Alan
Greenspan, o mais influente economista vivo, conta como ajudou a criar as
bases da economia global, o que permitiu, pela primeira vez, crescimento
acelerado sem inflação
Marcio
Aith, de Washington
O mundo
teme os efeitos da turbulência financeira nos Estados Unidos. Mas Alan Greenspan,
o homem que ditou os rumos da economia global durante mais tempo e com mais influência
do que qualquer outro ainda vivo, anda mais preocupado com outro fenômeno.
Ele detecta o começo do fim do atual ciclo de prosperidade que fez o mundo
crescer sem inflação e com juros baixos por quase duas décadas.
Em entrevista a VEJA, ele diz que as pressões inflacionárias aumentarão,
e o potencial de crescimento mundial cairá. Mas e a atual crise? "Ela requer
cuidados, principalmente por sua abrangência. Mas guarda muitas semelhanças
com outras que não tiveram o poder de paralisar empresas e consumidores",
afirmou, reconhecendo ter detectado tarde demais a extensão dos problemas
causados pelos exageros no crédito imobiliário. Segundo Greenspan,
nem toda crise é automaticamente ruim o colapso dos mercados acionários
em 1987, por exemplo, teria tido poucos efeitos negativos. "Mas, se eu estiver
errado e a crise tiver um desfecho muito pior, o Brasil e a China vão sofrer.
Esses dois países ainda não se descolaram do mundo, como sugerem
alguns."
Tian
Ye/Getty Images
THANKS,
CHINA! Greenspan humildemente reconhece
que toda a sua decantada magia à frente do Fed não teria funcionado sem a abertura
da economia chinesa para o mundo
Depois de passar dezoito de seus 81 anos como presidente do Federal Reserve System,
o banco central americano, Greenspan agora é um dos consultores econômicos
mais caros e procurados do globo. Compreende-se. À frente do Fed, transformou-se
em ícone da maior fase de prosperidade dos Estados Unidos. Credita-se diretamente
a ele, entre outros feitos, a descoberta do potencial oculto da revolução
da internet no campo da produtividade. Até 1995, imaginava-se que um país
como os Estados Unidos não poderia crescer mais de 2,5% ou ter uma taxa
de desemprego abaixo de 6,5% sem que pressões inflacionárias despertassem.
Não foi o que ocorreu. Greenspan percebeu que, com a revolução
da internet, o paradigma mudara. Com a explosão das taxas de produtividade,
tornou-se possível expandir a economia mais rapidamente sem deflagrar inflação.
Sob sua batuta, o Fed deu corda para um crescimento sem precedentes. A inflação
permaneceu sob controle.
Nesta
segunda-feira, A Era da Turbulência, o livro de memórias que
ele começou a produzir quando deixou o Fed, há dois anos, será
publicado mundialmente (no Brasil, pela Editora Campus/Elsevier, terá 640
páginas e custará 74 reais). Para escrevê-lo, Greenspan recebeu
adiantamento de direitos autorais de cerca de 8,5 milhões de dólares,
o segundo mais alto para uma obra de não-ficção (o das memórias
do ex-presidente Bill Clinton ainda lidera, com 10 milhões de dólares).
No livro, ao qual VEJA teve acesso antecipado, Greenspan conta histórias
de prosperidade, de exuberância irracional e de turbulências. Relata
como comandou a reação mundial a vários choques as
crises econômicas mexicana (1994), asiática (1997), russa (1998)
e brasileira (1999), o estouro da bolha de tecnologia de 2000 e, é claro,
o 11 de Setembro. Descreve ainda sua infância em Nova York, sua experiência
como clarinetista profissional (ele tocou com o saxofonista americano Stan Getz)
e sua formação econômica e filosófica é
admirador de Ayn Rand, libertária intelectual russa emigrada para os Estados
Unidos em 1926.
