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Edição 1 718 - 19 de setembro de 2001
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Luiz Felipe de Alencastro

A trilha do terror

"O principal projeto de defesa militar de
Bush, o Guerra nas Estrelas, mostra-se
inoperante antes mesmo de ser implementado.
O recente atentado foi feito a partir dos
aeroportos americanos, e não da estratosfera"


O ataque terrorista contra os Estados Unidos configura o ato mais mortífero perpetrado no território continental americano desde o fim da Guerra da Secessão (1861-1865). Nas próximas semanas, o contexto e as conseqüências do ataque serão exaustivamente comentados e analisados.

Três ordens de considerações devem entrar em linha de conta. A primeira ressai de uma das perguntas dos jornalistas ao secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, horas depois da queda das torres do World Trade Center: como uma operação desse escopo, preparada durante meses ou anos, envolvendo muitas pessoas em várias regiões, pôde escapar à vigilância dos serviços de inteligência americanos? Embaraçado, Rumsfeld evitou responder. É óbvio, entretanto, que a CIA, o FBI e os órgãos anexos sofrerão profunda reforma depois desse trágico fiasco. No prolongamento dos inquéritos do Congresso americano aparecerá o mau passo dado pela CIA anos atrás: os principais suspeitos do atentado foram, no início de seu combate, equipados pelos serviços secretos americanos. De fato, o primeiro campo de treino de Bin Laden e dos extremistas islâmicos que combatiam a ocupação soviética no Afeganistão foi aberto em 1984 no Paquistão, graças ao apoio americano.

O falhanço da CIA aponta para uma segunda ordem de considerações: qual o significado de investir bilhões de dólares no programa estratégico Guerra nas Estrelas? Como se sabe, o Guerra nas Estrelas – ardorosamente defendido por Bush e Rumsfeld – consiste em dois sistemas antimísseis, o National Missile Defense (NMD) e o Theater Missile Defense (TMD). Formado por uma rede de satélites, radares e foguetes antimísseis sobre o território americano, o NMD é completado pelo TMD – com mísseis e radares a bordo de navios ou nas bases americanas no estrangeiro – e tem como objetivo proteger os aliados dos Estados Unidos. Complexa e dispendiosa, essa carapaça estratosférica deveria, supostamente, barrar ataques nucleares de um grupo terrorista ou de um "país vagabundo" (Rogue State). Ora, o ataque de terça-feira passada revelou o potencial mortífero dos reides lançados a partir dos aeroportos americanos, e não da estratosfera. Daí o duplo desafio que se coloca a Bush. O presidente deverá proporcionar novas bases à segurança dos americanos, no momento em que o NMD-TMD, seu principal projeto de defesa militar, se mostra inoperante antes mesmo de ser implementado.

Concebido sem nenhum concerto com os grandes países europeus ou asiáticos, o NMD-TMD funda-se na idéia de que os EUA, sozinhos, isolados, podem garantir a própria segurança e a defesa de seus aliados mais próximos. Na realidade, a política externa da Presidência Bush tem sido pautada por uma série de atitudes isolacionistas. As ações no âmbito das organizações internacionais e as arbitragens diplomáticas são evitadas para deixar apodrecer os conflitos externos (como em Israel e na Macedônia) e as crises econômicas estrangeiras purgar-se na bancarrota (como na Argentina). Na imprensa americana, as críticas são ainda mais radicais e consideram a diplomacia do país uma completa nulidade. "Após quase oito meses em atividade, nem o presidente George W. Bush nem o secretário de Estado, Colin Powell, conseguiram formular uma única declaração clara sobre a política externa. É difícil achar outra Presidência (americana) que tenha feito tão pouco para explicar quais são seus objetivos no campo da política externa", escreve Morton Abramowitz no jornal Washington Post ("So Quiet At the Top", 11 de setembro de 2001).

O ataque terrorista obrigará o governo Bush a modificar sua política em todos esses pontos. Doravante ficou claro que os Estados Unidos, malgrado seu imenso poderio militar e econômico, não podem mais abrigar-se da soturna realidade do mundo.


Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (
lfa@workmail.com)

 
 
   
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