O presidente da Costa
Rica diz que só a educação
tira a América Latina da pobreza e que é possível,
sim, conciliar preservação com desenvolvimento
Duda Teixeira
Eleito para um segundo
mandato como presidente da Costa Rica há pouco mais
de um ano, Oscar Arias está envolvido em nova campanha
política. No início de outubro, os costa-riquenhos
vão às urnas para decidir se querem ou não
assinar um tratado de livre-comércio (TLC) com os Estados
Unidos. Arias defende o acordo como a oportunidade de ouro
para o desenvolvimento do país. Sem Exército
nem golpes de estado desde os anos 40, a Costa Rica é
o bom exemplo de um país latino-americano que foi capaz
de encontrar espaço na economia global e de oferecer
a seus cidadãos saúde e educação
de qualidade similar à de muitos países do Primeiro
Mundo. Herdeiro de uma família de cafeicultores e Ph.D.
em ciências políticas pela Universidade Essex,
na Inglaterra, Arias recebeu o Prêmio Nobel da Paz em
1987 pela mediação do acordo que pôs fim
a conflitos armados em quatro países centro-americanos.
Aos 66 anos, ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA em
sua casa, na capital, San José, onde se recuperava
de uma lesão no tendão-de-aquiles.
Veja
Historicamente, o crescimento econômico sempre
foi acompanhado de devastação ambiental. Como
um país em desenvolvimento como a Costa Rica consegue
proteger tão bem sua floresta tropical? Arias Não temos opção.
O desenvolvimento futuro será verde ou não se
realizará. Precisamos cuidar de nosso principal tesouro,
que é a natureza, para continuar habitando este planeta.
Temos 1,3 milhão de hectares de áreas silvestres
protegidas em reservas e parques naturais, que estão
entre as principais atrações turísticas
da Costa Rica. Também estamos cuidando para que os
investimentos em hotéis respeitem o ambiente, reciclando
a água que utilizam e sendo econômicos no uso
de energia. Alguns empreendimentos são pequenos, com
poucos quartos, e estão bem integrados com a natureza.
Outros são imponentes, de grandes cadeias internacionais,
e devemos fiscalizá-los com rigor. Em 2021, temos a
ambiciosa meta de nos tornar o primeiro país neutro
em carbono do mundo. Isso significa que a quantidade de dióxido
de carbono lançada na atmosfera por carros, fazendas
e indústrias será a mesma captada pelas árvores
e algas.
Veja
O que o Brasil e outros países latino-americanos
podem fazer para melhorar a qualidade da educação? Arias Na Costa Rica, o ensino primário
foi universalizado e, agora, queremos fazer o mesmo com o
secundário. Para mantermos os alunos na escola, damos
uma ajuda de 30 a 150 dólares mensais às famílias
que têm crianças estudando. É um programa
parecido com o que há no Brasil. Já temos 75
000 jovens beneficiados e queremos que sejam 140 000 no futuro.
O problema maior é o inglês. O número
de pessoas com bom domínio desse idioma não
satisfaz a demanda de muitas empresas nacionais e estrangeiras.
A solução é complicada, porque conseguir
mais professores de inglês não é fácil.
Muitos que davam aula em escola pública deixaram o
emprego para trabalhar nos call centers, em que atendem em
inglês clientes americanos. Nessas posições,
ganham muitíssimo mais do que ensinando nas escolas.
Veja
O senhor ganhou o Nobel por mediar uma solução
para conflitos armados centro-americanos. O senhor teme que
a América Latina possa estar entrando em nova corrida
armamentista? Arias Não creio que a mera compra de
armas pela Venezuela ou por qualquer outro país latino-americano
ameace a paz na região. A atual corrida armamentista
foi iniciada com a aquisição de caças
americanos F-16 pelo Chile. Vários países passaram
a usar isso como desculpa para renovar seus arsenais. O que
dói é saber, como todo costa-riquenho sabe,
que a melhor maneira de resolver a pobreza é transferir
os gastos com armas e soldados para as áreas de educação
e saúde. A Costa Rica aboliu o Exército em 1948.
Naquele período, tínhamos uma qualidade de vida
muito parecida com a dos demais países da região.
Nos quase sessenta anos que se seguiram, não ter de
gastar com armas foi o que nos permitiu o desenvolvimento
social. Hoje, 95% de nossa população sabe ler
e escrever. Estamos entre os cinqüenta países
do mundo mais bem posicionados no ranking do índice
de desenvolvimento humano da Organização das
Nações Unidas. Nossa expectativa de vida é
de 78 anos, a mesma da Inglaterra e da Holanda.
