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19 de setembro de 2007
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Viva la vida mansa

Jurerê é o condomínio ideal: os moradores se
conhecem, a segurança funciona, as casas são
bonitas e as mulheres mais ainda


Laura Ming

 

Fotos Lailson Santos

Demasi e a família na frente de casa: dois anos de ponte aérea entre São Paulo e Florianópolis

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Quem já não sonhou em largar tudo e ir morar em Florianópolis? Pois quem vai mesmo atrás do sonho, e consegue bancá-lo, tem um endereço em mente: Jurerê Internacional, o condomínio que chega mais próximo do ideal desse tipo de empreendimento. São 600 hectares (mas só 200 construídos) de bairro planejado, arborizado e limpo, casas enormes com ar de Miami brasileira, carros importados circulando pelas ruas – de vidros abertos –, e ainda por cima na beira da praia. O mais espantoso: não só as casas não têm divisas como o próprio condomínio dispensa os muros obrigatórios nas grandes cidades brasileiras. Durante o verão, a quantidade de meninas bonitas repousando sob cortinados brancos na praia dá a impressão de um desfile da Victoria's Secret – aliás, algumas são mesmo modelos da grife, de férias na terra natal ou atraídas por badalações de alto calibre. Situado a 30 quilômetros do centro de Florianópolis, Jurerê Internacional ("Jurerê" porque fica ao lado de um bairro desse nome; "Internacional" porque, segundo a propaganda, foi o primeiro a instalar "padrões europeus" na cidade) começou a ser construído em 1980, mas deslanchou nos últimos cinco anos, quando a busca por melhor qualidade de vida – mantra repetido por todos os moradores – passou a atrair os muito abonados refugiados do stress e da violência dos centros urbanos. Lá não há prédios com mais de quatro andares e os carros passam longe da praia, que é limpa nada menos que seis vezes por dia. Enquanto a energia solar é a opção ecológica e econômica de condomínios congêneres em outras cidades, em Jurerê estuda-se introduzir a energia eólica. Quando, numa súbita intrusão da realidade, o idealizador e dono do grupo que construiu Jurerê, Péricles Druck, foi preso numa operação da Polícia Federal contra empresários e políticos acusados de burlar leis ambientais, nas grandes e iluminadas casas de Jurerê, tão orgulhosas da preocupação ecológica, houve uma reação praticamente unânime: só disputas políticas locais explicariam semelhante absurdo.

 

O português Cruz e a ex-miss Brasil Mundo Fernanda: nem conta de celular de 6 000 reais é problema

Jurerê Internacional é um bairro seguro e, fora do verão, completamente familiar. A fatia maior de moradores migrou, como era de esperar, de Florianópolis. A segunda maior, 14%, vem de São Paulo, a 700 quilômetros de distância, e não se compõe de aposentados. Ao contrário, são executivos que, pelo menos numa primeira fase, continuam trabalhando em São Paulo e pegam avião todo fim de semana para ficar com a família. Ricardo Demasi, empresário do setor de feiras e eventos, enfrentou essa rotina por dois anos, entre 2002 e 2004, quando conseguiu transferir os negócios para o Sul. "Sei que estaria ganhando mais em São Paulo, mas aqui eu consigo usufruir a vida", diz Demasi, que almoça todo dia em casa e ainda tira um cochilo depois. Apesar de não ter muros nem portaria, Jurerê Internacional registra baixíssimos índices de criminalidade. A capital de Santa Catarina já é privilegiada nesse quesito quando comparada com suas sofridas irmãs maiores. Mas, além do policiamento caprichado, também influi um projeto próprio, o Vizinho Solidário, em que todo mundo conhece quem mora ao lado e faz questão de se apresentar – e deixar o número do telefone – quando chega morador novo. "Aqui, cada um é responsável pelo outro", explica Rubens Silveira, que cuida da segurança do condomínio.

Nesse ambiente, as três filhas de Demasi vão para a escola, que fica dentro do residencial, de bicicleta, sozinhas. Reclamações? As previsíveis para um lugar onde o preço da tranqüilidade tão sonhada pode ser uma dose algo excessiva do remédio. "Queria poder ir a shows. E também um celular, mas minha mãe diz que aqui eu não preciso", queixa-se Luiza, a filha de 12 anos de Demasi. A mulher, Lúcia, até hoje compra roupas, corta o cabelo e vai ao médico em São Paulo; dentro de Jurerê Internacional só existem um supermercado pequeno e lojinhas típicas das cidades de veraneio. A falta do que comprar, numa comunidade acostumada a consumir, é das poucas queixas constantes. O português Paulo Cruz, empresário do ramo hoteleiro, mudou-se para Jurerê Internacional no começo do ano com a mulher, Fernanda Rambo, uma ex-miss Brasil Mundo que trabalhava como modelo em Portugal. "Viemos passar férias e não fomos mais embora. Mudei só com uma mala pequenininha", conta Fernanda. A maior dificuldade até agora: decorar a casa de 500 metros quadrados que compraram do ex-jogador e agora técnico de vôlei Renan, avaliada em 5 milhões de reais. "Sinto falta de lojas especializadas", diz ela. Já o marido nem sequer reclama das despesas de viagens e da conta do celular, que pode chegar a 6 000 reais por mês. "Aqui é uma região européia, mas sem deixar de ter o carisma brasileiro", compara. Mesmo só de passagem – foram duas férias em Jurerê e planos de voltar todos os anos –, os italianos Alberto Cirio e Luca Della Torre concordam e até vão além. "Lembra Saint-Tropez e Ibiza, com a vantagem de as pessoas serem menos exibidas", diz Cirio. O fato de que os amigos italianos sejam quase permanentemente cercados por um perfumado enxame de garotas lindas e loiras talvez tenha alguma influência na opinião deles.

 

Luiza, à beira-mar: "No verão, as festas começam às 4 da tarde e duram a noite toda"

No verão, o ambiente família se transforma e Jurerê Internacional vira um centro de badalação, com helicópteros pousando, Ferraris rugindo e barcos lançando âncoras pertinho da areia, ao som do "ploc, ploc" das garrafas de champanhe sendo abertas. "A festa começa na areia, às 4 da tarde, e vai até de madrugada", diz a estudante catarinense Luiza Moreira. Para garantir a presença de mulheres bonitas, o restaurante japonês Taikô, pioneiro da praia, põe duas camas – day beds, para os íntimos – na areia. Nelas já se acomodaram, entre outras, as modelos Ana Beatriz Barros, Alessandra Ambrósio e Fernanda Lima. Em condições tão propícias, a valorização dos terrenos tem sido fenomenal. O metro quadrado, que custava em média 46 reais vinte anos atrás, hoje sai por 1 700 reais e está entre os mais caros do Brasil. Um terreno de 1 000 metros quadrados de frente para o mar começa na casa dos 3 milhões de reais. O sonho, sabemos todos, tem um preço.

 

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