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19 de setembro de 2007
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Fraquezas da carne

Philip Roth é conhecido por sua abordagem
crua do sexo. E ele trata a morte da mesma forma


Jerônimo Teixeira

Douglas Healey/AP
Philip Roth: um escritor contemporâneo capaz de encarar uma queda-de-braço com Tolstoi

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Trecho do livro

Homem Comum (tradução de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras; 136 páginas; 31 reais), romance breve do americano Philip Roth recém-lançado no Brasil, é uma espécie de A Morte de Ivan Ilitch do século XXI. Na também breve obra-prima do russo Leon Tolstoi, publicada em 1886, um juiz moribundo percebe como sua vida foi vazia e convencional. No livro de Roth, um publicitário (e artista plástico frustrado) faz um percurso similar ao longo de sucessivas internações para tratar de problemas de saúde. Os médicos que o acompanham são mais competentes e mais bem equipados do que os charlatões que cuidam do pobre Ivan Ilitch, mas a conclusão básica de Homem Comum é igualmente desoladora (ou talvez ainda mais desoladora, já que Roth, um judeu secular, não acredita no consolo cristão que embalou a fase final de Tolstoi): qualquer sentido que se encontre na vida é fátuo diante do fim inescapável.

Aos 74 anos, Roth é um dos poucos escritores contemporâneos que podem se bater em queda-de-braço com um gigante do porte de Tolstoi. Não será exagero dizer que seus vastos painéis da vida americana – como a trilogia formada por Pastoral Americana, Casei com um Comunista e A Marca Humana – são parentes espirituais da radiografia social realizada por Tolstoi em livros como Ana Karenina. Não, o adultério não tem mais o poder de perturbar a ordem social, como acontecia nesses clássicos do século XIX. Mas, pelo menos desde o escandaloso sucesso de O Complexo de Portnoy, de 1969, Roth descobriu outra força motriz para sua ficção, um poder mais básico e incômodo (especialmente para o puritanismo americano): o sexo. Em Homem Comum, a carne fraca representa ao mesmo tempo liberdade e danação. A felicidade pode ser um momento de amor ao ar livre, na praia, com Phoebe, a única mulher com quem o protagonista estabelece uma conexão humana verdadeira. Mas é a irresistível atração sexual por outras mulheres – em especial a modelo Merete – que vai arruinar seu casamento com Phoebe.

O sexo é sobretudo uma imposição do corpo – como a doença e a velhice. Homem Comum acompanha com minudência obsessiva, quase hipocondríaca, o histórico médico do personagem, de uma trivial operação de hérnia na infância à intervenção cardíaca que causará sua morte (anunciada desde o início do livro, na magistral cena de seu enterro). Acossado por distúrbios variados, o protagonista nutre um ressentimento mesquinho em relação à saúde inabalável do irmão mais velho, Howie.

As mulheres, os filhos, as amantes, os colegas de trabalho do protagonista – todos contam com nomes próprios. Só o "homem comum" não tem essa distinção. O título em inglês, Everyman, vem de uma peça anônima do século XV, um drama moral em que um homem comum reencontra seus valores cristãos depois de uma conversa com a Morte. Roth não oferece uma moral tão simplória. Mas Homem Comum tampouco é um livro amoral. Fica a sugestão de que as escolhas que o personagem faz são determinantes para o vazio que assombra o seu fim. Phoebe ou Howie poderiam estar ao seu lado no hospital, no último momento, se ele não os houvesse afastado com sua traição ou sua atitude fria. Seria um consolo pequeno, claro. Depois do fim, somos todos comuns e sozinhos.

 

Um morto comum

"A última pessoa a se aproximar do caixão foi a enfermeira, Maureen. Quando deixou que a terra escorresse lentamente por entre os dedos da mão, o gesto pareceu o prelúdio de um ato carnal. Não havia dúvida de que aquele homem era alguém que tivera outrora alguma importância para ela. E assim terminou. Em todo o estado, naquele dia, tinha havido quinhentos funerais como este, rotineiros, normais. (...) É justamente o que há de normal nos funerais que os torna mais dolorosos, mais um registro da realidade da morte que avassala tudo."

Trecho de Homem Comum

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