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Edição 1 718 - 19 de setembro de 2001
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Roberto Pompeu de Toledo

Alguém faltou ao grande encontro

É a Terceira Guerra Mundial,
quem duvida? Todas as evidências
apontam para isso.
No entanto...

A Terceira Guerra Mundial começou exatamente como era de esperar: com um ataque surpreendente, brutal, louco, contra uma grande cidade de um grande país. Escolha melhor de cenário, impossível: Nova York. E, dentro de Nova York, as esguias, belas, altíssimas torres do World Trade Center, sentinelas de um país tão rico quanto orgulhoso de si, tão confortável com suas escolhas e seus valores quanto inexpugnável. "My city, my beloved, my white" (Minha cidade, minha amada, minha branca), escreveu o poeta Ezra Pound, num poema dedicado a Nova York. Caso Pound chegasse à cidade na semana passada pelo mar, aproximando-se aos poucos de Manhattan, ainda teria pela frente a mesma amada que cantou no poema, ele que não viveu o bastante para conhecer os edifícios do World Trade Center espetados na paisagem. Não seria, porém, tomado da idéia de brancura. Nova York se apresentaria sob o vermelho do fogo, o cinza da fumaça ou o negro da fuligem.

Começo mais eloqüente para a Terceira Guerra Mundial, impossível. Depois do grande estrondo, da impensável trombada do maior dos aviões com o maior dos prédios, a desolação e o medo. Pessoas cobertas de cinza vagando silenciosas pelas ruas. Maridos procurando as mulheres, pais procurando os filhos. Aviões haviam deixado de voar, o metrô de correr pelos trilhos. Não restava senão vagar pelas ruas, como sonâmbulos.

A mitologia da Terceira Guerra Mundial, tida como tão inevitável como a morte, e tão temida como o fim do mundo, nos acompanha desde o fim da Segunda. Curioso que, quando da Primeira Guerra Mundial, ninguém ficou esperando a Segunda. A seu tempo, a Primeira Guerra se chamou "A Grande Guerra". Era a maior de todas, a guerra total, envolvendo todas as nações, e por isso mesmo, na visão otimista que se disseminou por um planeta que ainda não havia perdido a inocência, era "a guerra que haveria de terminar com todas as guerras". Não terminou, como se sabe, e por isso mesmo, ao término da guerra seguinte, ninguém ficou imaginando que aquela, sim, tinha sido a última. Pelo contrário, o mundo, escolado, ficou esperando pela Terceira. Esta seria, agora sem sombra de dúvida, a definitiva – mas não a definitiva no sentido que se imaginou a Primeira, porque o mundo finalmente tomara jeito e não guerrearia mais, e sim porque depois dela não sobraria nada.

A tão aguardada Terceira começou na semana passada. É irônico que, durante todo o período da chamada Guerra Fria, ela não tenha dado o ar de sua graça. O panorama nunca lhe fora tão propício. Havia duas superpotências, cada uma arrastando como aliados metade do mundo, e ambas detentoras de um arsenal nuclear que as fazia capazes de destruir uma à outra, e ao resto, centenas de vezes. Também não faltaram as ocasiões de enfrentamento: a crise de Berlim (1961), a dos foguetes de Cuba (1962). Nesses dois episódios, os Estados Unidos de Kennedy e a União Soviética de Kruchev estiveram à beira do grande embate. A Guerra do Vietnã, em que um lutava de um lado e o outro apoiava o lado contrário, foi outra excelente ocasião para o choque. No entanto, a Terceira não veio, em nenhuma dessas oportunidades. É irônico, irônico e paradoxal, que ela não tenha vindo durante toda a era de concorrência entre as superpotências, para finalmente eclodir no reinado absoluto de apenas uma delas, época de um mundo apaziguado e de fim da história.

Veio no momento errado, mas que veio, veio. Não estava, nas cenas levadas de um extremo a outro do planeta, o conjunto dos elementos com que ela sempre foi pintada? O choque apocalíptico no céu, a mortandade em massa, o terror... Não há dúvida, era a Terceira. A grande esperada. A grande temida. No entanto, apesar da evidência das cenas na TV, restou, é de rigor reconhecer, a sensação de que ficou faltando algo. Está bem, não se vai duvidar aqui de que se tratava da grande guerra. O cenário correspondia, descontados alguns exageros a mais, outros a menos, àquele com que inúmeros filmes nos acostumaram, ao pensar nela. No entanto...

No entanto, ainda que mal se pergunte – e é este o item que transmite a sensação de que algo está faltando: trata-se de guerra contra quem? Eis o problema. É uma guerra em que falta o outro lado. Se o leitor tem em mente os palestinos, que raio de adversários são esses – pouco mais que um bando de favelados, armados mais freqüentemente de paus e pedras que de outra coisa? Se tem em mente o Afeganistão, que raio de adversário é esse, cujas lutas tribais o situam a um degrau da Idade da Pedra? Não. Não dá para imaginar a Terceira tendo como oponentes, de um lado, a super e invencível América, e do outro os esfarrapados palestinos, ou os obscuros afegãos. Eis outro paradoxo, o maior, dos eventos da semana passada. Ao desencadear a Terceira Guerra Mundial, o outro lado faltou. Foi como um encontro marcado em que um dos lados, na hora H, não dá as caras. Ou como a noiva que deixa o noivo só no altar. Um dos lados ficou sangrando sozinho, por isso mesmo mais tonto ainda, e mais perplexo.

 
 
   
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