Depois da garota
(ou antes), morar na avenida de doze quarteirões à beira-mar
é a coisa mais linda de Ipanema
Marcos
Barrero
Mirian
Fichtner
A
Vieira Souto ao cair da tarde: vista para o mar, calçadão e concentração de moradores
famosos
Endereço: Avenida
Vieira Souto, Ipanema, Rio de Janeiro. Podem existir outros endereços tão
bons, outros tão charmosos, outros com vista tão maravilhosa. Mas
nenhum é, ao mesmo tempo, tão bom, tão charmoso e tem vista
tão maravilhosa quanto a Avenida Vieira Souto, a "rua da praia" de Ipanema.
Morar na Vieira Souto traz implícito um estilo único de vida, que
mistura descontração e status, grifes com chinelos de borracha,
vidros blindados e água-de-coco. Um apartamento com vista para a eterna
e sublime paisagem natural e para a mutante e curiosa paisagem humana custa entre
3 milhões e 18 milhões de reais; a taxa de condomínio média
bate em 4 000 reais. "Ela continua sendo a mais charmosa e a mais cara avenida
do país", exalta o incorporador Marcus Cavalcanti. Existe outro mundo nos
doze quarteirões dessa rica passarela estendida ao longo de 2,2 quilômetros
em linha reta, com 800 cobiçados endereços. Por ela, um punhado
de gente com sobrenome cinco-estrelas, e os correspondentes cifrões, vai
ao supermercado e passa pela livraria, anda de tênis e bermuda no calçadão,
joga futevôlei e mergulha no mar gente com assinaturas como Moreira
Salles, Gerdau, Marinho, Almeida Braga e Monteiro de Carvalho. São os tradicionais.
Em geral discretos, com horror a aparecer, dão passagem à festa
dos emergentes. "Surgiu uma nova geração com dinheiro na mão",
explica Cavalcanti. "O perfil atual do morador da Vieira Souto é jovem
e empreendedor, no comando de negócios diversificados."
O retrato mais emblemático dessa nova geração é o
empresário Alexandre Accioly. Falido no Plano Collor e enriquecido dez
anos depois ao vender a Quatro/A, então a maior empresa de telemarketing
da América Latina, Accioly aplicou em Ipanema boa parte do caminhão
de 420 milhões de reais com que saiu do negócio. Num raio de 600
metros de seu apartamento no legendário Edifício Cap Ferrat, montou
uma rede de restaurantes, academias de ginástica, imóveis, empresas
de shows e de venda de ingressos e até uma rádio. "A avenida está
num quadrilátero de alto poder aquisitivo, por onde circulam as classes
A e B do Rio de Janeiro. Os ricos têm medo de atravessar o túnel
para ir à Barra da Tijuca e ficam por aqui", diz o empresário de
45 anos, trinta dos quais vividos em Ipanema. De seu apartamento, com esplêndida
vista para a praia e as Ilhas Cagarras mar adentro, planeja uma tacada atrás
da outra. "Já tenho a terceira maior rede de academias do país",
informa. "Quero abrir capital na bolsa de valores em 2008." Ele mora sozinho,
mas comprou um apartamento lá perto para Astrid Monteiro de Carvalho, mãe
de seu filho, Antônio (sabido e reconhecido quando já tinha 1 ano
de idade). O próprio Cap Ferrat é símbolo das transformações
da Vieira Souto. Até o fim da década de 1970, a avenida era pontilhada
de pequenos prédios de no máximo quatro andares. Durante muitos
anos, apenas dois edifícios destoaram no bucólico cenário
de beira-mar: o Castelinho, capricho neomourisco do cônsul sueco Johan Edward
Jansson inaugurado em 1904, e o JK, construção de cinco andares
cujo tríplex serviu de residência ao presidente Juscelino Kubitschek
e sua família pouco antes do advento de Brasília. A Vieira Souto
de hoje começou a nascer quando a saturação de Copacabana
levou a expansão imobiliária ao que era até então
um pacato bairro de praia. As construções originais que não
deram lugar aos prédios de fachadas envidraçadas, típicas
da época, foram reformadas e adaptadas. "Em alguns edifícios não
existia garagem e a tubulação estava apodrecida", recorda o arquiteto
Bertoldo Pogrebinschi, que desembarcou com seu escritório no bairro em
1975. Há até hoje casos irremediáveis. Inaugurado em 1973,
o Hotel Sol Ipanema pioneiro dos seis únicos estabelecimentos não
residenciais da Vieira Souto tem dezesseis andares e nenhuma vaga de garagem.
"Os manobristas formam filas que deixam o trânsito ainda mais caótico",
queixa-se Carlos Magno da Rocha de seu ponto de observação privilegiado:
o quiosque Quase Nove, de nome auto-explicativo (quase Posto 9, claro).
