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Luiz
Felipe de Alencastro
A
trilha do terror
"O
principal projeto de defesa militar de
Bush, o Guerra nas Estrelas, mostra-se
inoperante antes mesmo de ser implementado.
O recente atentado foi feito a partir dos
aeroportos americanos, e não da estratosfera"
O
ataque terrorista contra os Estados Unidos configura o ato mais mortífero
perpetrado no território continental americano desde o fim da Guerra
da Secessão (1861-1865). Nas próximas semanas, o contexto
e as conseqüências do ataque serão exaustivamente comentados
e analisados.
Três ordens de considerações devem entrar em linha
de conta. A primeira ressai de uma das perguntas dos jornalistas ao secretário
de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, horas depois da queda das torres do
World Trade Center: como uma operação desse escopo, preparada
durante meses ou anos, envolvendo muitas pessoas em várias regiões,
pôde escapar à vigilância dos serviços de inteligência
americanos? Embaraçado, Rumsfeld evitou responder. É óbvio,
entretanto, que a CIA, o FBI e os órgãos anexos sofrerão
profunda reforma depois desse trágico fiasco. No prolongamento
dos inquéritos do Congresso americano aparecerá o mau passo
dado pela CIA anos atrás: os principais suspeitos do atentado foram,
no início de seu combate, equipados pelos serviços secretos
americanos. De fato, o primeiro campo de treino de Bin Laden e dos extremistas
islâmicos que combatiam a ocupação soviética
no Afeganistão foi aberto em 1984 no Paquistão, graças
ao apoio americano.
O falhanço da CIA aponta para uma segunda ordem de considerações:
qual o significado de investir bilhões de dólares no programa
estratégico Guerra nas Estrelas? Como se sabe, o Guerra nas Estrelas
ardorosamente defendido por Bush e Rumsfeld consiste em
dois sistemas antimísseis, o National Missile Defense (NMD) e o
Theater Missile Defense (TMD). Formado por uma rede de satélites,
radares e foguetes antimísseis sobre o território americano,
o NMD é completado pelo TMD com mísseis e radares
a bordo de navios ou nas bases americanas no estrangeiro e tem
como objetivo proteger os aliados dos Estados Unidos. Complexa e dispendiosa,
essa carapaça estratosférica deveria, supostamente, barrar
ataques nucleares de um grupo terrorista ou de um "país vagabundo"
(Rogue State). Ora, o ataque de terça-feira passada revelou o potencial
mortífero dos reides lançados a partir dos aeroportos americanos,
e não da estratosfera. Daí o duplo desafio que se coloca
a Bush. O presidente deverá proporcionar novas bases à segurança
dos americanos, no momento em que o NMD-TMD, seu principal projeto de
defesa militar, se mostra inoperante antes mesmo de ser implementado.
Concebido sem nenhum concerto com os grandes países europeus ou
asiáticos, o NMD-TMD funda-se na idéia de que os EUA, sozinhos,
isolados, podem garantir a própria segurança e a defesa
de seus aliados mais próximos. Na realidade, a política
externa da Presidência Bush tem sido pautada por uma série
de atitudes isolacionistas. As ações no âmbito das
organizações internacionais e as arbitragens diplomáticas
são evitadas para deixar apodrecer os conflitos externos (como
em Israel e na Macedônia) e as crises econômicas estrangeiras
purgar-se na bancarrota (como na Argentina). Na imprensa americana, as
críticas são ainda mais radicais e consideram a diplomacia
do país uma completa nulidade. "Após quase oito meses em
atividade, nem o presidente George W. Bush nem o secretário de
Estado, Colin Powell, conseguiram formular uma única declaração
clara sobre a política externa. É difícil achar outra
Presidência (americana) que tenha feito tão pouco para explicar
quais são seus objetivos no campo da política externa",
escreve Morton Abramowitz no jornal Washington Post ("So Quiet
At the Top", 11 de setembro de 2001).
O ataque terrorista obrigará o governo Bush a modificar sua política
em todos esses pontos. Doravante ficou claro que os Estados Unidos, malgrado
seu imenso poderio militar e econômico, não podem mais abrigar-se
da soturna realidade do mundo.
Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (lfa@workmail.com)
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