Tim
Boyle /Getty Images
HÁ
CRISES E CRISES A atual turbulência nascida
no mercado imobiliário preocupa Greenspan menos do que a incapacidade aparente
dos avanços tecnológicos de continuarem catapultando as taxas de produtividade
Ao longo
de sua vida pública, Greenspan conviveu com seis presidentes. Em 1967,
foi assessor da campanha presidencial de Richard Nixon segundo Greenspan,
um político tão brilhante quanto obscuro. Na gestão de Gerald
Ford (1974-1977), presidiu o conselho de assessores econômicos da Casa Branca
e construiu reputação como economista republicano. Em 1987, foi
nomeado presidente do Fed por Ronald Reagan (1981-1989). Dois meses depois da
posse, enfrentou sua primeira crise nas bolsas. Dois anos depois, a queda do Muro
de Berlim e o posterior ingresso das economias da república soviética
no regime de mercado. Greenspan foi reconduzido ao Fed por George Bush (1989-1993),
Bill Clinton (1993-2001) e George W. Bush (2001). A trajetória política
ímpar é produto de uma personalidade cativante, de um singular instinto
de sobrevivência e da paixão pela competição.
Greenspan dedica um capítulo de seu livro ao populismo econômico
(veja trechos abaixo), método de ação
política que, para ele, perpetuou a pobreza e destruiu a capacidade de
a região competir num mercado globalizado. Segundo Greenspan, programas
assistencialistas afastam seus beneficiários da competição,
impedindo-os de atingir sua própria auto-satisfação. Os políticos
latino-americanos oferecem mais assistencialismo, quando, na verdade, só
o capitalismo alavancaria o padrão de vida da população.
Admirador do filósofo escocês Adam Smith e do economista checo Joseph
Alois Schumpeter, ele diz que o capitalismo globalizado é um arranjo de
rara perfeição por sua capacidade de regenerar-se e de se autocorrigir.
Abaixo, sua entrevista, concedida a VEJA na quarta-feira passada em seu escritório,
em Washington.
O MUNDO VIVE
UMA DE SUAS MAIS LONGAS FASES DE PROSPERIDADE. QUANDO ELA ACABA? Essa
expansão ocorre em um ambiente raro de inflação e juros baixos.
Isso não vai durar para sempre. Já há sinais claros de que
seus motores perdem força, ao menos nos Estados Unidos. As grandes empresas
já estão investindo cada vez menos, passaram a recomprar volumes
cada vez maiores de suas próprias ações e a distribuir mais
dividendos. Essa mudança de comportamento só ocorre quando o mundo
corporativo não encontra melhor uso para o dinheiro. Além disso,
o preço de produtos de alta tecnologia tem caído com menor velocidade.
É um indício de que esses produtos têm sido renovados com
mais lentidão. Juntos, esses fatores sinalizam a redução
do potencial de crescimento do país porque, quanto menores forem os investimentos
em tecnologia, mais lento é o avanço da produtividade. Em conseqüência,
menor é a capacidade de um país crescer sem inflação.
NÃO É APENAS
UM SOLUÇO? Temo que não. Tenho observado os ciclos econômicos
desde a década de 40. Com tal profundidade e persistência, as mudanças
tecnológicas que alavancaram a produtividade ocorrem apenas a cada cinqüenta
ou 100 anos. Historicamente, nas economias avançadas, as pessoas parecem
ser incapazes de aumentar sua produção por hora a taxas superiores
a 3% ao ano durante períodos prolongados. Essa é, aparentemente,
a velocidade máxima com que a inovação humana é capaz
de impulsionar o padrão de vida das sociedades. É o limite da inteligência
humana. Essa taxa chegou a 6% em alguns anos da década de 90. O mais natural
é que retorne, com o tempo, a seu padrão natural. Só que
em um ambiente econômico muito mais eficiente, sem rupturas, em que as crises
são mais facilmente acomodadas. Há muitos desafios à frente,
mas o mundo, especialmente os Estados Unidos, é hoje mais capaz de absorver
rupturas e de se recuperar de choques.
