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Roberto
Pompeu de Toledo
Alguém faltou
ao grande encontro
É
a Terceira Guerra Mundial,
quem duvida? Todas as evidências
apontam para isso. No
entanto...
A Terceira
Guerra Mundial começou exatamente como era de esperar: com um ataque
surpreendente, brutal, louco, contra uma grande cidade de um grande país.
Escolha melhor de cenário, impossível: Nova York. E, dentro
de Nova York, as esguias, belas, altíssimas torres do World Trade
Center, sentinelas de um país tão rico quanto orgulhoso
de si, tão confortável com suas escolhas e seus valores
quanto inexpugnável. "My city, my beloved, my white" (Minha cidade,
minha amada, minha branca), escreveu o poeta Ezra Pound, num poema dedicado
a Nova York. Caso Pound chegasse à cidade na semana passada pelo
mar, aproximando-se aos poucos de Manhattan, ainda teria pela frente a
mesma amada que cantou no poema, ele que não viveu o bastante para
conhecer os edifícios do World Trade Center espetados na paisagem.
Não seria, porém, tomado da idéia de brancura. Nova
York se apresentaria sob o vermelho do fogo, o cinza da fumaça
ou o negro da fuligem.
Começo
mais eloqüente para a Terceira Guerra Mundial, impossível.
Depois do grande estrondo, da impensável trombada do maior dos
aviões com o maior dos prédios, a desolação
e o medo. Pessoas cobertas de cinza vagando silenciosas pelas ruas. Maridos
procurando as mulheres, pais procurando os filhos. Aviões haviam
deixado de voar, o metrô de correr pelos trilhos. Não restava
senão vagar pelas ruas, como sonâmbulos.
A mitologia
da Terceira Guerra Mundial, tida como tão inevitável como
a morte, e tão temida como o fim do mundo, nos acompanha desde
o fim da Segunda. Curioso que, quando da Primeira Guerra Mundial, ninguém
ficou esperando a Segunda. A seu tempo, a Primeira Guerra se chamou "A
Grande Guerra". Era a maior de todas, a guerra total, envolvendo todas
as nações, e por isso mesmo, na visão otimista que
se disseminou por um planeta que ainda não havia perdido a inocência,
era "a guerra que haveria de terminar com todas as guerras". Não
terminou, como se sabe, e por isso mesmo, ao término da guerra
seguinte, ninguém ficou imaginando que aquela, sim, tinha sido
a última. Pelo contrário, o mundo, escolado, ficou esperando
pela Terceira. Esta seria, agora sem sombra de dúvida, a definitiva
mas não a definitiva no sentido que se imaginou a Primeira,
porque o mundo finalmente tomara jeito e não guerrearia mais, e
sim porque depois dela não sobraria nada.
A tão
aguardada Terceira começou na semana passada. É irônico
que, durante todo o período da chamada Guerra Fria, ela não
tenha dado o ar de sua graça. O panorama nunca lhe fora tão
propício. Havia duas superpotências, cada uma arrastando
como aliados metade do mundo, e ambas detentoras de um arsenal nuclear
que as fazia capazes de destruir uma à outra, e ao resto, centenas
de vezes. Também não faltaram as ocasiões de enfrentamento:
a crise de Berlim (1961), a dos foguetes de Cuba (1962). Nesses dois episódios,
os Estados Unidos de Kennedy e a União Soviética de Kruchev
estiveram à beira do grande embate. A Guerra do Vietnã,
em que um lutava de um lado e o outro apoiava o lado contrário,
foi outra excelente ocasião para o choque. No entanto, a Terceira
não veio, em nenhuma dessas oportunidades. É irônico,
irônico e paradoxal, que ela não tenha vindo durante toda
a era de concorrência entre as superpotências, para finalmente
eclodir no reinado absoluto de apenas uma delas, época de um mundo
apaziguado e de fim da história.
Veio no
momento errado, mas que veio, veio. Não estava, nas cenas levadas
de um extremo a outro do planeta, o conjunto dos elementos com que ela
sempre foi pintada? O choque apocalíptico no céu, a mortandade
em massa, o terror... Não há dúvida, era a Terceira.
A grande esperada. A grande temida. No entanto, apesar da evidência
das cenas na TV, restou, é de rigor reconhecer, a sensação
de que ficou faltando algo. Está bem, não se vai duvidar
aqui de que se tratava da grande guerra. O cenário correspondia,
descontados alguns exageros a mais, outros a menos, àquele com
que inúmeros filmes nos acostumaram, ao pensar nela. No entanto...
No entanto,
ainda que mal se pergunte e é este o item que transmite a sensação
de que algo está faltando: trata-se de guerra contra quem? Eis
o problema. É uma guerra em que falta o outro lado. Se o leitor
tem em mente os palestinos, que raio de adversários são
esses pouco mais que um bando de favelados, armados mais freqüentemente
de paus e pedras que de outra coisa? Se tem em mente o Afeganistão,
que raio de adversário é esse, cujas lutas tribais o situam
a um degrau da Idade da Pedra? Não. Não dá para imaginar
a Terceira tendo como oponentes, de um lado, a super e invencível
América, e do outro os esfarrapados palestinos, ou os obscuros
afegãos. Eis outro paradoxo, o maior, dos eventos da semana passada.
Ao desencadear a Terceira Guerra Mundial, o outro lado faltou. Foi como
um encontro marcado em que um dos lados, na hora H, não dá
as caras. Ou como a noiva que deixa o noivo só no altar. Um dos
lados ficou sangrando sozinho, por isso mesmo mais tonto ainda, e mais
perplexo.
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