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Edição 1 718 - 19 de setembro de 2001
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O que parou no Brasil

Um dia de transtorno com vôos
cancelados
e prédios evacuados

Cláudia Granadeiro e Maurício Oliveira

 
Caio Guatelli/Folha Imagem
L. C. Leite/AE
Tripulação do vôo da TAM que voltou ao aeroporto de Guarulhos sem chegar a Miami: operação feita pelo piloto Luiz Postigo (à direita)

Ao provocar o colapso do tráfego aéreo nos Estados Unidos, os atentados terroristas da última terça-feira trouxeram transtorno para muitos brasileiros portadores de bilhete de avião para viagem entre os dois países. Três entre as maiores agências de viagem do país (Soletur, CVC e Stella Barros) tinham cerca de 400 clientes excursionando em Nova York, por meio de pacotes de turismo. Como não havia previsão para a reabertura do espaço aéreo americano naquele momento, a incerteza sobre a data da volta acabou repassada para os turistas, sem garantias de quando poderiam voltar. A todos, as companhias aéreas prometiam o custeio da estada extra, embora não pudessem assegurar a data de embarque. A publicitária Ana Lúcia De Pasquale (37 anos, de São Paulo) estava visitando a cidade pela primeira vez e havia chegado na véspera. Seu primeiro passeio na terça-feira estava programado exatamente para conhecer o World Trade Center. Saiu do hotel, pegou um ônibus e desceu nas proximidades do conjunto de edifícios. Antes de seguir para lá, resolveu tomar um cappuccino. "Quando saí do café, vi uma menina que usava uma bengala passar chorando e gritando", contou Ana Lúcia. Foi quando olhou para cima e deparou com uma das torres em chamas. Assustada como todo mundo, andou, segundo seus cálculos, cerca de 13 quilômetros até chegar ao hotel. "Quero ir embora, não tenho vontade de conhecer mais nada", dizia ela, algumas horas depois.

Procedentes do Brasil, com direção aos Estados Unidos, foram suspensos 27 vôos no primeiro dia. A companhia TAM cancelou um deles em pleno ar. O de número 8094 havia deixado o Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, às 10h23, com destino a Miami. Quando sobrevoava a região da divisa com Minas Gerais, o comandante Luiz Francisco Postigo recebeu as informações sobre a tragédia em Nova York, transmitidas pelo pessoal de terra da TAM. Imediatamente, o piloto relatou aos 57 passageiros o que estava ocorrendo, particularmente que não tinha permissão para pousar nos EUA. A aeronave deu meia-volta e desembarcou os viajantes no aeroporto de Guarulhos.

 
André Conti/Fotosite
PREGÃO SUSPENSO
A Bolsa de Valores de São Paulo foi uma das primeiras instituições a interromper as atividades e ficou vazia, num dia em que seu índice despencou 9%

Impedimento semelhante tiveram os passageiros que haviam saído pouco antes de Brasília e iam também para Miami pela mesma companhia. Na escala prevista em Manaus, a viagem foi interrompida. "Houve um clima de suspense, não tínhamos noção da gravidade", contou o engenheiro Fábio Silva, 40 anos, que se dirigia à cidade de Tampa, na Flórida, para uma reunião anual de negócios com operadoras de celulares de todo o mundo, mas acabou acomodado num hotel da capital amazonense. Varig, American Airlines, United, Continental e Delta viram-se obrigadas também a cortar na programação. Quem fazia o trajeto Rio de Janeiro–São Paulo–Lima–Los Angeles, pela Varig, precisou parar em Acapulco, no México. Outra turma foi desviada para Tijuana, no mesmo país. A demanda por informação de parentes, amigos e colegas de trabalho levou o Itamaraty a criar uma central de atendimento telefônico para verificar o paradeiro de brasileiros em Nova York. Distante dessa agitação e por motivação diversa, a Bolsa de Valores de São Paulo esteve entre os pioneiros na mudança da rotina: às 11 horas parou o pregão, quando o índice de negócios despencava sem parar.