O
QUE FAZ A ECONOMIA MUNDIAL SER HOJE MAIS EFICIENTE? O mundo do capitalismo
global é mais flexível, resistente, aberto, autocorretivo e adaptável
do que antes. O controle dos governos sobre a vida diária dos cidadãos
diminuiu, as forças do mercado substituíram alguns poderes que estavam
nas mãos do estado e várias barreiras que impunham limites ao empreendedorismo
foram eliminadas. Veja o caso da economia americana. Sua maior força é
a resiliência proporcionada pela desregulação dos mercados
financeiros e por uma maior flexibilidade dos mercados de trabalho. E, mais recentemente,
pelos grandes avanços da tecnologia da informação. Esses
avanços vão ficar.
EM
SEU LIVRO, O SENHOR DIZ QUE, ALÉM DA REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA,
A TRANSFORMAÇÃO DA CHINA EM UMA ECONOMIA DE MERCADO EXPORTADORA
PERMITIU QUE A INFLAÇÃO MUNDIAL PERMANECESSE SOB CONTROLE, MESMO
COM JUROS BAIXOS. POR QUANTO TEMPO A CHINA CONTINUARA INUNDANDO O MUNDO COM PRODUTOS
BARATOS? Não por muito tempo. Isso também já está
mudando. O preço das exportações chinesas tem subido substancialmente
desde que finalizei meu livro, em junho. O que isso significa? Que talvez o impacto
desinflacionário máximo do processo de transformação
da China numa economia de mercado já tenha sido atingido. De agora em diante,
ocorrerá com menos intensidade. Será mais difícil manter
a taxa de inflação mundial na casa de um dígito, verificada
em quase todo o mundo. É a primeira vez que se registra uma inflação
tão baixa desde o fim do padrão-ouro e da adoção do
papel-moeda, na década de 30.
PODE-SE
AFIRMAR ENTÃO QUE O SENHOR DEIXOU A PRESIDÊNCIA DO FEDERAL RESERVE
NO FIM DA FESTA E SEU SUCESSOR, BEN BERNANKE, É QUEM VAI AMARGAR A RESSACA?
É verdade. Tive muita sorte como presidente do Federal Reserve. Muitos
economistas creditam o controle inflacionário das últimas décadas
principalmente à vigilância dos bancos centrais. Mas eu não
creio que as ações ou a credibilidade monetária tenham tido
um papel tão essencial. Esse controle pode ser creditado à tecnologia,
à transformação da China em economia de mercado e à
globalização. Ao longo dos anos 90, fiquei muito impressionado com
a facilidade com que passamos a influenciar, com a política monetária,
a taxa de juros de longo prazo. Ficou mais fácil cumprir a missão.
Creio que haverá mais pressão inflacionária no futuro próximo.
Sob o ponto de vista dos preços, a economia americana deverá entrar
em um período similar ao registrado entre 1945 e 1980.
A ATUAL TURBULÊNCIA NOS MERCADOS TEM ALGUMA
RELAÇÃO COM ESSE CENÁRIO? Não, são
fenômenos distintos. Mas é preocupante. Freqüentemente temos
crises de natureza bancária ou mobiliária. A atual turbulência
tem as duas. Começou nos ativos lastreados em créditos mobiliários,
refletiu-se nos títulos emitidos por empresas e acabou contagiando os bancos
comerciais e os bancos de investimentos. As instituições financeiras
começaram a correr atrás de seus devedores e a se preocupar com
seu próprio capital. Nesse processo, passaram a emprestar menos. Felizmente
as grandes companhias estão em excelente forma financeira, e a economia
americana tem essa capacidade extraordinária de recuperar-se de choques.
