Lan house, cinema,
cozinha infantil, lugar
para tocar bateria o mercado adora novidades
Suzana Villaverde
Roberto Setton
O "clube" do Edifício
Rail, em São Paulo: piscina do tipo raia, lavanderia,
restaurante e bares
Certas
coisas são tão rotineiras que nem se discutem.
Por exemplo: todo prédio residencial no mínimo
tem piscina, fitness center e salão de festas dotado
de espaço gourmet, onde o próprio morador pode
exercer seus dotes culinários num jantarzinho para
os amigos. Diante dos novos lançamentos, quem mora
num lugar que dispõe apenas desses recursos fica até
intimidado. A imaginação dos incorporadores
acirrada pela competição cria
novidade atrás de novidade. Equipamentos e serviços
estão transformando condomínios em complexos
de lazer cheios de nomes complicados e apelos aos compradores,
pelo menos na planta, já que na prática o tal
jantarzinho pode não sair nunca do plano das aspirações.
Para manter a forma, a velha sala de ginástica empalidece
diante de pistas de corrida de quase 1 quilômetro e
campos de golfe. A garotada nem quer ouvir falar em sala de
jogos; a moda é o "espaço jovem" ou teen,
no jargão imobiliário , salão com
decoração moderninha onde os adolescentes podem
se reunir longe das crianças, que ficam, claro, no
children's space. A opção ao espaço jovem
é a garage band, sala com isolamento acústico
para que ataquem a bateria sem enlouquecer os vizinhos. As
mulheres, tão vitais na hora da decisão de compra,
são mimadas com salão de cabeleireiro ou um
spa de verdade, com instalações para massagem
e tratamentos estéticos. Até os animais domésticos
são contemplados: há empreendimentos dotados
de pet care, com serviço de banho, tosa e veterinário.
A disseminação
dos serviços prediais tem importância especial
em empreendimentos mais distantes dos bairros tradicionais,
onde estão justamente os terrenos maiores, que facilitam
a diversificação dos equipamentos e permitem
a construção de vários blocos de apartamentos.
"Décadas atrás, a piscina, o salão de
jogos e o de festas deram status ao prédio, mas aumentavam
tanto o valor do condomínio que só valiam a
pena em apartamentos de alto padrão. Agora, em empreendimentos
maiores, o custo se dilui", diz Odair Senra, diretor de incorporações
da Gafisa. Famílias com crianças não
são o único público-alvo. Alguns lançamentos
são projetados ou adaptados para jovens solteiros,
fatia que está sendo descoberta pelo mercado. Os compradores
do Mandarim, empreendimento da Cyrela em São Paulo,
por exemplo, não viram muita utilidade no original
baby zen, uma espécie de pequena trilha feita para
o bebê "entrar em contato com a natureza". A trilha
foi transformada em canteiro. Na busca de novos e diferenciados
atrativos, a mesma construtora lançou o Domínio
Marajoara, na Zona Sul de São Paulo, onde as piscinas
do "complexo aquático" de 2 000 metros quadrados são
cercadas de um material que imita areia como a de praia.
"A gente cria a
necessidade. Na hora da venda, o inusitado se torna essencial",
analisa Marcella Carvalhal, gerente de marketing da Klabin
Segall, construtora que lançou um empreendimento no
bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, com nada menos de vinte
opções de lazer uma espécie de
versão imobiliária do sanduíche cheese-tudo.
Todas as 688 unidades foram vendidas em menos de duas horas.
Com tanta coisa, não é raro que os equipamentos
passem a maior parte do tempo às moscas, mas isso,
diz Rogério Chor, presidente da construtora carioca
CHL, não é problema. "O importante é
ter à disposição. Funciona como as jóias:
as mulheres são loucas por elas, nem que seja para
guardá-las no cofre", brinca. Devido à oscilação
da demanda, a tendência é que os serviços
sejam terceirizados. "Não vendemos mais espaços,
vendemos serviços", diz Marcelo Parreira, gerente de
produto da construtora RJZ. "Temos empreendimentos que oferecem
cozinha experimental para crianças, aulas de artes
cênicas, sempre com um bom profissional no local"
a preço especial, sem passar pela conta do condomínio.
No Rail, um conjunto de dois prédios com 399 apartamentos
para jovens solteiros ou casais sem filhos, em São
Paulo, serviços como lavanderia e lanchonete funcionam
no sistema pay-per-use no inglês peculiar do
mercado. Um dos maiores clichês de quem está
do outro lado do balcão é criticar a proliferação
de equipamentos e serviços nos novos prédios
por isolar cada vez mais seus moradores, como se estes fossem
culpados pela terrível sensação de insegurança
que oprime a todos. "Infelizmente, a população
é hoje obrigada a viver em verdadeiras fortalezas.
Só falta o fosso com o crocodilo. E não duvido
que um dia alguém coloque", diz Ricardo Yazbek, dono
da construtora R. Yazbek.
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Piscina,
quadra, sala de ginástica e spa? Isso é quase nada
perto das novidades que não param de
brotar:
Lan house
Home office, escritório para o morador
receber clientes (em alguns projetos, um para cada apartamento)
Child care, que além de brinquedos tem
fraldário, berços, televisão e
poltronas para mães e babás
Woman care, ou salão de beleza
Pet care, para cuidar dos animais de estimação
Cozinha infantil, de verdade, onde um professor
contratado ensina os pequenos
Garage band, uma sala à prova de som para
o adolescente ensaiar com sua banda