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No topo do mundo
Com
bons empregos e vida
confortável,
desaparecidos
brasileiros destoam do perfil
típico dos 300 000 conterrâneos
que vivem em Nova York
Álbum de família

SONHO
REALIZADO
Feliz com o emprego numa corretora, Anne contou a amigos que não
pretendia mais sair dos Estados Unidos |
O
paulistano Ivan Kyrillos Barbosa, administrador de empresas, 30 anos,
estava no topo do mundo. Funcionário de uma corretora de valores
no coração de Manhattan, morava num apartamento dentro de
um belo condomínio do outro lado do Rio Hudson. Adorava o trabalho,
que lhe rendia 10 000 dólares por mês, entre salário
e bônus. Sua colega Anne Marie Sallerin Ferreira, engenheira química
de formação, 29 anos, também estava realizando um
sonho ao trabalhar com a elite globalizada do mundo financeiro. Com trajetórias
tão bem-sucedidas, tinham pouco a ver com a maioria dos 300 000
brasileiros que buscam uma vida melhor em Nova York, geralmente em
ocupações bem menos qualificadas. Ivan dava expediente no
105º andar da torre norte do World Trade Center, quase no topo do
edifício. Anne Marie era uma de suas companheiras de trabalho na
corretora Cantor Fitzgerald. Desde terça-feira, os dois, junto
com a contadora Sandra Fajardo Smith, eram os brasileiros mais ansiosamente
procurados por parentes e amigos numa lista que começou com cerca
de trinta pessoas.

A
BATALHADORA
Para conseguir se formar, Sandra trabalhou como garçonete na
cidade. Não perdia uma aula |
Ivan chegou
a dar um último telefonema, rápido e nervoso. "Cara, bateu
alguma coisa aqui! Vou ter de descer!", disse a um amigo que estava a
dez quadras dali. Quando a compreensão do horror baixou, sua mulher,
Valéria, começou a peregrinação de tantos
outros milhares de parentes, entre os hospitais e os centros de apoio.
Ivan e Valéria mudaram-se de São Paulo para Nova York há
dois anos, quando ele conseguiu emprego em outra corretora, a EuroBrokers.
"No dia em que recebeu a notícia da contratação,
ele veio ao meu apartamento com uma miniatura das torres gêmeas,
dizendo, todo feliz: 'Agora vou trabalhar aqui!'", lembra Ivan Barbosa,
pai do administrador de empresas. A carreira continuou arrancando com
a mudança para a Cantor. Ivan trabalhava das 7h30 às 21
horas. Nos fins de semana, jogava tênis, uma de suas paixões.
De seu apartamento no condomínio chamado The Avalon Cove, podia
ver os prédios do World Trade Center.
Calcula-se
que houvesse aproximadamente 100 brasileiros na área quando a catástrofe
desabou. Cerca de dez deles trabalhavam como engraxates no térreo
e conseguiram sair dali sem maiores problemas. Seis eram empregados da
corretora Garban-Intercapital, no 25º andar, e viveram o pânico
da fuga. "Demorei quase vinte minutos para descer, achava que o prédio
ia cair", conta um deles, o corretor Guilherme Castro. O colega Raul Paulo
Costa pegou a escada errada. Precisou voltar, subindo, cinco andares,
até que conseguiu safar-se. "Vou morrer", pensava. O engenheiro
Jorge Reis conseguiu descer do 65º andar (veja
seu relato). Não há quase registros de sobreviventes
que estavam acima do 90º andar, como Ivan e Anne Marie.

