"Ora,
com todo esse comportamento de
confundir-se com o Senado, de misturar
sua pequenez à grandeza da Casa, Renan
Calheiros e seus 40 querem, além de tudo,
roubar uma instituição da nação"
Desde que os números
da vergonha apareceram no placar já se bateu todo o
tipo de bumbo contra o Senado. Já se disse que ficou
menor e desmoralizado. Que está maculado, diminuído.
Que sai do episódio lanhado e podre. Até já
voltaram a aparecer propostas para extingui-lo, deixando o
Parlamento reduzido à Câmara dos Deputados. O
Senado, ao se deixar estuprar por Renan Calheiros e seus 40,
passou a ser a melhor expressão do lixo institucional
de Brasília.
Mas que nada. Que
injustiça. E que equívoco.
O Senado é
nosso. O Senado, essa instituição de 180 anos,
está onde sempre esteve, funciona no mesmo endereço,
com a mesma missão, com os mesmos poderes e prerrogativas.
E é nosso, pertence aos cidadãos brasileiros.
Neste momento, quem demoniza o Senado faz, mesmo sem querer,
mesmo com a mais nobre das intenções, o jogo
obscuro de Renan Calheiros e seus 40. Explico-me.
Desde o início
de tudo, desde quando sua vida clandestina começou
a ser revelada ao país, o senador Renan Calheiros agarrou-se
ao Senado e o uso da expressão "vida clandestina"
aqui se refere aos negócios escusos da sala de jantar,
e não aos ardores solares da alcova. Renan Calheiros
agarrou-se ao Senado como se fosse propriedade sua, como se
fosse uma de suas fazendas no interior de Alagoas. Com a ajuda
patética de seus 40, agarrou-se à cadeira de
presidente do Senado, recusando-se a abandoná-la, como
se fosse um banco de praça de Murici. Defendeu-se sentado
ao centro da mesa do Senado como se fosse balcão de
sua cozinha. Homiziado no Senado, Renan Calheiros fez tudo
isso para misturar sua pequenez à grandeza da Casa.
Quem não lembra da passagem pedestre em que disse que
qualquer ataque contra ele era um ataque contra o Senado?
Pois bem. É
por isso, para manter-se homiziado no Senado, que Renan Calheiros
já disse inclusive que ninguém é mais
apropriado para presidir a instituição do que
ele mesmo. "Se eu não tiver condição
de presidir o Senado, quem vai ter?", indagou em entrevista
à Rádio Gaúcha. Ora, com todo esse comportamento
de confundir-se com o Senado, Renan Calheiros e seus 40 querem,
além de tudo, roubar uma instituição
da nação. Uma instituição que
pertence a nós, cidadãos brasileiros. E não
podemos, bestificados, entregar o Senado a Renan Calheiros
e seus 40.
Renan Calheiros
vai passar. Certamente vai passar mais tarde do que cedo,
mas vai passar. Seu cardápio de opções
políticas, neste momento, oferece só coisas
como afastamento, licença, férias prolongadas,
renúncia. É lamentável que seja assim,
na medida em que deveria incluir apenas cassação,
e ponto. Mas Renan está liquidado. É o sorriso
do cadáver. Deixemos que se vá. Porque uma hora
Renan vai embora. Mas fiquemos com o Senado. O Senado é
nosso. Quem está pequeno e desmoralizado, maculado
e diminuído, lanhado e podre são os senadores.
Renan Calheiros e seus 40. O Senado, não. Viva o Senado!