JÁ HAVIA
SINAIS DA BOLHA IMOBILIÁRIA QUANDO O SENHOR DEIXOU O CARGO? Havia
alguns sinais, mas só percebi sua extensão e gravidade no fim de
minha gestão, entre 2005 e 2006.
COMO
O SENHOR REAGE À CRITICA DE QUE, EM SUA GESTÃO, O FED ALIMENTOU
ESSA BOLHA AO MANTER TAXAS DE JURO EXCESSIVAMENTE BAIXAS? A política
monetária produz efeitos complexos. Quando o problema foi se revelando
para nós em sua plenitude, concluímos que nosso trabalho era o de
impedir que o sistema bancário americano se paralisasse. Só assim
asseguraríamos o funcionamento da economia.
QUAL É O PRINCIPAL ENTRAVE À SOLUÇÃO
DA ATUAL CRISE? Temos cerca de 200 000 residências, recém-construídas
ou quase acabadas, que ainda não foram vendidas. Estão penduradas
no mercado. Só 5 000 delas são liquidadas por mês. Ao mesmo
tempo, o ritmo de construção de novas casas mantém-se elevado.
A não ser que haja drástica redução na construção
de novas residências ou o aumento das vendas das que já existem,
o preço de todos os imóveis vai despencar. A história ensina
que isso afetaria a propensão ao consumo dos americanos. Acredite, ninguém
quer que isso ocorra.
NOS
ÚLTIMOS ANOS, CONVENCIONOU-SE QUE COMPLEXAS ESTRUTURAS DE CRÉDITOS
PROMOVERIAM A DIVERSIFICAÇÃO DO RISCO E REDUZIRIAM A VULNERABILIDADE
DO SISTEMA BANCÁRIO. HÁ QUEM DIGA AGORA QUE ESSA CAPACIDADE DE DISPERSÃO
SEJA JUSTAMENTE O PROBLEMA, JÁ QUE NINGUÉM SABE QUAIS INVESTIDORES
FORAM "CONTAMINADOS" POR TÍTULOS GARANTIDOS POR CRÉDITOS IMOBILIÁRIOS
PODRES. É verdade que ninguém sabe onde os créditos
podres estão. Mas, nesta altura do jogo, isso não tem importância.
O crucial é saber se os donos desses papéis têm alguma noção
de seu valor de mercado. Algo me diz que grande parte deles nunca soube, mesmo
quando os compraram. O pânico paralisante do mercado só vai se dissipar
quando esses investidores descobrirem o valor real dos papéis que têm
em mãos. Isso poderá ser um choque, mas eles seguirão adiante.
O problema é o medo paralisante, não a constatação
de que se perdeu dinheiro. De vez em quando há surtos de exuberância
descolados da realidade. Quando a realidade se assenta, a exuberância se
converte em medo. O medo é a base de muitas de nossas reações
econômicas. É o fundamento da aversão ao risco. É a
maior causa das crises.
EM
SEU LIVRO, O SENHOR MOSTRA-SE POUCO PREOCUPADO COM O DÉFICIT EM CONTA-CORRENTE
DOS ESTADOS UNIDOS. POR QUÊ? Porque ele faz parte de uma dinâmica
muito maior em um sistema econômico dotado de enorme capacidade de se autocorrigir.
Se os credores dos Estados Unidos achassem que estão sobrecarregados de
dólares e decidissem comprar euros, por exemplo, o câmbio se moveria
e as exportações americanas aumentariam. Haveria uma correção
gradual desse tão temido desequilíbrio. Se houvesse uma correção
abrupta, radical, aí, sim, teríamos problemas. Mas ninguém
em sã consciência imagina que todos os investidores decidam tirar
dinheiro dos EUA da noite para o dia. Não perco meu sono com isso. Também
vejo com estranheza as preocupações com o déficit comercial,
que, para mim, mais parecem obsessões dos mercantilistas do século
XVIII sedentos por ouro. Muito mais preocupante é o déficit orçamentário.
