio. Cada pessoa acha a melhor posição. Eu dormi verticalmente, contra a parede, preso por cordas para não sair flutuando. Acabei me acostumando. Mas, numa noite, um dos ganchos se soltou e, quando me dei conta, estava flutuando com a cabeça perto do teto.  

COMO OS ASTRONAUTAS FAZEM PARA TOMAR BANHO E USAR O VASO SANITÁRIO?
O banho, se é que se pode chamar assim, é feito com toalhas úmidas, que vêm em pacotes. O vaso sanitário funciona com vácuo, caso contrário os dejetos flutuariam, e é preciso prender-se a ele com tiras. Não consegui me acostumar. Uma das primeiras coisas que fiz ao voltar à Terra foi usar o banheiro normalmente.

A COMIDA A BORDO ERA BOA?
Até que era razoável. A comida americana é a mesma que os soldados comem no Iraque, enlatados, frutas e vegetais desidratados. Comi um coquetel de camarão melhor do que muitos que já experimentei na Terra. O purê de batata da comida russa também é muito bom. Para beber tínhamos café, água e chá – em embalagens fechadas, com canudinho, para que não saíssem flutuando.  

NEM UMA TAÇA DE VINHO PARA RELAXAR?
Bebidas alcoólicas não são permitidas de jeito nenhum. No espaço, o sangue flutua dentro do corpo e o volume que vai para o cérebro é maior. O efeito do álcool seria muito potencializado. Voltei do espaço louco por um bom bife e um copo de vinho tinto.  

A VOLTA À TERRA É MAIS DIFÍCIL DO QUE A PARTIDA PARA O ESPAÇO, COMO DIZEM OS ASTRONAUTAS?
Sim. A reentrada na atmosfera é como se jogassem um elefante em cima de você. Um dos astronautas chegou ao solo inconsciente. Até agora não sei se desmaiei durante a descida. Ouvi um zumbido muito forte, achei que minha cabeça fosse estourar. Quando chegamos à Terra, foi difícil ficar em pé. O peso da atmosfera me deixou muito cansado. Nunca voltei de uma viagem precisando tanto de férias.  

PRETENDE FAZER OUTRAS VIAGENS ESPACIAIS?
Vou me inscrever na fila dos interessados em dar uma volta ao redor da Lua. Esse tipo de viagem só vai ocorrer em 2010, mas quero estar na primeira turma.

 
 
 
 
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