Homem Comum
(tradução
de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras; 136 páginas;
31 reais), romance breve do americano Philip Roth recém-lançado
no Brasil, é uma espécie de A Morte de Ivan
Ilitch do século XXI. Na também breve obra-prima
do russo Leon Tolstoi, publicada em 1886, um juiz moribundo
percebe como sua vida foi vazia e convencional. No livro de
Roth, um publicitário (e artista plástico frustrado)
faz um percurso similar ao longo de sucessivas internações
para tratar de problemas de saúde. Os médicos
que o acompanham são mais competentes e mais bem equipados
do que os charlatões que cuidam do pobre Ivan Ilitch,
mas a conclusão básica de Homem Comum é
igualmente desoladora (ou talvez ainda mais desoladora, já
que Roth, um judeu secular, não acredita no consolo
cristão que embalou a fase final de Tolstoi): qualquer
sentido que se encontre na vida é fátuo diante
do fim inescapável.
Aos 74 anos, Roth
é um dos poucos escritores contemporâneos que
podem se bater em queda-de-braço com um gigante do
porte de Tolstoi. Não será exagero dizer que
seus vastos painéis da vida americana como a
trilogia formada por Pastoral Americana, Casei com um Comunista
e A Marca Humana são parentes espirituais
da radiografia social realizada por Tolstoi em livros como
Ana Karenina. Não, o adultério não
tem mais o poder de perturbar a ordem social, como acontecia
nesses clássicos do século XIX. Mas, pelo menos
desde o escandaloso sucesso de O Complexo de Portnoy,
de 1969, Roth descobriu outra força motriz para sua
ficção, um poder mais básico e incômodo
(especialmente para o puritanismo americano): o sexo. Em Homem
Comum, a carne fraca representa ao mesmo tempo liberdade
e danação. A felicidade pode ser um momento
de amor ao ar livre, na praia, com Phoebe, a única
mulher com quem o protagonista estabelece uma conexão
humana verdadeira. Mas é a irresistível atração
sexual por outras mulheres em especial a modelo Merete
que vai arruinar seu casamento com Phoebe.
O sexo é
sobretudo uma imposição do corpo como
a doença e a velhice. Homem Comum acompanha
com minudência obsessiva, quase hipocondríaca,
o histórico médico do personagem, de uma trivial
operação de hérnia na infância
à intervenção cardíaca que causará
sua morte (anunciada desde o início do livro, na magistral
cena de seu enterro). Acossado por distúrbios variados,
o protagonista nutre um ressentimento mesquinho em relação
à saúde inabalável do irmão mais
velho, Howie.
As mulheres, os
filhos, as amantes, os colegas de trabalho do protagonista
todos contam com nomes próprios. Só o
"homem comum" não tem essa distinção.
O título em inglês, Everyman, vem de uma
peça anônima do século XV, um drama moral
em que um homem comum reencontra seus valores cristãos
depois de uma conversa com a Morte. Roth não oferece
uma moral tão simplória. Mas Homem Comum
tampouco é um livro amoral. Fica a sugestão
de que as escolhas que o personagem faz são determinantes
para o vazio que assombra o seu fim. Phoebe ou Howie poderiam
estar ao seu lado no hospital, no último momento, se
ele não os houvesse afastado com sua traição
ou sua atitude fria. Seria um consolo pequeno, claro. Depois
do fim, somos todos comuns e sozinhos.
Um morto comum
"A última pessoa
a se aproximar do caixão foi a enfermeira, Maureen.
Quando deixou que a terra escorresse lentamente por
entre os dedos da mão, o gesto pareceu o prelúdio
de um ato carnal. Não havia dúvida de
que aquele homem era alguém que tivera outrora
alguma importância para ela. E assim terminou.
Em todo o estado, naquele dia, tinha havido quinhentos
funerais como este, rotineiros, normais. (...) É
justamente o que há de normal nos funerais que
os torna mais dolorosos, mais um registro da realidade
da morte que avassala tudo."