Quem já não
sonhou em largar tudo e ir morar em Florianópolis?
Pois quem vai mesmo atrás do sonho, e consegue bancá-lo,
tem um endereço em mente: Jurerê Internacional,
o condomínio que chega mais próximo do ideal
desse tipo de empreendimento. São 600 hectares (mas
só 200 construídos) de bairro planejado, arborizado
e limpo, casas enormes com ar de Miami brasileira, carros
importados circulando pelas ruas de vidros abertos
, e ainda por cima na beira da praia. O mais espantoso:
não só as casas não têm divisas
como o próprio condomínio dispensa os muros
obrigatórios nas grandes cidades brasileiras. Durante
o verão, a quantidade de meninas bonitas repousando
sob cortinados brancos na praia dá a impressão
de um desfile da Victoria's Secret aliás, algumas
são mesmo modelos da grife, de férias na terra
natal ou atraídas por badalações de alto
calibre. Situado a 30 quilômetros do centro de Florianópolis,
Jurerê Internacional ("Jurerê" porque fica ao
lado de um bairro desse nome; "Internacional" porque, segundo
a propaganda, foi o primeiro a instalar "padrões europeus"
na cidade) começou a ser construído em 1980,
mas deslanchou nos últimos cinco anos, quando a busca
por melhor qualidade de vida mantra repetido por todos
os moradores passou a atrair os muito abonados refugiados
do stress e da violência dos centros urbanos. Lá
não há prédios com mais de quatro andares
e os carros passam longe da praia, que é limpa nada
menos que seis vezes por dia. Enquanto a energia solar é
a opção ecológica e econômica de
condomínios congêneres em outras cidades, em
Jurerê estuda-se introduzir a energia eólica.
Quando, numa súbita intrusão da realidade, o
idealizador e dono do grupo que construiu Jurerê, Péricles
Druck, foi preso numa operação da Polícia
Federal contra empresários e políticos acusados
de burlar leis ambientais, nas grandes e iluminadas casas
de Jurerê, tão orgulhosas da preocupação
ecológica, houve uma reação praticamente
unânime: só disputas políticas locais
explicariam semelhante absurdo.
O
português Cruz e a ex-miss Brasil Mundo Fernanda: nem conta de celular de
6 000 reais é problema
Jurerê Internacional é um bairro seguro e, fora do verão,
completamente familiar. A fatia maior de moradores migrou, como era de esperar,
de Florianópolis. A segunda maior, 14%, vem de São Paulo, a 700
quilômetros de distância, e não se compõe de aposentados.
Ao contrário, são executivos que, pelo menos numa primeira fase,
continuam trabalhando em São Paulo e pegam avião todo fim de semana
para ficar com a família. Ricardo Demasi, empresário do setor de
feiras e eventos, enfrentou essa rotina por dois anos, entre 2002 e 2004, quando
conseguiu transferir os negócios para o Sul. "Sei que estaria ganhando
mais em São Paulo, mas aqui eu consigo usufruir a vida", diz Demasi, que
almoça todo dia em casa e ainda tira um cochilo depois. Apesar de não
ter muros nem portaria, Jurerê Internacional registra baixíssimos
índices de criminalidade. A capital de Santa Catarina já é
privilegiada nesse quesito quando comparada com suas sofridas irmãs maiores.
Mas, além do policiamento caprichado, também influi um projeto próprio,
o Vizinho Solidário, em que todo mundo conhece quem mora ao lado e faz
questão de se apresentar e deixar o número do telefone
quando chega morador novo. "Aqui, cada um é responsável pelo outro",
explica Rubens Silveira, que cuida da segurança do condomínio.
Nesse ambiente, as três filhas de Demasi vão para a escola, que fica
dentro do residencial, de bicicleta, sozinhas. Reclamações? As previsíveis
para um lugar onde o preço da tranqüilidade tão sonhada pode
ser uma dose algo excessiva do remédio. "Queria poder ir a shows. E também
um celular, mas minha mãe diz que aqui eu não preciso", queixa-se
Luiza, a filha de 12 anos de Demasi. A mulher, Lúcia, até hoje compra
roupas, corta o cabelo e vai ao médico em São Paulo; dentro de Jurerê
Internacional só existem um supermercado pequeno e lojinhas típicas
das cidades de veraneio. A falta do que comprar, numa comunidade acostumada a
consumir, é das poucas queixas constantes. O português Paulo Cruz,
empresário do ramo hoteleiro, mudou-se para Jurerê Internacional
no começo do ano com a mulher, Fernanda Rambo, uma ex-miss Brasil Mundo
que trabalhava como modelo em Portugal. "Viemos passar férias e não
fomos mais embora. Mudei só com uma mala pequenininha", conta Fernanda.
A maior dificuldade até agora: decorar a casa de 500 metros quadrados que
compraram do ex-jogador e agora técnico de vôlei Renan, avaliada
em 5 milhões de reais. "Sinto falta de lojas especializadas", diz ela.
Já o marido nem sequer reclama das despesas de viagens e da conta do celular,
que pode chegar a 6 000 reais por mês. "Aqui é uma região
européia, mas sem deixar de ter o carisma brasileiro", compara. Mesmo só
de passagem foram duas férias em Jurerê e planos de voltar
todos os anos , os italianos Alberto Cirio e Luca Della Torre concordam
e até vão além. "Lembra Saint-Tropez e Ibiza, com a vantagem
de as pessoas serem menos exibidas", diz Cirio. O fato de que os amigos italianos
sejam quase permanentemente cercados por um perfumado enxame de garotas lindas
e loiras talvez tenha alguma influência na opinião deles.
Luiza,
à beira-mar: "No verão, as festas começam às 4 da tarde e duram a noite toda"
No verão, o ambiente família se transforma e Jurerê Internacional
vira um centro de badalação, com helicópteros pousando, Ferraris
rugindo e barcos lançando âncoras pertinho da areia, ao som do "ploc,
ploc" das garrafas de champanhe sendo abertas. "A festa começa na areia,
às 4 da tarde, e vai até de madrugada", diz a estudante catarinense
Luiza Moreira. Para garantir a presença de mulheres bonitas, o restaurante
japonês Taikô, pioneiro da praia, põe duas camas daybeds, para os íntimos na areia. Nelas já se acomodaram,
entre outras, as modelos Ana Beatriz Barros, Alessandra Ambrósio e Fernanda
Lima. Em condições tão propícias, a valorização
dos terrenos tem sido fenomenal. O metro quadrado, que custava em média
46 reais vinte anos atrás, hoje sai por 1 700 reais e está entre
os mais caros do Brasil. Um terreno de 1 000 metros quadrados de frente para o
mar começa na casa dos 3 milhões de reais. O sonho, sabemos todos,
tem um preço.