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Edição 1 718 - 19 de setembro de 2001
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A bomba financeira

O atentado paralisou Wall Street,
e por vários dias a economia mundial,
sem a força da locomotiva americana,
funcionou em ritmo morno. O medo
de uma recessão global cresceu


AFP
Alemães assistem ao horror americano: a Bolsa de Frankfurt caiu 8,5% e foi acompanhada pelas demais bolsas européias


A economia americana é a mais rica do planeta. Os Estados Unidos atraem cerca de dois terços do capital que circula no mundo, são importadores de todo tipo de tralha e grandes exportadores de investimentos. Espalharam, por todos os continentes, 800 bilhões de dólares em investimentos diretos, em oito anos. Na última década, a pujança da economia americana tem puxado o crescimento global. Não é de espantar, portanto, que o susto da terça-feira tenha estremecido o mercado financeiro. A economia global, que vinha num processo de esfriamento, sofreu um choque cujas repercussões, no longo prazo, ainda são imprevisíveis. Mas dois dias após o desastre já havia quem admitisse a possibilidade de uma retomada acelerada do crescimento, como ocorreu logo depois do bombardeio de Pearl Harbor, na II Guerra Mundial.

O efeito imediato da demolição do World Trade Center foi estonteante. O dólar, moeda forte nas transações internacionais, perdeu valor em relação ao iene e à libra esterlina. Sem a referência das bolsas de Nova York, que fecharam as portas, os investidores ficaram desorientados. Houve uma corrida tão desenfreada para a venda de ações que o mercado despencou. Na terça-feira a Bolsa de Frankfurt caiu 8,5%, a de Londres 5,7%, em Tóquio a queda foi de 6,6% e em Hong Kong, de 8,9%. No Brasil, o pregão foi suspenso pela manhã, quando a queda no valor das ações já estava em 9%. Os donos do dinheiro buscavam portos seguros. Retiraram suas fichas dos dólares e dos papéis de empresas e as despejaram em ativos mais tradicionais. O ouro chegou a ser negociado a 290 dólares a onça – 20 dólares mais caro que o valor cobrado antes da explosão do World Trade Center. O risco de uma crise no Oriente Médio fez disparar o preço do petróleo. O barril chegou a ser vendido a 31 dólares – uma alta de 13% num único dia.

Houve duas outras ocasiões, na história, em que o mercado de ações de Nova York ficou fechado por mais de dois dias. A primeira foi no princípio da I Guerra Mundial, em 1914. A bolsa suspendeu os negócios por quase quatro meses para evitar uma febre de venda de ações e uma possível quebra do sistema. A segunda foi em março de 1933, durante dez dias, tempo necessário para que o mercado bancário digerisse as perdas provocadas pela recessão que se seguiu à crise de 29. Diante do risco provocado por outra tragédia, o assassinato do presidente John Kennedy, em 1963, a bolsa nova-iorquina também baixou as portas por um dia e meio. Em todas essas ocasiões, os investidores estavam inseguros. Ninguém sabia o que poderia acontecer no dia seguinte.

De maneira geral, a suspensão dos negócios é uma medida preventiva. Visa a evitar que as pessoas, em pânico, se desfaçam de suas ações, provocando queda nos preços. Isso porque o comportamento dos negócios na bolsa de valores tem reflexo em toda a economia. Cerca de 60% dos americanos têm pelo menos uma parte de sua poupança aplicada em ações. Quando a bolsa despenca, toda essa gente se sente empobrecer. Então consome menos e engripa a máquina econômica do país. Na semana passada, a interrupção do pregão de Nova York teve essa face, preventiva. Foi determinada também pelo fato de que grande parte das corretoras e dos bancos que operam nos Estados Unidos tinha escritório no World Trade Center, que veio abaixo.

No dia seguinte ao atentado, no entanto, embora os negócios continuassem suspensos no mercado americano, por todo o planeta as coisas começaram a se estabilizar. O preço do petróleo caiu, o dólar valorizou-se, a corrida do ouro esfriou. Não que o episódio tenha sido totalmente superado. Existe uma expectativa em relação ao comportamento dos americanos num futuro próximo. Neste ano, o investimento na indústria caiu, a taxa de desemprego cresceu, as pessoas passaram a gastar menos. Já antes do atentado ninguém estava muito animado. Depois das explosões da terça-feira, os analistas econômicos dividem-se em duas linhas. Uma delas é pessimista. Considera que o mercado americano pode ficar mais arredio e defensivo, menos comprador, e que o país e o mundo terão de enfrentar um período de recessão até que o trauma seja superado. "A confiança do consumidor americano deve ficar ainda mais abalada do que ficou durante a Guerra do Golfo. Nunca se viu algo como o que ocorreu agora", diz Alan Blinder, economista-professor da Universidade Princeton. A outra linha de pensamento é mais otimista. Observa que, historicamente, os americanos reagem às crises com tremenda mobilização, que resulta na aceleração do crescimento econômico. "Apesar da escala da tragédia, achamos que os acontecimentos terríveis terão impacto limitado sobre a economia internacional e o sistema financeiro global", diz Horst Koehler, diretor-geral do Fundo Monetário Internacional.

 
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