Ponto
de vista:Claudio
de Moura Castro (O)caso dos cursinhos?
"Parece irreversível
a perda de espaço e de
prestígio dos cursinhos. Vários fecharam, e
os que sobraram tendem a ter menor distinção.
Mas os melhores empresários do setor migraram
para o ensino regular, em que tiveram enorme êxito"
Nos idos de 1950,
ensino superior era a universidade pública mais próxima
além de uma PUC ou outra. Competiam todos os
alunos pelas poucas vagas. Na guerra pela aprovação,
apareceram os cursinhos pré-vestibulares. Seus trunfos
eram professores extraordinários demonstrando seu virtuosismo
no quadro-negro e preparando apostilas para seus alunos. Fui
aluno de um e lá aprendi mais do que em todo o curso
médio. O vestibular unificado e as provas de múltipla
escolha dos anos 60 permitiram a expansão dos cursinhos
mais bem-sucedidos, pois, com uma prova única, o mesmo
programa servia para todos. Alguns viraram grandes sistemas,
preparando milhares de alunos para passar nos cursos mais
difíceis.
Ilustração
Atômica Studio
Mas os tempos mudaram. As melhores escolas adotaram o método
dos cursinhos, nas séries finais do ensino médio.
Ainda mais devastadores para eles, os vestibulares competitivos
passaram a ser uma proporção cada vez menor
das vagas oferecidas. Com tamanha expansão do ensino
privado superior, passou a entrar quem quer (e pode pagar).
De fato, chegam a existir tantas vagas quantos são
os alunos se formando no ensino médio. Metade delas
permanece sem preenchimento.
Será o ocaso
dos cursinhos? Parece irreversível sua perda de espaço
e de prestígio. Vários fecharam. Sobraram muitos,
mas esses tendem a ter menor distinção
alguns são voltados para alunos mais pobres. Contudo,
se definharam os cursinhos, seus melhores empresários
migraram para o ensino regular, no qual tiveram enorme êxito
e passaram a operar muitas escolas. Mais adiante, criaram
as redes (objeto de meu último ensaio). Mais adiante,
expandiu-se o ensino público médio e a clientela
do ensino privado perdeu poder de compra. Buscando novos mercados,
esses empresários migraram para o ensino superior.
Lá encontraram terreno fértil para sua expansão
acelerada. Nos dias que correm, entre as cinco maiores instituições
educacionais privadas, apenas uma não começou
como cursinho. Na origem de todas as demais estão cursinhos
para engenharia, direito e medicina. O cursinho opera em um
mercado aberto. Não há reservas de mercado nem
proteções legais. Os mais bem colocados em vestibulares
de engenharia e medicina costumavam ser logo selecionados
para virar professores dos cursinhos em que estudavam (não
se exigem diplomas, só talento). A mensalidade precisava
ser competitiva, os super-teachers eram disputados
entre os cursinhos e os materiais eram avaliados pelos alunos.
A transparência de resultados é total: no dia
seguinte, os jornais mostram quem passou onde. É o
caldo de cultura do empreendedorismo: oportunidades e liberdade.
Quem sabe Darwin diga algo interessante sobre uma trajetória
tão meteórica? Gato que cai do muro deixa espaço
para outros mais equilibristas. Samurai de reflexos lentos
é decapitado pela katana de seu adversário.
Os gatos e os samurais sobreviventes são mais aptos.
A sobrevivência dos cursinhos mais aptos foi um processo
de seleção natural, competindo no mercado mais
difícil de quantos há em educação.
Só para
sobreviverem já era preciso competência superior.
E, para se expandirem, tinham de ser melhores do que os melhores,
com foco cirúrgico em resultados. Era necessária
grande competência gerencial para operarem em um mercado
tão brutalmente competitivo. Poucos conseguiram. Venceram
os de DNA superior. Ao migrarem para a educação
acadêmica, encontraram uma concorrência muito
menos acirrada. Isso foi verdade tanto no ensino básico
como no superior, para onde se moveram mais adiante. Ou seja,
ao entrarem no ensino acadêmico, os DNAs sobreviventes
já haviam sido postos à prova em condições
mais árduas. Onde puseram o pé, tiveram sucesso,
seja competindo com ensino mais barato, seja com mais qualidade.
Houve até migração para parques gráficos
e produção de computadores. Não é
comum em outros países a migração do
ensino informal para o formal. Como a jabuticaba, o DNA dos
cursinhos sobreviventes parece ser algo idiossincraticamente
brasileiro.