Veja O senhor foi presidente pela primeira vez nos anos 80.
O que mudou na sua forma de ver o mundo entre os dois mandatos? Arias Fui e continuo sendo um social-democrata.
Defendo que os países devem se desenvolver economicamente
e que possam garantir o bem-estar da população
por meio da cobrança e do bom uso dos impostos. Aqui,
o valor das aposentadorias tem aumentado bastante. Cobramos
impostos significativos e, com eles, criamos e aumentamos
os programas sociais. Já tiramos muita gente das favelas.
Também almejo uma sociedade moderna, que não
dependa de dinossauros, como os monopólios estatais
de telecomunicações e de seguros que temos na
Costa Rica. Somos um dos pouquíssimos países
no mundo que ainda têm um monopólio das comunicações.
Em todo o continente, somos o único. Nem Cuba tem.
As discussões políticas, por sua vez, mudaram
muito. No meu primeiro mandato, entre 1986 e 1990, a esquerda
me apoiava porque eu fui contra o presidente americano Ronald
Reagan e sua política intervencionista na região.
Hoje, sou atacado pela mesma esquerda porque defendo um acordo
comercial com os Estados Unidos.
Veja Os costa-riquenhos decidirão em referendo se querem
ou não um tratado de livre-comércio com os Estados
Unidos. Quais são as expectativas? Arias Estou muito otimista e confiante. Os que
se opõem ao tratado estão dizendo um monte de
mentiras. Dizem que o TLC vai acabar com a educação
pública, que vamos todos ter de recorrer à medicina
privada, que o pequeno agricultor vai desaparecer e os estrangeiros
levarão embora a água que bebemos. São
afirmações muito longe da realidade, irracionais.
Creio na inteligência e na sensatez do povo da Costa
Rica. O melhor caminho para um país pequeno como o
nosso é inserir-se cada vez mais na economia internacional.
Os Estados Unidos são vitais para nós. São
o país que mais realiza investimentos externos na Costa
Rica e também o que mais envia turistas. Do 1,7 milhão
de estrangeiros que visitam a Costa Rica por ano, quase a
metade são americanos. Impor a nós mesmos um
embargo ao intercâmbio com o principal sócio
comercial seria uma atitude suicida.
Veja Quais são as vantagens de assinar um tratado de
livre-comércio com os Estados Unidos? Arias Um tratado é fundamental para que
a nossa economia continue crescendo, diversificando suas exportações
e gerando mais e melhores empregos. A Costa Rica, é
verdade, já se desenvolveu bastante nos últimos
anos. Algumas décadas atrás, éramos conhecidos
pela exportação de café e banana. Hoje,
nossa economia é muito mais complexa e a importância
do café é menor que a do abacaxi. Vendemos microchips,
plantas ornamentais e produtos médicos sofisticados
para 180 países. Prestamos serviços de call
center em inglês para americanos e europeus e escrevemos
códigos de software para companhias do exterior. Estamos
condenados a buscar novos mercados, a importar e a vender.
O tratado, ao facilitar nossa entrada em um mercado com 300
milhões de consumidores, diversificará muito
mais a pauta de exportações, e as vendas para
o exterior poderiam aumentar num ritmo anual de 25%. Isso
nos permitiria ter ainda mais ingressos fiscais, e mais empresas
nos ajudariam a financiar melhor nossas escolas e hospitais
públicos.
Veja Caso o tratado não seja aprovado no referendo, o
que poderá acontecer? Arias Não cresceremos tanto quanto queremos,
pois investidores estrangeiros vão procurar outros
países. Com a demora em aprovar o tratado, isso já
acontece. A Intel, que em 1996 decidiu construir uma fábrica
de chips de computador aqui e responde pelo nosso segundo
maior produto de exportação, não nos
vê mais da mesma maneira. A próxima fábrica
de semicondutores, que terá investimento de 1 bilhão
de dólares e empregará 4 000 pessoas, será
no Vietnã, um país que já foi comunista.
A empresa chegou a estudar a viabilidade de construir na Costa
Rica e na Malásia, mas acabamos ficando de fora. Não
ter um acordo com os Estados Unidos vai prejudicar a imagem
do país e também fechará as portas para
futuras negociações de livre-comércio
com a União Européia ou com os países
asiáticos. Nenhum deles entenderia por que a Costa
Rica se recusaria a assinar um tratado como esse.
Veja
Por que o sentimento antiamericano continua forte na
América Central? Arias Por aqui, na Costa Rica, não tanto.
Esse pensamento é mais forte na Nicarágua, que
faz fronteira conosco. Isso porque os Estados Unidos ficaram
por muitos anos apoiando grupos guerrilheiros contra o governo
sandinista naquele país.
