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19 de setembro de 2007
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Especial
A reinvenção do paraíso

Garimpando árvores antigas, paisagistas criam em um mês
jardins que levariam décadas para florescer e frutificar


Naiara Magalhães

 

Fotos Roberto Setton
À beira-mar: frota de caminhões e jardineiros para transportar árvores de até 1 tonelada


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Quadro: Pronta entrega

Fazer um jardim é construir um refúgio, louvar a natureza, garantir o próprio pedacinho de paraíso terrestre. O problema, claro, é que demora um bocado de tempo para usufruir um jardim completo, com árvores crescidas e outras plantas de grande porte em toda a sua exuberância. Para quem tem paciência de menos e recursos a mais, a solução é o jardim instantâneo. Com a – aparente – naturalidade de quem compra um rolo de grama pronto, paisagistas de grandes escritórios especializaram-se nos últimos tempos em montar jardins de 50 anos de idade em menos de um mês. Dá um trabalho danado e o custo não é nada paradisíaco, mas os resultados são impressionantes. As histórias de como se chegou lá também. O paisagista Alex Hanazaki nunca se esquecerá dos memoráveis dias de dezembro do ano passado em que precisou transportar – por terra, em caminhões, com escolta de dezenas de jardineiros – árvores de até 10 metros de altura, algumas pesando 1 tonelada, para o jardim de uma cliente em Ilhabela, no litoral paulista. Teria sido mais simples se o plano de levar as plantas por mar tivesse dado certo. "Mas o dono do barco desistiu na última hora, com medo de que a embarcação ficasse presa nas pedras que fazem o limite do jardim com a praia", conta Hanazaki. O jeito foi contratar caminhões e contar com a paciência dos vizinhos – que, pelo transtorno, receberam da dona da casa uma garrafa de champanhe e um pedido de desculpas.

O saldo da aventura foi positivo: apenas o jasmim-manga teve um de seus delicados galhos quebrado. O pândano de 50 anos de idade, as tamareiras de 20 e todas as outras plantas chegaram intactas. Àquela altura, restavam vinte dias para implantar o jardim, encomendado para a festa de réveillon. Um caminhão dotado de um braço com alcance de 20 metros passava as árvores por cima do muro; mais de vinte homens carregavam tudo no muque, escada abaixo, até o jardim. "Minha cliente olhava assustada e dizia: 'Nunca vi nada igual' ", lembra o paisagista. O conceito do jardim instantâneo surgiu nos Estados Unidos, onde árvores mais majestosas podem chegar a custar 100 000 dólares – e outro tanto para o transporte e o transplante, dependendo das dificuldades. No Brasil, está fincando raízes há menos de dez anos, segundo o professor Silvio Macedo, coordenador do Quapá, projeto de pesquisa sobre paisagismo da Universidade de São Paulo. Começou nos condomínios (quanto mais verdes, mais valorizados) e se tornou comum nas casas que as famílias bem de vida constroem na cidade, no campo e na praia. Muito bem de vida, diga-se: o projeto mais caro assinado por Hanazaki – um jardim de 32 000 metros quadrados numa casa de praia – custou 2,5 milhões de reais. "Mas foi uma situação única. Meu cliente queria uma floresta em casa", diz ele. O projeto e a execução do jardim de Ilhabela custaram cerca de 300 000 reais, incluindo os honorários do paisagista e de sua equipe, gastos com as plantas e seu transporte, iluminação, ampliação da piscina e construção de spa, espelho-d'água, área de estar e churrasqueira.

 

Na cidade: olheiros se encarregam de procurar e comprar plantas adultas em propriedades do interior

O preço é proporcional à pressa do cliente. Um jardim de 500 metros quadrados com vegetação de 1 ano de idade custa, em média, 15 000 reais. O mesmo jardim, com plantas de 10 anos, sai por mais de 200 000 reais, segundo avaliação do paisagista e engenheiro agrônomo Marcelo Faisal. Um investimento desse porte exige cuidado. Antes da remoção e do transporte, árvores de copa e palmeiras passam pela "sangria": as raízes são podadas, aos poucos, durante seis meses, para minimizar o trauma do transplante. Parte das folhas também é podada – como as plantas transpiram pela folha, é uma maneira de perderem menos água ao ser deslocadas. Durante o transporte, é vital preservar o torrão, como é chamada a raiz envolta por terra. "Uma jabuticabeira transplantada sem passar pela sangria perde todas as folhas e demora seis meses para se recuperar. Uma árvore já sangrada perde apenas 10%, o que não compromete a estética", explica Faisal. Mesmo com todos esses cuidados, as plantas demoram de quatro meses a um ano para se acostumar com o solo, o vento e a luminosidade do novo ambiente e recuperar o apogeu. Às vezes, leva mais tempo: no jardim do haras particular de um cliente do paisagista Gilberto Elkis próximo a Itu, no interior de São Paulo, as setenta palmeiras-imperiais de 50 anos que formam a alameda de entrada estão apoiadas em estacas há dois anos. Como foram transplantadas com o porte muito grande (cerca de 20 metros de altura) para uma região de bastante vento, é preciso mantê-las firmes para que enraízem corretamente.

No campo: ciprestes e outras árvores replantadas levam de quatro meses a um ano até recuperar o pleno viço

O mercado de árvores adultas tem um problema: faltam árvores. Os viveiros são poucos e não dispõem de grandes quantidades. O lote de palmeiras-imperiais na entrada do haras de Itu – e mais as vinte que o dono plantou em sua casa, no condomínio de Alphaville, em São Paulo – veio de um hotel falido em Goiânia e foi descoberto por um olheiro, como é chamada a pessoa que vive de encontrar e negociar árvores antigas em fazendas ou empreendimentos desfeitos. Em geral, ele trabalha para empresas especializadas no transporte e transplante das plantas. São estas que recebem a encomenda do paisagista e repassam o pedido ao olheiro. Sorte e, literalmente, bom olho ajudam. Carlos Behr, diretor da Big Trees, empresa especializada no transporte e transplante de árvores, lembra de um mesmo olheiro no Paraná que localizou primeiro uma prodigiosa pata-de-elefante de 200 anos, vendida a um cliente por 40 000 reais, depois uma cica de 200 anos que Behr comprou e levou para casa. Independentemente do preço e das dificuldades, a idéia do jardim instantâneo tem tudo para se propagar. Como justificou um cliente de Hanazaki, ao encomendar coqueiros, paus-ferros, palmeiras-imperiais e árvores frutíferas para sua casa na praia em Ubatuba (SP): "Não tenho tempo de esperar o jardim fazer 50 anos. Sei que vai ficar tudo para os meus filhos, mas quero vê-los subindo na jabuticabeira agora".

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