Com acordos às escondidas,
ameaças, chantagens e protegido pelo anonimato, um grupo de 46 senadores
desferiu na semana passada um golpe letal contra a credibilidade do Senado Federal
e dos políticos em geral. Ao absolverem o senador Renan Calheiros da acusação
de quebra do decoro parlamentar, os 46 senadores (os quarenta que votaram contra
a cassação e os seis que se abstiveram) autorizaram um novo padrão
de conduta para os nobres do Parlamento brasileiro o pode-tudo. De agora
em diante, estabeleceu-se o consenso entre a maioria de que não existe
nada de mais no fato de um parlamentar, como Renan Calheiros, usar um lobista
de empreiteira para pagar suas despesas pessoais. Não é da conta
de ninguém tentar saber de que forma um senador, como Renan Calheiros,
conseguiu fazer fortuna na política. Está liberado de possíveis
constrangimentos qualquer um que, como Renan Calheiros, queira fazer negócios
usando malas de dinheiro de origem desconhecida. Ficam autorizados a apresentação
de notas frias, o uso de bois-fantasma, a invenção de empréstimos
para, assim como Renan Calheiros, tentar justificar contas que não fecham.
Na sessão secreta que absolveu Renan Calheiros, além de massacrarem
a ética, os 46 senadores também viraram as costas para a sociedade,
envergonharam o Parlamento e reduziram o Senado ao mesmo patamar moral do presidente
Renan Calheiros.
"A era dos
grandes tribunos, referências éticas do Parlamento, que dividiam
o Senado com a massa ignara, acabou há tempos", diz Octaciano Nogueira,
professor de ciência política da Universidade de Brasília.
"Hoje, resta-nos somente a massa ignara." De fato, nos últimos meses, principalmente
depois da crise gerada pelas acusações contra o presidente Renan
Calheiros, personagens bizarros, como os senadores Wellington Salgado, Almeida
Lima e Sibá Machado, assumiram posições de destaque no palco
dos debates. São figuras sem propostas, sem idéias e até
sem votos. O peemedebista Wellington Salgado e o petista Sibá Machado são
suplentes que assumiram o mandato na ausência dos titulares. Como eles,
há outros onze reservas que não devem explicações
a ninguém e acabam muitas vezes se prestando ao papel de vassalos de interesses
diversos. Esses personagens descompromissados ajudaram Renan Calheiros a escapar
da cassação, alguns apenas em troca de pequenos favores. Mas eles
não estavam sós. Na surdina, o governo e o PT se associaram a Renan
para costurar um acordo que garantiu a salvação do mandato do senador
desta vez à custa de grandes e dispendiosos favores, com ingredientes
de chantagem e ameaça e com a participação de personagens
conhecidos pela atuação heterodoxa no submundo da política.
Evelson
de Freitas/AE
JOSÉ
SARNEY Sempre agindo na sombra, foi um
dos fiadores do acordo que culminou na absolvição de Renan
A
VERSÃO O senador admite que trabalhou
pela absolvição de Renan Calheiros, mas não participou de nenhum tipo de acordo
para que ele deixasse a presidência. O FATO
Sarney foi o mentor da idéia de barganhar a presidência do Senado em troca do
apoio dos petistas. A proposta foi levada ao presidente Lula por sua filha, a
senadora Roseana Sarney.
O plano de salvação de Renan Calheiros começou há
duas semanas no gabinete do presidente Lula, no Palácio do Planalto, onde
esteve, em audiência, a senadora Roseana Sarney, do mesmo PMDB de Renan
Calheiros. Líder do governo no Congresso, Roseana foi ao presidente tratar
das articulações para a aprovação da CPMF. Depois
de discorrer sobre as dificuldades que o governo teria para prorrogar o imposto
do cheque, a conversa derivou para a situação de Renan Calheiros.
A senadora disse que estava muito preocupada com os últimos acontecimentos
e, principalmente, com as adesões de parlamentares petistas à tese
da cassação. Como se tivesse portando um recado, Roseana advertiu:
"A pior coisa que pode acontecer ao governo é ter o Renan como inimigo".
Depois vaticinou: "Se Renan deixar a presidência, a prorrogação
da CPMF ficaria muito difícil, pois ele colocaria o PMDB para rejeitar
a emenda". O presidente entendeu a mensagem e disse apenas que seria mais fácil
angariar votos contra a cassação se Renan renunciasse ao cargo.
Roseana relatou a conversa ao pai, o senador José Sarney, que levou a proposta
a Renan Calheiros. O senador disse que não renunciaria porque não
confiava no PT. Suas contas ainda lhe garantiam a vitória no plenário
por uma margem apertada.
Dois
dias antes da votação, na segunda-feira, o senador José Sarney
telefonou para Renan Calheiros e disse que o risco de derrota aumentara consideravelmente.
