No
mundo dos esportes de alto desempenho, cada centésimo e até
milésimo de segundo pode determinar a vitória ou a derrota
de um atleta numa prova. Na semana passada, foram exatos três centésimos
de segundo que permitiram ao jamaicano Asafa Powell, de 24 anos, bater o novo
recorde mundial na corrida de 100 metros rasos e se confirmar no posto de corredor
mais veloz do planeta. Powell percorreu a pista do estádio de Rieti, na
Itália, em 9,74 segundos, atingindo velocidade média de 37 quilômetros
por hora. Anteriormente, Powell dividia o recorde mundial, de 9,77 segundos, com
o americano Justin Gatlin, afastado das pistas por suspeita de doping. Desde 1912,
quando se começaram a registrar os tempos em que os corredores completam
as provas de 100 metros, o recorde da modalidade caiu apenas um segundo. Essa
estatística mostra o grau de dificuldade envolvido na superação
de marcas pelos atletas e também sugere uma pergunta: haverá um
limite para a velocidade que o ser humano consegue atingir?
Gideon Ariel, fundador do Centro Olímpico de Treinamento do Colorado, arrisca
uma resposta a essa questão. Usando simulações de computador,
ele concluiu que o menor tempo possível que um atleta será capaz
de levar para percorrer 100 metros é 9,6 segundos. Abaixo dessa marca,
segundo seus cálculos, a força necessária para correr seria
tão grande que os tendões se romperiam e os ossos poderiam se quebrar.
Outros cientistas contestam a pesquisa e alegam que é impossível
estabelecer um limite porque são muitas as variáveis envolvidas
na quebra de um recorde. Entre elas, as condições ambientais no
dia da prova, o perfil genético do atleta e sua preparação
psicológica. Além disso, a ciência desenvolve hoje novos tipos
de treinamento que permitem, por exemplo, aprimorar as fibras musculares de contração
rápida, necessárias para atingir altas velocidades em curto espaço
de tempo. "Os parâmetros mudam o tempo todo. É impossível
restringir todas as variáveis a modelos estatísticos e dizer que
chegamos a um limite", disse a VEJA Jesus Dapena, professor de biomecânica
na Universidade de Indiana.
O fator psicológico parece ter grande peso no desempenho de Asafa Powell.
O jamaicano nunca conseguiu ganhar um título em grandes competições.
No último Mundial de Atletismo, no Japão, chegou em terceiro lugar,
o que leva a crer que a tensão atrapalha seu rendimento. "Não há
sinal de que se torne impossível quebrar o recorde dos 100 metros muitas
outras vezes", diz o fisiologista inglês Steve Ingham, especializado em
melhorar o desempenho de atletas de ponta. O próprio Powell afirmou que
se sente capaz de correr ainda mais rápido. Se conseguir, dará mais
uma prova de que, por enquanto, o corpo humano consegue estender seus limites.