A Operação
Perestroika, a mais recente investigação da
Polícia Federal, trouxe à tona o submundo do
futebol. Com base em escutas telefônicas, a PF descobriu
que, desde 2004, os dirigentes do Corinthians paulista, um
dos clubes de futebol mais populares do Brasil, faziam de
tudo para esconder a origem do dinheiro que abastecia os cofres
do clube. Oficialmente, os recursos eram da empresa MSI, uma
off-shore com sede em Londres e sócios ocultos. Mas,
nas conversas gravadas, fica claro que o verdadeiro dono da
bola é o magnata russo Boris Berezovsky, enroladíssimo
em seu país natal. As escutas levaram o Ministério
Público Federal de São Paulo a denunciar, em
julho, oito pessoas por crimes que vão de lavagem de
dinheiro a formação de quadrilha. Os dirigentes
corintianos são acusados de realizar pagamentos a jogadores
em contas não declaradas no exterior. Mas a coisa não
parou por aí. VEJA teve acesso a um segundo relatório
produzido pela Polícia Federal em 12 de julho deste
ano, dois dias após a denúncia oferecida
pelo Ministério Público (veja
quadro). Nele, são descritas as atividades
de uma turma da pesada que, conectada à quadrilha que
maculava a história do Corinthians, praticava "tráfico
de influência, advocacia administrativa e favorecimento
pessoal". O chefe dessa turma é ninguém menos
que José Dirceu, o comandante do bando do mensalão.
O relatório
em questão é uma decorrência das investigações
sobre o Corinthians. Lista uma série de outros crimes
descobertos ao longo dessa investigação e sugere
que eles também sejam devidamente apurados. Dirceu
entrou na mira da PF porque esteve no centro de uma operação
de lobby que chegou ao gabinete da Presidência da República.
Em parceria com amigos petistas, ele tentou fazer com que
Berezovsky conseguisse se instalar no Brasil, na condição
de asilado político. Berezovsky, que vive na Inglaterra,
não pode pisar na Rússia, onde é acusado
de fraudes financeiras e até assassinato. O magnata,
cuja fortuna é estimada em 10 bilhões de dólares,
diz que é tudo mentira. Alega ser perseguido pelo presidente
Vladimir Putin. Fosse um gatuno brasileiro, Berezovsky poderia
culpar também a "mídia golpista" russa.
De acordo com agentes
que participaram da investigação, o trabalho
do ex-ministro-chefe da Casa Civil para a máfia que
tomou de assalto o Corinthians começou depois de um
incidente ocorrido em maio de 2006. Nessa ocasião,
Berezovsky foi detido pela PF durante uma viagem a São
Paulo e teve de prestar um depoimento de oito horas sobre
a parceria MSI/Corinthians. Em seguida, as remessas da MSI
começaram a rarear. Isso alarmou os dirigentes do clube,
que então contataram Dirceu e seus petistas para uma
dupla missão: fazer gestões no governo federal
para evitar outros contratempos em visitas futuras do russo
ao Brasil e, ainda, conseguir a condição de
asilado político para Berezovsky, o que eliminaria
de uma vez por todas os problemas do magnata com a Justiça
brasileira. A essa altura, as fraudes no Corinthians já
eram alvo de investigação, no âmbito do
Ministério Público de São Paulo. Os promotores
José Reinaldo Carneiro e Roberto Porto foram os primeiros
a suspeitar que Berezovsky era o verdadeiro dono dos 32 milhões
de dólares investidos pela MSI no clube. Foi a partir
de uma apuração iniciada pelos promotores que
a polícia conseguiu finalmente desbaratar a máfia
instalada no Corinthians. Além disso, Carneiro e Porto
descobriram que, em 2004 e 2005, a Agência Brasileira
de Inteligência (Abin) havia produzido relatórios
listando crimes financeiros praticados por Berezovsky na Rússia.
Ainda assim, Dirceu operou no Palácio do Planalto para
que se fizesse vista grossa ao prontuário do bilionário.