Calé
Accioly
na sua varanda do Edifício Cap Ferrat: rede de negócios em volta de casa
Na calçada, em cadeirinhas de plástico, Rocha bate papo e empresta
discos para Maurício Sherman, diretor da Rede Globo. "O Braguinha passa
por aqui e faz uma pausa para tomar água-de-coco", diz Rocha, com carioca
intimidade, sobre o banqueiro aposentado Antonio Carlos de Almeida Braga, dono
de um apartamento de cobertura na avenida onde fica quando não está
em sua maravilhosa quinta em Portugal. O movimento de famosos, que no bairro são
tratados quase como gente comum, se reproduz em pontos célebres como a
Livraria da Travessa, na Rua Visconde de Pirajá. "A Fernanda Montenegro
já vem com uma listinha pronta na mão, dizendo o que quer, título
por título", orgulha-se um dos donos, Rui Campos. Investidas comerciais
na Vieira Souto raramente deram certo. Sobrevivem os hotéis Sol Ipanema
e Caesar Park, a Casa de Cultura Laura Alvim e o restaurante Barril 1800, que
parece estar lá desde o ano correspondente. Na confluência com o
Arpoador está o recém-inaugurado Hotel Fasano. Na esquina com a
Farme de Amoedo, fazendo jus à fama de ponto micadíssimo, a butique
de luxo Espaço Lundgren fechou as portas. Outro sinal do peculiar universo
da Vieira Souto, onde madame anda em carro de vidro escuro, sim, mas também
passeia a pé com os filhos: o salão de cabeleireiros Prima Qualitá
instalou um lounge para babás e outro para motoristas. No clima de violência
que é particularmente ressonante no Rio de Janeiro, os prédios da
avenida reservam boa parcela do condomínio para bancar o aparato de segurança.
Os mais novos têm elevadores digitais, vidros blindados, sensores de presença,
câmeras e circuitos internos de TV. Há três postos da Polícia
Militar ao longo da orla, sendo um bem em frente ao Cap Ferrat. "Atrás
da avenida, só na Rua Visconde de Pirajá, existem mais de 2 500
câmeras de vigilância nas lojas", diz o presidente da Associação
Comercial de Ipanema, Carlos Monjardim. Ainda assim, os boletins de ocorrência
da PM entregam o bairro como recordista de assaltos e roubo de carros na Zona
Sul.
O cotidiano da Vieira Souto, cujo
nome é homenagem ao engenheiro que projetou as ruas quando o bairro foi
urbanizado, no fim do século XIX, é coalhado de estrelas. Caetano
Veloso durante anos morou com a empresária Paula Lavigne, mãe de
seus filhos Zeca e Tom, num apartamento de 750 metros quadrados no Edifício
JK. Com a separação, em 2004, instalou-se a 100 metros da mulher
e dos filhos, num flat com um décimo do tamanho (suíte, quarto,
cozinha e banheiro) no apart-hotel Residence Service, onde mora também
seu ex-sogro, o advogado Arthur Lavigne. Mas não adianta procurá-lo
na praia ou no calçadão: Caetano troca o dia pela noite e simplesmente
não dá as caras pelas redondezas. A viúva de Tom Jobim, Ana
Lontra, e a filha, a universitária Luiza, moram na Vieira Souto, ao lado
do Caesar Park. A mais arredia personalidade da avenida é provavelmente
Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central no governo Figueiredo, agora professor
da Fundação Getulio Vargas, que vive recluso e sozinho num apartamento
de 400 metros quadrados. "Não fala, esconde-se e odeia para o resto da
vida quem revela seu endereço", diz um amigo, implorando o anonimato. "Tem
pavor de violência, assalto e seqüestro." Todo mundo parece estar por
dentro das intrigas, como as que envolvem os herdeiros do médico Guilherme
Romano, ex-dono do Hospital Santa Helena. No centro está o tesouro que
deixou no alto da esquina com a Rua Vinicius de Moraes. "É uma cobertura
única em toda a avenida", revela um conhecedor do mercado. "Tem 1 500 metros
quadrados, um jardim com grandes árvores, ocupa a laje inteira e custa
15 milhões de reais." O ex-deputado Sérgio Naya (construtor do Palace
II, o prédio que virou pó na Barra da Tijuca) foi desalojado pela
Justiça e seu apartamento de 660 metros quadrados do Cap Ferrat acabou
num leilão. No mesmo Cap Ferrat, os moradores testemunharam um episódio
constrangedor no réveillon de 2005: o empresário Vittorio Tedeschi,
em prisão domiciliar por envolvimento com fraudes na venda de medicamentos
a hospitais públicos, convocou amigos e deu uma festa de arromba, regada
a champanhe, com oito policiais na porta.
Mesmo com o impacto da violência e a inexistência de espaço
para novos lançamentos, a Vieira Souto continua a ser um ímã
para sobrenomes famosos. O presidente do Unibanco, Pedro Moreira Salles, acaba
de comprar uma cobertura na esquina com a Farme de Amoedo. André Esteves,
do banco UBS Pactual, e o ex-comandante do Banco Bozano Simonsen, Júlio
Bozano, estão entrincheirados no inevitável Cap Ferrat. Em matéria
de nomes globais, o diretor Sherman está instalado perto do Posto 9, Fernanda
Montenegro e o diretor de jornalismo Carlos Henrique Schroeder moram nas imediações
do Caesar Park. José Roberto Marinho vive numa cobertura próxima
à Teixeira de Mello. Para quem se interessar em entrar na lista, o melhor
caminho é procurar o Banco Central. "O Henrique Meirelles está vendendo
um apartamento de 350 metros quadrados na esquina da Vinicius de Moraes", diz,
sobre o presidente do BC, um corretor especializado em imóveis de luxo
da Zona Sul carioca. Restam também algumas unidades do prédio de
seis andares, ainda na planta, que surgirá no último terreno da
Vieira Souto, esquina com a Epitácio Pessoa, onde funcionou durante décadas
o lendário Postinho (de gasolina). A cobertura, de 1 000 metros quadrados,
sai por 16 milhões de reais. A vista, a vizinhança e a diversão
estão incluídas no preço.