Fazer
um jardim é construir um refúgio, louvar a natureza, garantir o
próprio pedacinho de paraíso terrestre. O problema, claro, é
que demora um bocado de tempo para usufruir um jardim completo, com árvores
crescidas e outras plantas de grande porte em toda a sua exuberância. Para
quem tem paciência de menos e recursos a mais, a solução é
o jardim instantâneo. Com a aparente naturalidade de quem
compra um rolo de grama pronto, paisagistas de grandes escritórios especializaram-se
nos últimos tempos em montar jardins de 50 anos de idade em menos de um
mês. Dá um trabalho danado e o custo não é nada paradisíaco,
mas os resultados são impressionantes. As histórias de como se chegou
lá também. O paisagista Alex Hanazaki nunca se esquecerá
dos memoráveis dias de dezembro do ano passado em que precisou transportar
por terra, em caminhões, com escolta de dezenas de jardineiros
árvores de até 10 metros de altura, algumas pesando 1 tonelada,
para o jardim de uma cliente em Ilhabela, no litoral paulista. Teria sido mais
simples se o plano de levar as plantas por mar tivesse dado certo. "Mas o dono
do barco desistiu na última hora, com medo de que a embarcação
ficasse presa nas pedras que fazem o limite do jardim com a praia", conta Hanazaki.
O jeito foi contratar caminhões e contar com a paciência dos vizinhos
que, pelo transtorno, receberam da dona da casa uma garrafa de champanhe
e um pedido de desculpas.
O saldo da aventura foi positivo: apenas o jasmim-manga teve um de seus delicados
galhos quebrado. O pândano de 50 anos de idade, as tamareiras de 20 e todas
as outras plantas chegaram intactas. Àquela altura, restavam vinte dias
para implantar o jardim, encomendado para a festa de réveillon. Um caminhão
dotado de um braço com alcance de 20 metros passava as árvores por
cima do muro; mais de vinte homens carregavam tudo no muque, escada abaixo, até
o jardim. "Minha cliente olhava assustada e dizia: 'Nunca vi nada igual' ", lembra
o paisagista. O conceito do jardim instantâneo surgiu nos Estados Unidos,
onde árvores mais majestosas podem chegar a custar 100 000 dólares
e outro tanto para o transporte e o transplante, dependendo das dificuldades.
No Brasil, está fincando raízes há menos de dez anos, segundo
o professor Silvio Macedo, coordenador do Quapá, projeto de pesquisa sobre
paisagismo da Universidade de São Paulo. Começou nos condomínios
(quanto mais verdes, mais valorizados) e se tornou comum nas casas que as famílias
bem de vida constroem na cidade, no campo e na praia. Muito bem de vida, diga-se:
o projeto mais caro assinado por Hanazaki um jardim de 32 000 metros quadrados
numa casa de praia custou 2,5 milhões de reais. "Mas foi uma situação
única. Meu cliente queria uma floresta em casa", diz ele. O projeto e a
execução do jardim de Ilhabela custaram cerca de 300 000 reais,
incluindo os honorários do paisagista e de sua equipe, gastos com as plantas
e seu transporte, iluminação, ampliação da piscina
e construção de spa, espelho-d'água, área de estar
e churrasqueira.
Na
cidade: olheiros se encarregam de procurar e comprar plantas adultas em propriedades
do interior
O preço é proporcional à pressa do cliente. Um jardim de
500 metros quadrados com vegetação de 1 ano de idade custa, em média,
15 000 reais. O mesmo jardim, com plantas de 10 anos, sai por mais de 200 000
reais, segundo avaliação do paisagista e engenheiro agrônomo
Marcelo Faisal. Um investimento desse porte exige cuidado. Antes da remoção
e do transporte, árvores de copa e palmeiras passam pela "sangria": as
raízes são podadas, aos poucos, durante seis meses, para minimizar
o trauma do transplante. Parte das folhas também é podada
como as plantas transpiram pela folha, é uma maneira de perderem menos
água ao ser deslocadas. Durante o transporte, é vital preservar
o torrão, como é chamada a raiz envolta por terra. "Uma jabuticabeira
transplantada sem passar pela sangria perde todas as folhas e demora seis meses
para se recuperar. Uma árvore já sangrada perde apenas 10%, o que
não compromete a estética", explica Faisal. Mesmo com todos esses
cuidados, as plantas demoram de quatro meses a um ano para se acostumar com o
solo, o vento e a luminosidade do novo ambiente e recuperar o apogeu. Às
vezes, leva mais tempo: no jardim do haras particular de um cliente do paisagista
Gilberto Elkis próximo a Itu, no interior de São Paulo, as setenta
palmeiras-imperiais de 50 anos que formam a alameda de entrada estão apoiadas
em estacas há dois anos. Como foram transplantadas com o porte muito grande
(cerca de 20 metros de altura) para uma região de bastante vento, é
preciso mantê-las firmes para que enraízem corretamente.
No
campo: ciprestes e outras árvores replantadas levam de quatro meses a um ano até
recuperar o pleno viço
O mercado de árvores adultas tem um problema: faltam árvores. Os
viveiros são poucos e não dispõem de grandes quantidades.
O lote de palmeiras-imperiais na entrada do haras de Itu e mais as vinte
que o dono plantou em sua casa, no condomínio de Alphaville, em São
Paulo veio de um hotel falido em Goiânia e foi descoberto por um
olheiro, como é chamada a pessoa que vive de encontrar e negociar árvores
antigas em fazendas ou empreendimentos desfeitos. Em geral, ele trabalha para
empresas especializadas no transporte e transplante das plantas. São estas
que recebem a encomenda do paisagista e repassam o pedido ao olheiro. Sorte e,
literalmente, bom olho ajudam. Carlos Behr, diretor da Big Trees, empresa especializada
no transporte e transplante de árvores, lembra de um mesmo olheiro no Paraná
que localizou primeiro uma prodigiosa pata-de-elefante de 200 anos, vendida a
um cliente por 40 000 reais, depois uma cica de 200 anos que Behr comprou e levou
para casa. Independentemente do preço e das dificuldades, a idéia
do jardim instantâneo tem tudo para se propagar. Como justificou um cliente
de Hanazaki, ao encomendar coqueiros, paus-ferros, palmeiras-imperiais e árvores
frutíferas para sua casa na praia em Ubatuba (SP): "Não tenho tempo
de esperar o jardim fazer 50 anos. Sei que vai ficar tudo para os meus filhos,
mas quero vê-los subindo na jabuticabeira agora".