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André
Petry Pizzas no caminho
"Só
o histórico brasileiro de impunidade explica a satisfação
geral com que se recebe a notícia de que meia dúzia de deputados
será cassada e outra meia dúzia vai renunciar..."
Quem não quiser fazer papel de bobo deve parar de perguntar
se o escândalo do mensalão vai ou não acabar em pizza. É
uma indagação despropositada porque o escândalo do mensalão
já está cheio de pizzas pelo caminho. Os casos mais graves envolvem
os atores mais poderosos da cena o presidente Lula e o ministro Palocci.
Por exemplo: • O ministro da Fazenda foi acusado
de receber propina de 50.000 reais de uma empresa de recolhimento de lixo quando
era prefeito, no interior de São Paulo. Mais tarde, descobriu-se que a
contabilidade da empresa registrava saques mensais que corroboravam a acusação.
E o que aconteceu? Nada. O ministro não foi sequer chamado para prestar
explicações. Não foi à CPI nem à polícia.
Pizza. • Uma empresinha do filho do presidente
da República recebeu, de bandeja, um investimento de 5 milhões de
reais de uma gigante do ramo de telefonia, a Telemar. O investimento é
cinqüenta vezes maior que o capital da empresinha. Foi notório favorecimento
ao filho do presidente? Não se sabe. Nada aconteceu. Nem o filho do presidente
nem seus sócios na empresinha foram chamados para explicar-se.
• O marqueteiro do presidente recebeu 10,5 milhões
de reais em dinheiro ilegal, pagos num paraíso fiscal. Quanto a isso, não
há dúvidas. Há provas e confissões. E isso quer dizer
que a campanha do presidente foi financiada com dinheiro ilegal, dinheiro clandestino.
E o que aconteceu? Nada. O presidente acha que tudo não passa de urucubaca
e seus súditos saem por aí dizendo que dinheiro clandestino em campanha
é coisa normal, corriqueira, desprezível. •
O presidente contraiu uma dívida de 29.000 reais junto ao PT e a dívida
acabou sendo saldada. Por quem? Como? Bem, um amigo do presidente diz que pagou,
não avisou o presidente de que pagou e não tem comprovante de que
pagou. Será que a dívida, na verdade, foi paga pelos butins de Marcos
Valério? Não se sabe. Ninguém foi convocado a se explicar.
Nem o amigo secretamente generoso de Lula. Que
nome se deve dar à decisão de esconder debaixo do tapete o mensalão
de Palocci? O que significa deixar por isso mesmo o estrondoso sucesso financeiro
do filho do presidente? E a dívida do presidente, misteriosamente paga?
E a campanha do presidente, notoriamente financiada com recursos ilegais? O pior
é que a pizza não resulta apenas da ação de governistas,
petistas e suspeitos em geral. É também obra da oposição,
de tucanos e pefelistas que não têm interesse em promover uma verdadeira
faxina no país, até porque também seriam carregados na varrição.
Nem querem uma sólida mudança política e institucional do
país porque é na bagunça atual que cresceram e é nela
que sabem viver. Para a oposição, o ideal é um adversário
fraco em 2006, um Lula sangrando, mas vivo, para garantir o teatro.
Só mesmo o vasto histórico brasileiro de impunidade
explica a satisfação geral com que se recebe a notícia de
que meia dúzia de deputados será cassada e outra meia dúzia
vai renunciar... É pouco. É pouquíssimo. É quase nada
diante da corrupção que se desvendou ao país. |