POR QUE O DÉFICIT
ORÇAMENTÁRIO É MAIS GRAVE? Porque ele não
pode ser corrigido pelo mercado. Decorre de um processo político. Aliás,
estou extremamente desanimado com a política americana. Ela tornou-se disfuncional.
Quando esse governo assumiu, trazendo de volta meus amigos da administração
Ford (Gerald Ford, 1974-1977), eu presumia que haveria menos governo, menos
regulação e menos gastos. Os republicanos tiveram tudo nas mãos
desde 2000: a presidência e o controle do Senado e da Câmara. Mas
acabaram consumindo o poder político na tentativa de perpetuar-se no poder,
com pouco foco em idéias. Perderam, merecidamente, as eleições
de 2006.
NA EVENTUALIDADE
DE UMA RECESSÃO, É POSSÍVEL QUE OS PAÍSES EMERGENTES
SE DESCOLEM DOS ESTADOS UNIDOS, DE MODO QUE O CRESCIMENTO MUNDIAL PERMANEÇA
ELEVADO? Esse descolamento provavelmente vai ocorrer a longo prazo, pois
forças econômicas poderosas impulsionam a transferência do
PIB mundial para os países em desenvolvimento onde há economia de
mercado e grande número de trabalhadores jovens. No curto prazo, no entanto,
isso é incerto. Se os Estados Unidos entrarem em recessão em um
ou dois anos, o Brasil sentirá, assim como a China. Não tenham dúvida
disso.
DIZ-SE QUE
AS RESERVAS INTERNACIONAIS BRASILEIRAS, DE 160 BILHÕES DE DÓLARES,
SÃO UM SEGURO CONTRA A CRISE. O SENHOR CONCORDA? Manter essas reservas
tem um custo financeiro. Além disso, talvez elas estejam sendo usadas para
impedir a valorização do real, estratégia que, pessoalmente,
não vejo com bons olhos. Mas é muito melhor tê-las do que
não tê-las. Principalmente porque, com elas, em um cenário
de turbulência, o Brasil não terá crises de pagamento similares
às que o fizeram mergulhar no populismo econômico que produziu taxas
de inflação de até 5.000% ao ano. Aliás, como escrevi
no livro, nunca consegui me desvencilhar de uma dúvida persistente sobre
o Brasil: como uma economia pode ter sido tão mal gerenciada a ponto de
exigir reforma tão drástica como foi a do Plano Real?
O SENHOR CRITICA FORTEMENTE OS PROGRAMAS DE PROTEÇÃO
AOS POBRES. POR QUE ESSES PROGRAMAS DEIXARIAM DE FAZER SENTIDO EM UM PAIS DESIGUAL
COMO O BRASIL? Porque, a pretexto de proteger camadas mais frágeis
da sociedade, eles tendem a afastar as pessoas do ambiente de competição.
É evidente que a competição é um elemento essencial
para o crescimento e a elevação do padrão de vida da população.
O Brasil e o resto da América Latina precisam de mais liberdade econômica
e menos tutela. O problema é que há um custo político altíssimo
nessa transição e os políticos não estão dispostos
a pagá-lo.
COMO
O SENHOR AVALIA PROGRAMAS COMO O BOLSA FAMÍLIA, DO BRASIL, E O PROGRESA,
DO MÉXICO, QUE OFERECEM AJUDA ECONÔMICA A FAMÍLIAS DESDE QUE
ELAS MANTENHAM CRIANÇAS NA ESCOLA? Essas iniciativas parecem fazer
mais sentido. Ao menos em teoria. Mas a vasta maioria dos programas sociais não
elimina a pobreza e ainda aumenta os gastos públicos. No resto do mundo
emergente, onde o padrão de vida avançou aceleradamente, as taxas
de poupança são muito mais altas porque as redes de proteção
social são mais fracas. Na Ásia, as famílias naturalmente
guardam mais dinheiro para os tempos de necessidade. Na América Latina,
é o inverso. É preciso entender que, quando redes de proteção
social convivem por muito tempo com a pobreza, isso é sinal de que elas
não têm eficácia.