AP
ESQUADRÃO ANTIBOMBAS
Policiais especializados cercam o consulado no Rio, que seguiu normas de segurança baixadas pelo governo americano para adoção em prédios públicos em todo o mundo

O ataque terrorista provocou uma imediata operação de proteção de prédios que sediam órgãos públicos e empresas americanas nas principais capitais brasileiras. No Rio, os 200 funcionários foram retirados do consulado, no centro da cidade. Era uma iniciativa dos próprios americanos, em sintonia com as diretrizes que a Casa Branca baixou para seu corpo diplomático em todo o mundo, conforme explicou Karen Hughes, assessora do presidente George W. Bush. Seis homens do Esquadrão Antibombas da Polícia Civil do Rio estiveram no prédio e fizeram uma varredura na parte externa, no estacionamento, nos jardins e até em vasos de plantas. Dentro do edifício, fuzileiros navais americanos reforçaram a segurança. Do lado de fora, policiais militares cercavam a área. O esquadrão antibombas ainda vistoriou na capital fluminense os prédios dos consulados de Israel e da Inglaterra. A Polícia Federal reforçou a segurança ao redor da embaixada americana em Brasília, além dos consulados em São Paulo e no Recife. A inquietação extrapolou a nacionalidade americana – a Federação Israelita do Estado de São Paulo determinou a suas 54 afiliadas a interrupção das atividades, além de pedir reforço policial para sinagogas e escolas judaicas. A segurança chegou, finalmente, aos aeroportos, onde houve até operação pente-fino.

A capital nacional da preocupação virou, é claro, a mineira Governador Valadares, a cidade que até hoje mais exportou cidadãos para os EUA. "Tivemos um dia tenso", afirmou Silvano Gomes, secretário de Governo da prefeitura. Para a população, havia uma boa dose de pragmatismo – temia-se pelo recrudescimento das dificuldades impostas à imigração, com prejuízo evidente para a vida da cidade mineira, cuja economia, há mais de vinte anos, se escuda nos "valadólares", o dinheiro americano suado que os jovens brasileiros enviam para as famílias.


Houve ainda uma espécie de vigília corporativa em várias empresas americanas com filiais no Brasil. Em São Paulo, o Citibank cercou com grades sua sede da Avenida Paulista, mas manteve o atendimento ao público e o funcionamento interno. Como praticamente todos os 1.500 funcionários que trabalham no prédio têm computador conectado à internet, o burburinho correu rápido e o clima era de estupefação. Os supervisores foram orientados a deixar os funcionários à vontade para ir embora, e muitos o fizeram. O Citibank tem 25 brasileiros trabalhando nos EUA. A Clorox, subsidiária da companhia americana especializada em produtos de limpeza, preparava-se para receber a visita do vice-presidente para a América Latina, mas teve de adiar o evento. A Disney esvaziou a sede em São Paulo e deixou a explicação na secretária eletrônica. Nada se compara, entretanto, ao clima na Hewlett-Packard, fabricante de PCs em São Paulo. Os dez componentes da diretoria da companhia no Brasil estavam em uma reunião quando tocou o telefone do diretor de assuntos corporativos, Gilberto Galan. Era o filho dele, de 20 anos, ligando para relatar o que acabara de ver na televisão: o World Trade Center havia sido atingido por um avião. Galan interrompeu o encontro para contar a notícia e a partir dali foi um corre-corre em busca de informações. O vice-presidente para a América Latina estava no Brasil e, à tarde, deveria fazer uma palestra para 800 funcionários. Local previsto: a Câmara Americana de Comércio. O discurso foi cancelado – o anfitrião que cedera o auditório também havia decidido fechar as portas, como todos, temendo ser alvo de algum atentado.


Com reportagem de Fábio de Oliveira,
Alexandra Martins e Fernanda Colavitti

 
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