A mesma preocupação era compartilhada pelo ministro das Relações
Institucionais, Walfrido Mares Guia, destacado pelo presidente para acompanhar
o caso. A contabilidade oficial de Sarney e Mares Guia apontava para uma divisão
absoluta: 40 votos a favor e 40 votos contra a cassação. Sarney
e Mares Guia não tinham certeza sobre o voto do senador Marcelo Crivella,
considerado um aliado, e informaram a Renan que era muito arriscado chegar à
sessão com a segurança de um palpite. No mesmo dia, Sarney, Roseana
e Mares Guia viajaram para São Luís, onde participaram de um jantar
promovido por uma empresa mineradora. Lá, encontraram o empresário
Gilberto Miranda um ex-suplente profissional, rico e conhecido em Brasília
pelo excepcional talento em convencer certos tipos de pessoas com certos tipos
de fraqueza a mudar radicalmente de idéia. A partir daí, as articulações
para salvar Renan passaram a acontecer em ritmo frenético. Gilberto Miranda
disparou telefonemas para dezenas de senadores em Brasília. Falou com vários
deles, na maioria integrantes da base aliada. Um dos poucos a admitir a conversa
é o peemedebista Gerson Camata. Miranda perguntou a Camata qual seria a
condição para ele reconsiderar o voto a favor da cassação.
Camata rechaçou o cerco e disse que nada o faria mudar de opinião.
Marcio
Fernandes/AE
MERCADANTE
O senador eleito com 10 milhões de votos foi reduzido a tarefeiro do partido na
batalha contra a moralidade. Uma pena
A
VERSÃO O senador petista garantiu que
não pediu votos para Renan Calheiros nem participou de nenhum acordo para absolver
o colega peemedebista. O FATO
Além de se abster da votação, o que ajudou a salvar Renan, o senador fez campanha
intensa pela absolvição, inclusive garantindo a aliados que Renan deixaria a presidência.
De volta
a Brasília, José Sarney e Walfrido decidiram pela tacada final.
Ainda do avião, um Legacy da FAB, Walfrido conversou com o senador Aloizio
Mercadante e Sarney passou o recado às lideranças no Congresso.
Alertaram sobre o placar apertado e combinaram de procurar Renan com a seguinte
proposta: caso ele sinalizasse que se afastaria temporariamente do cargo após
a votação, o governo e o PT trabalhariam no plenário para
absolvê-lo. Já era madrugada de quarta, dia da votação,
quando o grupo desembarcou na base aérea. Sarney levou a proposta de afastamento
ao presidente do Congresso, que, de início, hesitou, mas acabou aceitando
depois de receber a garantia de que não haveria traição entre
os petistas. Ficou combinado que os senadores petistas iriam se abster, uma forma
de identificar o voto. Nas contas dos aliados, era preciso convencer ao menos
dez senadores a fechar com a absolvição. No plenário, coube
ao senador Mercadante difundir a versão de que a cassação
de Calheiros se resumia a uma disputa política que só interessava
à oposição. Os petistas, porém, não precisam
mais de justificativa alguma. "Com discursos assim vocês da oposição
nunca vão ganhar da gente", ironizava o senador petista João Pedro,
criticando abertamente os que defendiam a cassação. Uma semana antes,
o próprio João Pedro havia votado contra Renan Calheiros no Conselho
de Ética.
Com os petistas
no bolso, bastaram algumas operações laterais para sacramentar a
vitória de Calheiros. Sabe-se que Renan e seus aliados conseguiram buscar
votos na oposição, à custa de chantagem, cobrança
ou promessas de favores. Senadores que se diziam indecisos em público fizeram
pacto de sangue com Renan no privado. O tucano Papaléo Paes, por exemplo,
chegou a dar entrevistas a favor da cassação. No plenário,
ajudou Roseana Sarney a contabilizar votos a favor de Renan. Houve traições
mais sórdidas. Um senador da oposição, que zelou como se
fosse um xerife pela aprovação do processo de cassação,
procurou o presidente do Congresso e lhe confidenciou que sua posição
não passava de um teatro para seus eleitores. Ele estava agradecido pelo
belo emprego no governo que Renan arrumou para um de seus filhos. Enquanto isso,
em outro flanco, Gilberto Miranda, o empresário rico e recém-casado,
pegou um jato para Brasília e continuou as conversas com os senadores.
No plenário, o peemedebista Wellington Salgado avisava: "Tá rolando
grana, tá rolando muito argumento". Um senador que ouviu o comentário
ainda perguntou do que se tratava. Salgado repetiu: "Tá rolando argumento",
explicou, esfregando o polegar no dedo indicador, sinal clássico que significa
dinheiro. Absolvido, Renan, conforme o combinado, pegou a família e foi
descansar em Maceió. Ele ainda terá de responder a outros três
processos. O governo, satisfeito, comemorou discretamente. Os petistas, covardes,
foram vistos se jactando no fundo do plenário logo depois da sessão.
José Sarney embarcou para Natal, onde foi lançar um livro. Gilberto
Miranda, com a missão cumprida, retomou sua lua-de-mel. E o Senado... E
a opinião pública... E o Conselho de Ética. Que se danem.
O que interessa são os "argumentos...".
Montagem
sobre fotos Lula Marques-Folha Imagem/Ana Araujo/Anderson Schneider-Wpn e Ailton
de Freitas-Ag. Globo