Benjamin é
rechonchudo, nem alto nem baixo, e tem um penteado desastroso.
Sua voz é anasalada e ele gosta de falar sobre Star
Wars, maconha e sexo sendo que seu conhecimento
do terceiro tema é repleto de lacunas. Como se não
bastassem todos os outros detalhes, Benjamin não trabalha.
Há dez anos vive da indenização ganha
por um acidente. Calcula que os 600 dólares restantes
ainda possam durar dois anos, mas isso significa que ele não
tem dinheiro para pagar um picolé a uma moça.
Daí a surpresa quando a loira e linda Alison decide
esticar a balada com ele. Numa das muitas sutilezas de Ligeiramente
Grávidos (Knocked Up, Estados Unidos,
2007), que estréia nesta sexta-feira no país,
a câmera não se aproxima do comediante Seth Rogen
para sublinhar a reação de seu personagem. Permanece
a meia distância, deixando que o espectador observe,
enlevado, a maneira como o rosto de Rogen se ilumina. O problema
é que Alison, interpretada pela atriz Katherine Heigl,
já bebeu demais na altura em que escolhe Ben como companhia.
Bebeu tanto que, na hora H, nem percebe como ele resolve a
questão do preservativo: arrumando um baita problema
aquele descrito pelo título do filme.
Como em seu trabalho
anterior, O Virgem de 40 Anos, o diretor Judd Apatow
atinge em Ligeiramente Grávidos um equilíbrio
quase impossível. Seu filme é vulgar e de uma
obscenidade pueril; ao mesmo tempo, é de uma doçura
imensa, além de uma compreensão sagaz dos jovens
de hoje. As confusões de Ben e Alison lembram muito,
no humor e nos desdobramentos, as "comédias abiloladas"
dos anos 30 e 40, como Aconteceu Naquela Noite e Levada
da Breca, nas quais pares como Claudette Colbert e Clark
Gable, ou Katharine Hepburn e Cary Grant, obrigavam-se a rever
seus conceitos do que seria ou não desejável
num parceiro. Ligeiramente Grávidos tem essa
mesma tensão amorosa, mas virada do avesso. Nesse mundo,
as mulheres são ambiciosas, dedicadas e organizadas;
os homens estão extraviados em algum ponto da adolescência.
Cabe a eles dar lições sobre como pegar leve
e se divertir um pouco.
Em seus momentos
mais felizes, Ligeiramente Grávidos advoga um
passo adiante no feminismo. A irmã de Alison (interpretada
pela impecável Leslie Mann, mulher do diretor) quer
do marido mais maturidade e iniciativa, e não está
errada. Mas Alison, que aprende a aceitar que Ben nunca será
um executivo de carreira ou um grande tomador de decisões,
também não está errada: por que buscar
um "macho alfa" nos moldes convencionais se ela própria
já é tão capaz de liderar a matilha?
Não é por acaso, portanto, que Apatow e sua
trupe se converteram na grande força da comédia
romântica moderna. De um gênero que parecia condenado
à inanidade, repetidamente explorando noções
cansadas sobre homens e mulheres, eles estão tirando
uma novidade uma reflexão sobre o estado da
guerra dos sexos tão pertinente à atualidade
quanto a "comédia abilolada" o foi para seu tempo.