BOM
SALÁRIO
Ivan Barbosa mostrou para o pai uma miniatura dos prédios onde
ia trabalhar. Ganhava 10 000 dólares |
Antes de
se mudar para Nova York, há poucos meses, Anne Marie, uma morena
bonita, de olhos brilhantes, morou com o marido, Alexandre Ferreira, em
Londres. Lá, trabalhou numa loja e escreveu um livro de matemática
para estudantes interessados em fazer testes em universidades estrangeiras.
Para produzir a obra, utilizou os conhecimentos adquiridos no curso de
engenharia química no Instituto Mauá, no ABC paulista. "Mas
seu sonho mesmo foi sempre o de operar na área financeira", conta
a amiga Flavia Montoro. "Ela já tinha trabalhado em alguns bancos
em São Paulo e queria muito voltar para essa área." Por
isso, Anne Marie vibrou quando o marido recebeu uma transferência
para Nova York. Com o currículo debaixo do braço, bateu
nas portas da Cantor Fitzgerald e foi aceita. Feliz da vida, dizia aos
amigos antes do acidente que não queria mais voltar ao Brasil,
pois adorava o que fazia e onde vivia.
Um pouco
mais velha que Ivan e Anne Marie, a mineira Sandra Fajardo, 37 anos, batalhou
mais duramente para abrir seu espaço lá no topo. Quando
chegou a Nova York, há cerca de dez anos, fazia faculdade de ciências
contábeis e, à noite, trabalhava como garçonete num
bar. "Ao contrário da maioria dos brasileiros, ela não se
acomodou com o subemprego", relembra a amiga Lúcia Cruz. "O expediente
ia até as 4 horas da manhã, mas ela era incapaz de faltar
à aula no dia seguinte." Depois de formada, Sandra mudou seu padrão
de vida. Há dois anos, conseguiu emprego como contadora na Marsh
Inc, uma das melhores empresas do ramo, com sede no 98º andar da
torre norte do World Trade Center. Chegou a se casar com um americano
para conseguir o visto definitivo de permanência daí
o sobrenome Smith. Nas últimas semanas, andava entusiasmada com
o novo namorado que havia conhecido na academia de ginástica: Mike,
também americano. "Eu tenho esperança de que ela esteja
entre os brasileiros hospitalizados que o consulado ainda não identificou,
mas, ao mesmo tempo, temo que possa ter acontecido o pior", dizia Lúcia
Cruz. "Tem um detalhe que me deixa especialmente apavorada: nas mensagens
que havia na secretária eletrônica dela, notei que não
havia nenhuma de colegas de trabalho."
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"Vi
pedaços de braços
e cabeças sem corpo"
Jorge
Reis, engenheiro de 42 anos, trabalha há dez na Port Authority
de Nova York, organismo encarregado da administração
de portos e aeroportos. Seu relato:
"Eu
havia acabado de chegar ao meu escritório, no 65º andar
da torre norte. Pendurei o paletó na cadeira, liguei o computador
e ouvi o estrondo. Parecia o barulho de um trovão. Só
que, em vez de diminuir, ele aumentava. O prédio inteiro
começou a sacolejar. Muita gente gritou e passou a correr
desesperada. Fomos todos para as escadas de emergência e começamos
a descer. A situação estava razoavelmente sob controle.
Não havia fogo nem fumaça ainda. Mais ou menos na
altura do 50º andar, ouvimos gritos ordenando que ficássemos
do lado direito da escada, de forma a deixar uma espécie
de corredor livre do lado esquerdo. Era para descer os feridos.
Percebemos aí que estávamos no meio de uma catástrofe.
Algumas das pessoas que desciam carregadas estavam praticamente
sem pele, com a carne do rosto toda exposta. Havia senhoras idosas
gritando de dor, outras que nem gritar conseguiam, o rosto transfigurado.
As pessoas ficaram desesperadas. No pânico, alguém
abriu uma das portas que dava para um dos andares e a escada ficou
tomada pela fumaça. Ao mesmo tempo, a água dos extintores
começou a jorrar escadaria abaixo.
No
meu prédio, as escadas de emergência vão somente
até o 9° andar. Quando você chega lá, a
porta se abre para uma espécie de mezanino que dá
para a praça central do World Trade Center. O pior momento
de todos foi quando essa porta se abriu: a praça era um campo
de batalha. Havia sangue por todos os lados, pedaços de corpos
espalhados pelo chão, escombros caindo do céu e partes
do avião ainda pegando fogo. Alguns corpos estavam incinerados,
outros espatifados no chão. Vi pedaços de braço
e cabeças sem corpo. Nunca vou me esquecer. Alguns colegas
entraram em estado de histeria. Eu fiquei em choque: meu coração
veio à boca. Quantas vezes estive naquela praça...
Era um lugar muito elegante, todo de mármore e granito. No
verão, havia concertos de música lá. Não
sobrou nada."
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Veja também |
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