Para aumentar
a sala e criar sensação de amplitude, a varanda, sozinha, ganha
o tamanho de um apartamento
Suzana
Villaverde
Marcio
Lima
De
frente para o céu e o mar em Salvador: 52 metros quadrados sobre uma dádiva da
natureza
Você
prefere morar em casa ou apartamento? Para o diretor-superintendente da construtora
Camargo Corrêa, Roberto Perroni, a resposta é óbvia. "Todo
mundo sonha em morar em uma casa, mas na hora de comprar escolhe um apartamento
pela segurança", diz. Com base nessa constatação, o mercado
imobiliário encontrou uma solução para atender pelo menos
a parte dos anseios de seus clientes e, assim, acelerar as vendas: expandiu as
varandas e as transformou em verdadeiros quintais nas alturas. Quintais evidentemente
mais modernos, com churrasqueiras caprichadas (mesmo que pouco usadas) num canto
já chamado, claro, de gourmet. "Ainda não têm a desvantagem
de ficar sujos com facilidade e precisar ser limpos todo dia", enumera Walter
Lafemina, presidente da construtora Company. Ao contrário de outras novidades
imobiliárias, as varandas gigantes não pesam no custo para o incorporador
por serem consideradas, até uma certa medida que varia conforme a legislação
de cada estado, áreas não computáveis no valor total de uma
obra. "É uma área que não encarece o imóvel e é
muito valorizada pelos compradores", diz Lafemina.
Há dez anos, a varanda de um apartamento médio de dois quartos em
São Paulo tinha até 1 metro de largura. Hoje estão com 2
ou mais. "O antigo puxadinho que só tinha função para o fumante
chegou ao fim", brinca Lafemina. Segundo o diretor de área residencial
da Tishman Speyer, Eduardo Machado, a transformação do "respiro
do apartamento" em um cômodo a mais cativa os novos compradores. "Quando
as pessoas visitam os apartamentos decorados, passam metade do tempo na varanda.
É onde eu mais fecho negócios", informa. Varanda, sacada ou balcão,
a idéia de um "respiro" no andar superior chegou à arquitetura ibérica
através das tradicionais construções árabes, onde
eram envoltos em treliça para permitir às mulheres ver sem ser vistas,
e começou a ser incorporada aos apartamentos brasileiros na década
de 30 basicamente como recurso para aumentar a luminosidade interna. "Eram pequenos
balcões que davam a sensação de que a pessoa podia sair,
evitando que se sentisse confinada dentro da sala", explica o professor José
Eduardo Lefèvre, do departamento de história da arquitetura da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Nos anos 60, esse
espaço praticamente desapareceu a inspiração modernista,
a televisão e o ar-condicionado eliminaram a idéia. No princípio
da década de 80, quando os apartamentos começam a diminuir de tamanho
para caber no bolso dos clientes, a varanda ressurgiu como um enfeite cuja função
era dar a impressão de amplitude. "Há dez anos, ela foi definitivamente
reabilitada e começou a crescer. Passou de espaço de ambientação
e circulação para um importante espaço de convivência",
diz Lefèvre.
Luis
Gomes
Celina,
que reúne os amigos no espaço de frente para o parque: lugar para sessenta convidados
– sentados
Em São
Paulo, nos 23 prédios de apartamentos de luxo (acima de 1,5 milhão
de dólares) em construção ou entregues neste ano, a área
média das varandas bateu na faixa dos 50 metros quadrados o equivalente
a um apartamento de um quarto. Redescobertas, ampliadas e protegidas do vento,
viraram ponto de encontro. "Se tenho convidados, arrumo a casa inteira, mas sei
que eles vão ser atraídos pela varanda", diz Celina Ferreira, 54
anos, mulher do jornalista Amaury Jr. e dona de um espaço de 52 metros
quadrados à altura do portentoso apartamento de 500 metros quadrados
com vista para o Parque do Ibirapuera. "Na varanda fazemos aniversários
e happy hours. Todo ano damos uma festa na noite em que se acendem as luzes da
árvore de Natal do parque", diz. "Cabem sessenta pessoas sentadas, tranqüilamente."
Uma vista como a de Celina
é privilégio raro em São Paulo e uma generosa dádiva
da natureza em cidades praianas como Salvador. No Corredor da Vitória,
a maravilhosa vista para a Baía de Todos os Santos é o local ideal
para novos empreendimentos com sacadas que prestam homenagem a tanta beleza. "No
Nordeste, é praticamente obrigatório que o apartamento tenha um
varandão", diz o arquiteto Ivan Smarcevski, que participou do projeto de
um edifício em construção onde as varandas medem 56 metros
quadrados. "Não dá para não aproveitar uma vista dessas e
um clima onde faz 19 graus no inverno." Em lugares de clima menos ameno, a solução
para os novos e enormes espaços abertos é fechá-los com painéis
de vidros deslizantes ou toldos verticais de plástico transparente. "Senão,
na primeira ventania, a decoração toda vai embora", avisa a arquiteta
Brunete Fraccaroli, de São Paulo, consciente da contradição,
mas com a experiência de quem já viveu seu momento e o vento levou.