Depois que as indústrias
alimentícias retiraram a gordura trans de guloseimas
como biscoitos recheados, bolos, sorvetes e por aí
vai, boa parte das pessoas se sentiu à vontade para
aumentar o consumo de tais produtos. Mas o fato de eles estarem
livres de trans não significa um aval para comê-los
sem limite. Eles continuam pouco saudáveis. Além
de serem muito calóricos, com a saída da famigerada
gordura de sua formulação, esses alimentos passaram
a apresentar uma concentração ainda mais elevada
de gordura saturada, outro veneno para o organismo, quando
consumida em demasia. Uma análise nutricional de cinco
produtos comuns na dieta dos brasileiros, feita pelo Laboratório
de Lípides da Universidade de São Paulo, a pedido
de VEJA, revelou que o aumento na quantidade de gordura saturada
se deve à substituição da trans pelo
óleo de palma. De origem vegetal, ele contém
ácido palmítico, riquíssimo em gorduras
saturadas. Em alguns casos, a troca da trans pelo óleo
de palma fez com que o teor de saturada dobrasse. "O ácido
palmítico é melhor do que a trans, mas continua
sendo muito ruim para a saúde cardiovascular", diz
o cardiologista Raul Santos, chefe do setor de lípides
do Instituto do Coração de São Paulo.
O óleo de
palma entrou para a lista de ingredientes da maioria dos alimentos
industrializados em julho de 2006. Por determinação
das autoridades sanitárias, nenhum produto poderia
ter mais do que 0,2 grama de trans por porção.
Com isso, a indústria alimentícia teve de encontrar
um composto que, como a trans, prolongasse a validade, desse
consistência e conservasse o sabor dos alimentos por
mais tempo. A solução encontrada foi o óleo
de palma, capaz de manter-se naturalmente sólido à
temperatura ambiente, sem que seja preciso submetê-lo
ao processo de hidrogenação. "O problema é
que ele é composto de 50% de gorduras saturadas. E
a principal delas é o ácido palmítico,
um dos ácidos graxos mais nocivos à saúde",
diz a nutricionista Ana Carolina Moron Gagliardi, autora de
uma tese de doutorado sobre o assunto no Hospital das Clínicas,
de São Paulo. Óleos com baixas quantidades de
saturada e maiores de mono e poliinsaturada, como os de oliva
e canola, são as opções mais saudáveis.
Mas, como são todos líquidos, o custo para transformá-los
em gordura sólida é inviável, segundo
a indústria.
Um estudo publicado
na Revista Americana de Nutrição Clínica
avaliou os efeitos de diferentes tipos de óleo nos
índices de colesterol o de palma, o de soja
parcialmente hidrogenado e o de canola. Voluntários
foram divididos em três grupos. Durante 35 dias, cada
um deles consumiu exclusivamente um deles. Ao final, notou-se
uma diferença significativa entre as medições
de colesterol dos participantes que consumiram os óleos
de palma e de soja: os níveis de LDL (o colesterol
ruim) estavam 18% e 16% mais altos, respectivamente, em comparação
com os do grupo que só consumiu óleo de canola.
"Isso nos mostra que só retirar a trans, sem reduzir
a quantidade de gordura saturada, não produz resultados
positivos à saúde cardiovascular", escreveu
a pesquisadora Alice Lichtenstein, professora de ciência
da nutrição da Universidade Tufts, nos Estados
Unidos, e uma das autoras do estudo. O consumo de gordura
saturada não deve ultrapassar 7% do total de calorias
ingeridas diariamente o que representa 19,4 gramas,
numa dieta de 2.500 calorias.