A nova turma da
pesada de Dirceu tem, entre seus integrantes, o jornalista
Breno Altman, amigão do ex-ministro e colaborador da
Secretaria de Relações Internacionais do Partido
dos Trabalhadores. Coube a Breno manter contatos com uma peça-chave
no esquema: Renato Duprat. Ex-dono de uma empresa de planos
de saúde, Duprat era o elo entre a MSI e os corintianos.
Foi ele quem apresentou o iraniano Kia Joorabchian, representante
da MSI no Brasil (e apontado como laranja de Berezovsky),
ao presidente do Corinthians, Alberto Dualib. No relatório
da PF, há a informação de que Breno manteve
contatos com Gilberto Carvalho, chefe do gabinete pessoal
da Presidência, para tratar do asilo ao russo. Outro
alto funcionário do governo contatado foi José
Antonio Dias Toffoli, chefe da Advocacia-Geral da União.
Hélvio
Romero/AE
Patricia
Cruz/Ag. Globo
Renato
Duprat (à esq.) e Kia, peças do time
da fraude: jogadas com petistas para facilitar a vida
de Berezovsky no Brasil
Além de Breno,
havia mais uma peça importante na turma da pesada:
o deputado estadual do PT paulista Vicente Cândido.
Aliado de Dirceu na corrente Campo Majoritário, a maior
do partido, Cândido fez gestões para que o próprio
Lula recebesse Berezovsky no Palácio do Planalto. Felizmente,
não foi bem-sucedido. Mas o deputado chegou a ir a
Londres para participar de reuniões com o russo, sob
a justificativa de que Berezovsky teria interesse em investir
no país nas áreas de energia e aviação.
Sabe-se que Dirceu queria participar de eventuais negócios
fechados pelo russo no Brasil. Outro petista que trabalhou
por Berezovsky, de acordo com a PF, foi Hélio Madalena.
Entre abril de 2003 e junho de 2005, Madalena dirigiu o Centro
Gestor e Operacional do Sistema de Proteção
da Amazônia, órgão ligado à Casa
Civil, então presidida por Dirceu.
Com a denúncia
apresentada à Justiça, os projetos de Dirceu
e companhia envolvendo Berezovsky naufragaram. Mas esse não
era o único negócio no qual a turma da pesada
apostava. O relatório da PF diz textualmente que Dirceu
atuava como "lobista", "aparentemente praticando tráfico
de influência". E dá como exemplo os contatos
entre o ex-ministro-chefe da Casa Civil e Darc Costa, que
já ocupou a vice-presidência do BNDES. A conversa,
acompanhada pela PF, aconteceu quando Darc já não
exercia esse cargo. A idéia era que Dirceu fosse apresentado
a um empresário que tinha firmado um contrato de 40
milhões de dólares com a República Dominicana.
Dirceu tem ótimas relações com o presidente
do país, Leonel Reyna, a quem já apresentou
projetos na área de exportação do etanol
brasileiro.
O outro negócio
de Breno Altman é mais obscuro. De acordo com a PF,
o jornalista alardeava ter influência sobre juízes
do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo,
já que "os juízes são indicados por Brasília".
A polícia só conseguiu obter informações
sobre essas atividades porque pediu autorização
judicial para grampear Dirceu e Breno. A PF tomou essa decisão
ao perceber que o trabalho da dupla para os cartolas do Corinthians
tinha um forte odor de ilegalidade. A nova turma da pesada
de Dirceu não foi denunciada pelos crimes apurados
pela Polícia Federal. Isso não quer dizer que
escapou da Justiça. "Os fatos que não estão
relacionados diretamente ao Corinthians ainda terão
uma apuração específica", avisa o procurador
Rodrigo de Grandis, um dos autores da denúncia do caso
MSI.
Fotos
Sergei Karpukhin/Reuters, Wilton Junior/AE, Marcello Casal
Junior/Agência Brasil, L C Leite/AE