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O
que parou no Brasil
Um
dia de transtorno com
vôos
cancelados e
prédios evacuados
Cláudia Granadeiro e Maurício Oliveira
Caio Guatelli/Folha Imagem
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L. C. Leite/AE
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| Tripulação
do vôo da TAM que voltou ao aeroporto de Guarulhos sem chegar a Miami:
operação feita pelo piloto Luiz Postigo (à direita) |
Ao
provocar o colapso do tráfego aéreo nos Estados Unidos,
os atentados terroristas da última terça-feira trouxeram
transtorno para muitos brasileiros portadores de bilhete de avião
para viagem entre os dois países. Três entre as maiores agências
de viagem do país (Soletur, CVC e Stella Barros) tinham cerca de
400 clientes excursionando em Nova York, por meio de pacotes de turismo.
Como não havia previsão para a reabertura do espaço
aéreo americano naquele momento, a incerteza sobre a data da volta
acabou repassada para os turistas, sem garantias de quando poderiam voltar.
A todos, as companhias aéreas prometiam o custeio da estada extra,
embora não pudessem assegurar a data de embarque. A publicitária
Ana Lúcia De Pasquale (37 anos, de São Paulo) estava visitando
a cidade pela primeira vez e havia chegado na véspera. Seu primeiro
passeio na terça-feira estava programado exatamente para conhecer
o World Trade Center. Saiu do hotel, pegou um ônibus e desceu nas
proximidades do conjunto de edifícios. Antes de seguir para lá,
resolveu tomar um cappuccino. "Quando saí do café, vi uma
menina que usava uma bengala passar chorando e gritando", contou Ana Lúcia.
Foi quando olhou para cima e deparou com uma das torres em chamas. Assustada
como todo mundo, andou, segundo seus cálculos, cerca de 13 quilômetros
até chegar ao hotel. "Quero ir embora, não tenho vontade
de conhecer mais nada", dizia ela, algumas horas depois.
Procedentes do Brasil, com direção aos Estados Unidos, foram
suspensos 27 vôos no primeiro dia. A companhia TAM cancelou um deles
em pleno ar. O de número 8094 havia deixado o Aeroporto Internacional
de Guarulhos, em São Paulo, às 10h23, com destino a Miami.
Quando sobrevoava a região da divisa com Minas Gerais, o comandante
Luiz Francisco Postigo recebeu as informações sobre a tragédia
em Nova York, transmitidas pelo pessoal de terra da TAM. Imediatamente,
o piloto relatou aos 57 passageiros o que estava ocorrendo, particularmente
que não tinha permissão para pousar nos EUA. A aeronave
deu meia-volta e desembarcou os viajantes no aeroporto de Guarulhos.
André Conti/Fotosite
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PREGÃO
SUSPENSO
A Bolsa de Valores de São Paulo foi uma das primeiras instituições
a interromper as atividades e ficou vazia, num dia em que seu índice
despencou 9% |
Impedimento
semelhante tiveram os passageiros que haviam saído pouco antes
de Brasília e iam também para Miami pela mesma companhia.
Na escala prevista em Manaus, a viagem foi interrompida. "Houve um clima
de suspense, não tínhamos noção da gravidade",
contou o engenheiro Fábio Silva, 40 anos, que se dirigia à
cidade de Tampa, na Flórida, para uma reunião anual de negócios
com operadoras de celulares de todo o mundo, mas acabou acomodado num
hotel da capital amazonense. Varig, American Airlines, United, Continental
e Delta viram-se obrigadas também a cortar na programação.
Quem fazia o trajeto Rio de JaneiroSão PauloLimaLos
Angeles, pela Varig, precisou parar em Acapulco, no México. Outra
turma foi desviada para Tijuana, no mesmo país. A demanda por informação
de parentes, amigos e colegas de trabalho levou o Itamaraty a criar uma
central de atendimento telefônico para verificar o paradeiro de
brasileiros em Nova York. Distante dessa agitação e por
motivação diversa, a Bolsa de Valores de São Paulo
esteve entre os pioneiros na mudança da rotina: às 11 horas
parou o pregão, quando o índice de negócios despencava
sem parar.