Bazuki Muhammad/Reuters
Colheita do fruto da palma na
Malásia
Em que pesem os
efeitos deletérios da gordura saturada, a trans é
a mais nociva. Além de aumentar as taxas de LDL, como
a saturada, ela reduz os níveis do colesterol bom,
o HDL. Com todo o cerco, a gordura trans continua presente
nos cardápios. Isso porque a indústria alimentícia
não conseguiu desenvolver uma tecnologia que a elimine
totalmente de suas formulações. É por
isso que nos rótulos dos produtos, embaixo do aviso
"Zero de Trans", lê-se, em letras minúsculas,
"por porção". Ou seja, ainda estamos consumindo
trans. Muitas porções podem representar no fim
do dia um volume considerável de trans. De acordo com
a análise encomendada por VEJA, um hambúrguer
duplo de fast-food e duas porções de bolacha
salgada equivalem a 50% do limite para o consumo diário
de trans recomendado pela Organização Mundial
de Saúde o que, numa dieta de 2.000 calorias,
equivale a 2 gramas. "É um problema: o marketing do
'zero de trans' leva o consumidor a pensar que pode comer
impunemente o produto", disse a VEJA a nutricionista americana
Marion Nestle, da Universidade Nova York.
Produzida
em laboratório, a trans existe em pequenas quantidades
na natureza, especialmente em derivados do leite e na carne
bovina (nos ruminantes, a trans é sintetizada pela
ação de uma bactéria presente no estômago).
Foi somente no início da década de 90, quando
o consumo per capita de trans nos Estados Unidos atingiu inacreditáveis
6 gramas diários, que os médicos começaram
a esboçar preocupação com os danos dessa
gordura à saúde. "Agora, com a substituição
dela pelo óleo de palma, voltamos à situação
do passado, quando a única opção para
a indústria era a gordura saturada", diz Edmundo Klotz,
presidente da Associação Brasileira das Indústrias
de Alimentação (Abia).
Não é,
obviamente, o cenário ideal. Pressionada, a indústria
investiga alternativas mais saudáveis à trans
e também ao óleo de palma, mas sem comprometer
as características de seus produtos. A batalha segue
árdua. Imagine o que foi para uma rede de fast-food
como o McDonald's eliminar quase que totalmente, de uma hora
para a outra, justamente o composto que deixa as suas batatas
mais gostosas e fresquinhas. "Fizemos alguns testes só
com gorduras pouco saturadas e as batatas foram reprovadas
por quase todos os clientes", diz Celso Cruz, diretor de desenvolvimento
de novos produtos do McDonald's. A rede optou por uma mistura
de soja, algodão e palma. Ainda assim, houve aumento
de cerca de 5% na quantidade de saturadas nos alimentos fritos.
Foi a troca do ruim pelo menos ruim.
A AMEAÇA
DO GLÚTEN
Cacau Mangabeira
Pães são
uma ameaça para quem sofre da doença
celíaca
Ler com atenção as informações
contidas no rótulo de um alimento é questão
vital para um grupo de pessoas que sofrem de um distúrbio
bem mais comum do que se supunha a doença
celíaca. Ela atinge um em cada 133 indivíduos
e se caracteriza pela intolerância ao glúten,
uma proteína encontrada no trigo, na aveia, no
centeio e na cevada. O consumo da proteína pelo
portador da doença celíaca lesiona a mucosa
do intestino delgado, o que propicia o aparecimento
de câncer, anemia e osteoporose, entre outros
problemas. Embora a doença celíaca costume
manifestar-se antes dos 3 anos de idade, ela pode surgir
na fase adulta. Só há um remédio
contra essa doença: a exclusão total do
glúten da dieta. A proteína está
presente numa variedade enorme de alimentos e bebidas,
como pães, bolos, bolachas, massas, cerveja e
uísque. Desde 2003 os fabricantes brasileiros
são obrigados por lei a informar nas embalagens
se seus produtos contêm ou não glúten.
Há mais tempo, eles também são
obrigados a avisar os consumidores sobre a presença
ou não do aminoácido fenilalanina. Algumas
pessoas não produzem a enzima responsável
pela digestão da fenilalanina. Esse distúrbio,
detectável em recém-nascidos por meio
do "teste do pezinho", leva o nome de fenilcetonúria.
Ao ingerirem o aminoácido, seus portadores podem
desenvolver problemas irreversíveis no sistema
nervoso central.