Ao cair da tarde
de quarta-feira, sob uma chuva fina, parentes, amigos e eleitores
do senador Renan Calheiros saíram às ruas de
Murici, no interior de Alagoas, para celebrar a vitória
do conterrâneo ilustre. Houve carreata e buzinaço,
explosão de rojões e queima de fogos. Em Brasília,
na mesma hora, num canto do plenário do Senado Federal,
um grupo de petistas, em perfeita sintonia com o entusiasmo
muriciense, confraternizava com a salvação de
Renan. "Somos a bancada da abstenção", festejava
a senadora Fátima Cleide, do PT de Rondônia,
numa animada conversa com os colegas Sibá Machado,
João Pedro, Serys Slhessarenko e a indefectível
líder da bancada, Ideli Salvatti, a senadora que adora
conjugar o verbo "vivenciar" mas que, durante os 110 dias
do primeiro processo contra Renan, se recusou tenazmente à
vivência da moralidade. Quem diria que um dia o Partido
dos Trabalhadores, essa legenda que empunhou com tanto garbo
a bandeira da lisura com a coisa pública, daria seu
último adeus à ética justamente para
salvar da guilhotina o pescoço do ex-collorido Renan
Calheiros?
A absolvição
temporária do senador dos lobistas não é
responsabilidade única dos petistas. "Nada de jogar
no colinho do PT", diz Salvatti, que foi incansável
na luta para proteger o senador das notas frias. "Isso é
má aritmética", completa Aloizio Mercadante,
que confessou candidamente que, entre absolver e condenar
o senador dos bois de ouro, optou pela abstenção.
Ah, bom... Isso fez toda a diferença. É preciso
coragem para se abster em um momento daqueles.
Mas os dois têm
razão: a má aritmética não cabe
no colinho do PT, que afinal tem apenas doze senadores, número
insuficiente para decidir qualquer coisa. O que ambos escondem
é que política não é aritmética.
A oposição, basicamente representada por PSDB
e ex-PFL, não conseguiu votar unida e acabou dando
votos pela absolvição. Calcula-se entre sete
e dez votos. A questão é que o PT, se não
tem expressão relevante no terreno da aritmética,
teve atuação decisiva no campo da política.
Na oposição, ninguém cabalou votos, ninguém
fez alianças, ameaças ou chantagens, ninguém
fez campanha para livrar a cabeça do senador das fraudes.
O PT fez. E como fez. E fez porque achou que deveria fazê-lo.
Dida Sampaio/AE
Tario Nikkel Khan/Polfoto/AP
SINTONIA
E SILÊNCIO
Ideli Salvatti, em Brasília, e Lula, na Dinamarca:
o PT opera em sintonia (e em silêncio) com o governo
A insistência
petista para eximir-se do desastre no Senado deve-se à
vergonha. Os senadores têm vergonha de assumir o que
fizeram perante uma opinião pública avassaladoramente
pró-cassação. Têm vergonha inclusive
perante uma parcela de petistas que ainda se mantém
fiel a antigos princípios éticos do partido.
"O PT precisa ter mais firmeza a favor da ética. Essa
bandeira histórica tem de ganhar contundência",
reclama o senador Flávio Arns, petista do Paraná,
que garante ter votado pela cassação. "O PT
precisa ficar sintonizado com o que o povo pensa, com o clamor
das ruas", completa Arns, um senador que, já se nota
pelo discurso, não pertence a núcleos influentes
do partido. Se até petistas criticam o PT, por que
o partido fez o que fez? "Porque o partido está se
misturando cada vez mais com o governo, uma mistura que aliás
está na origem do mensalão", diz o senador Delcídio
Amaral, do PT de Mato Grosso do Sul, outro que garante ter
votado pela cassação. "Precisamos acatar o resultado
das instituições", disse o presidente Lula,
no dia seguinte, em viagem à Dinamarca. Em vez de agradecer
o serviço prestado pelo PT ao seu governo, Lula escolheu
tomar distância diplomática em público.
Há outra
razão, além da simbiose entre partido e governo,
para explicar o vexame do PT: sua renúncia completa
e definitiva à ética na política. O maior
rombo no casco ético do PT aconteceu quando veio a
público o escândalo do mensalão. Nesse
caso, o PT esperneou, negaceou e tergiversou porque espantar
o mensalão era uma forma de salvar o próprio
partido. Agora, com a militância a favor do senador
condenado pelo Conselho de Ética, ficou claro que o
PT não atropela a ética apenas quando se trata
de salvar a si próprio. Nada é mais sintomático
do desmanche de um partido que fez questão de apresentar-se
como portador de uma "nova ética na política".
O melancólico é que o PT sempre propagandeou
ter a missão de mudar a cultura política nacional,
impregnada de compadrio, coronelismo, corrupção.
O máximo que pode ter acontecido é que, em vez
disso, a cultura política nacional é que mudou
o PT. Ou será que a defesa da "ética na política"
nunca esteve na alma do partido, servindo apenas como instrumento
eleitoral? A leitura dos principais documentos aprovados pelo
PT de 1980 até hoje mais de quarenta no total
sugere que o partido trabalha com o tema da ética
à luz das necessidades eleitorais. O assunto era quase
ignorado na década de 80, ganhou impulso tremendo nos
anos 90, sobretudo logo depois do governo Collor, e voltou
a perder ibope nos últimos anos.
Na quarta-feira
passada, às 17h28, o site oficial do PT colocou no
ar uma nota informando sobre a absolvição do
senador do patrimônio inexplicado. Dizia assim:
"Por 40 votos a
35, o plenário do Senado absolveu na tarde desta quarta-feira
(12) o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), da acusação
de quebra de decoro parlamentar. A sessão foi secreta
e houve seis abstenções. O processo pedia a
cassação do mandato de Renan por ele supostamente
ter usado dinheiro de uma empreiteira para pagar despesas
pessoais".
E nada mais. No
dia seguinte, quando as manchetes de onze dos principais jornais
do país de São Paulo, Rio de Janeiro,
Brasília, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná,
Bahia, Pernambuco e Ceará denunciavam a vergonha
da salvação do mandato do senador das mentiras,
o quadro de notícias do site do PT não trouxe
palavra sobre o assunto. Faz sentido. Murici está em
festa.