Veja
A Nicarágua, que assinou um acordo de livre-comércio
com os Estados Unidos em 2005, é governada desde o
início deste ano pelo sandinista Daniel Ortega, um
amigo do venezuelano Hugo Chávez. Existe o risco de
Ortega rever esse acordo? Arias Conversei muito com Ortega na década
de 80, quando negociávamos a paz na América
Central. Não tenho falado com ele ultimamente, o que
torna mais difícil saber o que se passa em sua mente.
Em seus discursos públicos, não o vejo muito
inclinado ao livre mercado. Ortega, no entanto, é uma
pessoa racional e sabe muito bem que lhe convém ter
um tratado com os Estados Unidos. O TLC é o principal
incentivo que a Nicarágua tem para atrair investimentos
externos e, assim, melhorar a qualidade de vida da população.
Exportar livre de impostos para milhões de americanos
é uma condição muito apreciável.
Em todo o mundo, não conheço um único
país que tenha assinado um tratado com os Estados Unidos
e depois renunciado a ele. A Nicarágua não será
o primeiro.
Veja
Muita gente acredita que a substituição
de Fidel Castro por seu irmão Raúl pode resultar
em algum tipo de abertura econômica em Cuba. O senhor
concorda? Arias Os democratas da América Latina,
na luta contra as ditaduras quase sempre de direita, batalharam
pela autodeterminação de seus povos. Em suma,
queriam dizer aos Estados Unidos que eles não deveriam
se meter, que eles próprios traçariam seu destino.
Foi o que ocorreu com Cuba há quase cinqüenta
anos. Agora, chegou a hora de perguntar aos cubanos se querem
continuar com os irmãos Castro ou preferem transformar
a ilha em uma democracia. Deveriam fazer um plebiscito, como
os que ocorrem em outros lugares do mundo.
Veja
Há algum país que o senhor considere
um modelo para a América Latina? Arias Os países escandinavos, certamente.
Noruega, Suécia e Dinamarca têm muito pouca desigualdade
social e programas sociais muito fortes. Seus cidadãos
e empresas pagam impostos elevados para satisfazer as necessidades
dos mais carentes. A alta carga tributária, porém,
não os impede de ser competitivos no exterior. A Coréia
do Sul também é um exemplo a ser seguido porque
teve um avanço tecnológico notável. Possui
altos índices de acesso à internet e educação
de muito boa qualidade, igual à de Cingapura. Em quarenta
anos, esses dois países passaram do Terceiro para o
Primeiro Mundo. A América Latina já tem mais
de 500 anos, e não saímos do lugar. A educação
para poucos e o ensino de má qualidade fazem com que
nossa região continue sendo pobre.
Veja
Como o senhor vê o Brasil e o presidente Lula? Arias Lula tem sido muito realista e consciente
em seu governo. Tomou a atitude certa ao manter as coisas
boas do governo de Fernando Henrique Cardoso, que foi um grande
presidente para o Brasil. Lula sabe que é essencial
cultivar a confiança do setor privado para seguir produzindo
e exportando. A Embraer é um exemplo disso. Antes de
começar meu segundo mandato como presidente, fiz várias
viagens pelos Estados Unidos dando conferências e constatei
que quase todas as pequenas companhias que operam linhas aéreas
no mercado americano adotaram aviões made in Brazil.
Foi uma experiência gratificante. Quando entrava em
um avião da Embraer, eu ficava orgulhoso de ser latino-americano.
Veja A possível eleição de um presidente
do Partido Democrata nas próximas eleições
nos Estados Unidos mudaria alguma coisa para a Costa Rica? Arias Praticamente nada. Desde que silenciamos
as armas e que a ameaça comunista na região
acabou, os Estados Unidos se esqueceram da América
Central. Não se preocupam mais conosco.
Veja Um tratado de livre-comércio não seria um
indício do contrário? Arias O tratado é muito mais benéfico
para nós do que para eles. Quanto à cooperação
bilateral e à ajuda externa, isso acabou para nós.
Há duas décadas, El Salvador era o país
que mais recebia auxílio americano depois de Israel.
Isso se desvaneceu com o tempo. Eu queria que o governo americano
fosse mais generoso. Entre os países ricos, é
o que menos dá ajuda internacional em relação
ao PIB, cerca de 0,15%. É um dos porcentuais mais baixos
do mundo rico. Na Noruega, é quase 1%. Nosso país
não gasta com Exército e investe pesadamente
em educação. Deveríamos ser premiados
por isso, mas infelizmente não é o que está
ocorrendo.