AP
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ESQUADRÃO
ANTIBOMBAS
Policiais especializados cercam o consulado no Rio, que seguiu normas
de segurança baixadas pelo governo americano para adoção em prédios
públicos em todo o mundo |
O
ataque terrorista provocou uma imediata operação de proteção
de prédios que sediam órgãos públicos e empresas
americanas nas principais capitais brasileiras. No Rio, os 200 funcionários
foram retirados do consulado, no centro da cidade. Era uma iniciativa
dos próprios americanos, em sintonia com as diretrizes que a Casa
Branca baixou para seu corpo diplomático em todo o mundo, conforme
explicou Karen Hughes, assessora do presidente George W. Bush. Seis homens
do Esquadrão Antibombas da Polícia Civil do Rio estiveram
no prédio e fizeram uma varredura na parte externa, no estacionamento,
nos jardins e até em vasos de plantas. Dentro do edifício,
fuzileiros navais americanos reforçaram a segurança. Do
lado de fora, policiais militares cercavam a área. O esquadrão
antibombas ainda vistoriou na capital fluminense os prédios dos
consulados de Israel e da Inglaterra. A Polícia Federal reforçou
a segurança ao redor da embaixada americana em Brasília,
além dos consulados em São Paulo e no Recife. A inquietação
extrapolou a nacionalidade americana a Federação
Israelita do Estado de São Paulo determinou a suas 54 afiliadas
a interrupção das atividades, além de pedir reforço
policial para sinagogas e escolas judaicas. A segurança chegou,
finalmente, aos aeroportos, onde houve até operação
pente-fino.
A capital nacional da preocupação virou, é claro,
a mineira Governador Valadares, a cidade que até hoje mais exportou
cidadãos para os EUA. "Tivemos um dia tenso", afirmou Silvano Gomes,
secretário de Governo da prefeitura. Para a população,
havia uma boa dose de pragmatismo temia-se pelo recrudescimento
das dificuldades impostas à imigração, com prejuízo
evidente para a vida da cidade mineira, cuja economia, há mais
de vinte anos, se escuda nos "valadólares", o dinheiro americano
suado que os jovens brasileiros enviam para as famílias.
Houve
ainda uma espécie de vigília corporativa em várias
empresas americanas com filiais no Brasil. Em São Paulo, o Citibank
cercou com grades sua sede da Avenida Paulista, mas manteve o atendimento
ao público e o funcionamento interno. Como praticamente todos os
1.500 funcionários que trabalham no prédio têm computador
conectado à internet, o burburinho correu rápido e o clima
era de estupefação. Os supervisores foram orientados a deixar
os funcionários à vontade para ir embora, e muitos o fizeram.
O Citibank tem 25 brasileiros trabalhando nos EUA. A Clorox, subsidiária
da companhia americana especializada em produtos de limpeza, preparava-se
para receber a visita do vice-presidente para a América Latina,
mas teve de adiar o evento. A Disney esvaziou a sede em São Paulo
e deixou a explicação na secretária eletrônica.
Nada se compara, entretanto, ao clima na Hewlett-Packard, fabricante de
PCs em São Paulo. Os dez componentes da diretoria da companhia
no Brasil estavam em uma reunião quando tocou o telefone do diretor
de assuntos corporativos, Gilberto Galan. Era o filho dele, de 20 anos,
ligando para relatar o que acabara de ver na televisão: o World
Trade Center havia sido atingido por um avião. Galan interrompeu
o encontro para contar a notícia e a partir dali foi um corre-corre
em busca de informações. O vice-presidente para a América
Latina estava no Brasil e, à tarde, deveria fazer uma palestra
para 800 funcionários. Local previsto: a Câmara Americana
de Comércio. O discurso foi cancelado o anfitrião
que cedera o auditório também havia decidido fechar as portas,
como todos, temendo ser alvo de algum atentado.
Com reportagem de Fábio de Oliveira,
Alexandra Martins e Fernanda Colavitti

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O
medo ancestral da invasão |