SETORES
DO GOVERNO E DA SOCIEDADE BRASILEIRA QUEREM COLOCAR OBSTÁCULOS À
COMPETIÇÃO, PARA ELES DESLEAL, DOS PRODUTOS CHINESES NO MERCADO
INTERNO. ISSO É CORRETO? Nos primeiros estágios da economia
americana, quando a competição estrangeira ameaçava a base
industrial do país, havia um debate similar. Nós acabamos perdendo
grande parte de nossa base industrial e estamos melhores do que nunca. No mundo
de hoje, o valor está nas idéias, não nos produtos. Perder
a base industrial em um processo de abertura é um sinal de força,
não de fraqueza.
TRECHO
"Ao contrário do capitalismo e do socialismo,
o populismo econômico não se baseia em análise formal das
condições necessárias para a criação de riqueza
e para o aumento do padrão de vida. É atitude muito pouco racional.
É mais um grito de dor. Os líderes populistas fazem promessas irresistíveis
para eliminar ou atenuar situações percebidas como injustas. As
panacéias mais comuns são a redistribuição de terras
e o indiciamento de uma elite corrupta que, alegadamente, rouba dos pobres; os
líderes prometem terra, habitação e comida para todos. 'Justiça'
também é termo muito explorado, geralmente na acepção
redistributiva. Em todas as suas formas, evidentemente, o populismo econômico
se opõe ao capitalismo de livre mercado. Mas tal oposição
incorre em erro essencial e se baseia em falso conceito de capitalismo. Eu e muito
mais gente, dentro e fora da região, diríamos que os populistas
econômicos teriam muito mais chance de alcançar seus objetivos por
meio de mais capitalismo, não de menos. Onde quer que se constatem situações
de sucesso em todos os lugares em que o padrão de vida subiu para
a maioria da população a ampliação dos mercados
abertos e o reforço dos direitos de propriedade desempenham papel crucial.
A melhor evidência de
que o populismo é basicamente uma reação emocional, em vez
de algo baseado em idéias, é o próprio fato de não
recuar, mesmo em face de reiterados fracassos."
TRECHO
"
...muita gente não raro se queixa, inclusive para mim: 'Não sei
como os mercados funcionam, parece que sempre estão à beira do caos'.
Esse sentimento não é de todo ilógico, mas, conforme se aprende
em introdução à economia, quando as economias de mercado
se desviam durante algum tempo de uma trajetória aparentemente estável,
reações competitivas entram em ação para restabelecer
o equilíbrio. Uma vez que a retomada do equilíbrio envolve milhões
de transações, a compreensão do processo é muito difícil.
As abstrações em sala de aula não passam de meros indícios
da dinâmica que, por exemplo, criou condições para que a economia
americana se estabilizasse e crescesse, depois dos ataques de 11 de setembro.
O populismo econômico
imagina um mundo mais simples e direto, no qual as estruturas teóricas
não passam de dispersões em relação às necessidades
evidentes e prementes. Seus princípios são simples. Se há
desemprego, o governo deve contratar os desempregados. Se o dinheiro está
escasso e as taxas de juros, em conseqüência, estão altas, o
governo deve impor limites artificiais ou, então, imprimir mais dinheiro.
Se as importações estão ameaçando empregos, proíba
as importações. Por que tais respostas seriam menos razoáveis
que a suposição de que, para dar partida no carro, basta girar a
chave de ignição?
A resposta é que, nas economias onde milhões de pessoas trabalham
e transacionam todos os dias, os diferentes mercados estão de tal forma
entrelaçados que, quando se atua sobre determinado desequilíbrio,
deflagra-se, inadvertidamente, uma série de outros desequilíbrios."