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Edição 1 718 - 19 de setembro de 2001
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A perícia dos pilotos
Os inimigos dos EUA
Choque de civilizações
A morte pelo celular
Os brasileiros desaparecidos
O abalo econômico e a reação mundial
As escolas de terrorismo
Um dia de transtornos até no Brasil
O medo ancestral da invasão


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No topo do mundo

Com bons empregos e vida
confortável, desaparecidos
brasileiros destoam do perfil
típico dos 300 000
conterrâneos
que vivem
em Nova York

 

Álbum de família

SONHO REALIZADO
Feliz com o emprego numa corretora, Anne contou a amigos que não pretendia mais sair dos Estados Unidos

O paulistano Ivan Kyrillos Barbosa, administrador de empresas, 30 anos, estava no topo do mundo. Funcionário de uma corretora de valores no coração de Manhattan, morava num apartamento dentro de um belo condomínio do outro lado do Rio Hudson. Adorava o trabalho, que lhe rendia 10 000 dólares por mês, entre salário e bônus. Sua colega Anne Marie Sallerin Ferreira, engenheira química de formação, 29 anos, também estava realizando um sonho ao trabalhar com a elite globalizada do mundo financeiro. Com trajetórias tão bem-sucedidas, tinham pouco a ver com a maioria dos 300 000 brasileiros que buscam uma vida melhor em Nova York, geralmente em ocupações bem menos qualificadas. Ivan dava expediente no 105º andar da torre norte do World Trade Center, quase no topo do edifício. Anne Marie era uma de suas companheiras de trabalho na corretora Cantor Fitzgerald. Desde terça-feira, os dois, junto com a contadora Sandra Fajardo Smith, eram os brasileiros mais ansiosamente procurados por parentes e amigos numa lista que começou com cerca de trinta pessoas.



A BATALHADORA
Para conseguir se formar, Sandra trabalhou como garçonete na cidade. Não perdia uma aula

Ivan chegou a dar um último telefonema, rápido e nervoso. "Cara, bateu alguma coisa aqui! Vou ter de descer!", disse a um amigo que estava a dez quadras dali. Quando a compreensão do horror baixou, sua mulher, Valéria, começou a peregrinação de tantos outros milhares de parentes, entre os hospitais e os centros de apoio. Ivan e Valéria mudaram-se de São Paulo para Nova York há dois anos, quando ele conseguiu emprego em outra corretora, a EuroBrokers. "No dia em que recebeu a notícia da contratação, ele veio ao meu apartamento com uma miniatura das torres gêmeas, dizendo, todo feliz: 'Agora vou trabalhar aqui!'", lembra Ivan Barbosa, pai do administrador de empresas. A carreira continuou arrancando com a mudança para a Cantor. Ivan trabalhava das 7h30 às 21 horas. Nos fins de semana, jogava tênis, uma de suas paixões. De seu apartamento no condomínio chamado The Avalon Cove, podia ver os prédios do World Trade Center.

Calcula-se que houvesse aproximadamente 100 brasileiros na área quando a catástrofe desabou. Cerca de dez deles trabalhavam como engraxates no térreo e conseguiram sair dali sem maiores problemas. Seis eram empregados da corretora Garban-Intercapital, no 25º andar, e viveram o pânico da fuga. "Demorei quase vinte minutos para descer, achava que o prédio ia cair", conta um deles, o corretor Guilherme Castro. O colega Raul Paulo Costa pegou a escada errada. Precisou voltar, subindo, cinco andares, até que conseguiu safar-se. "Vou morrer", pensava. O engenheiro Jorge Reis conseguiu descer do 65º andar (veja seu relato). Não há quase registros de sobreviventes que estavam acima do 90º andar, como Ivan e Anne Marie.


BOM SALÁRIO
Ivan Barbosa mostrou para o pai uma miniatura dos prédios onde ia trabalhar. Ganhava 10 000 dólares

Antes de se mudar para Nova York, há poucos meses, Anne Marie, uma morena bonita, de olhos brilhantes, morou com o marido, Alexandre Ferreira, em Londres. Lá, trabalhou numa loja e escreveu um livro de matemática para estudantes interessados em fazer testes em universidades estrangeiras. Para produzir a obra, utilizou os conhecimentos adquiridos no curso de engenharia química no Instituto Mauá, no ABC paulista. "Mas seu sonho mesmo foi sempre o de operar na área financeira", conta a amiga Flavia Montoro. "Ela já tinha trabalhado em alguns bancos em São Paulo e queria muito voltar para essa área." Por isso, Anne Marie vibrou quando o marido recebeu uma transferência para Nova York. Com o currículo debaixo do braço, bateu nas portas da Cantor Fitzgerald e foi aceita. Feliz da vida, dizia aos amigos antes do acidente que não queria mais voltar ao Brasil, pois adorava o que fazia e onde vivia.

Um pouco mais velha que Ivan e Anne Marie, a mineira Sandra Fajardo, 37 anos, batalhou mais duramente para abrir seu espaço lá no topo. Quando chegou a Nova York, há cerca de dez anos, fazia faculdade de ciências contábeis e, à noite, trabalhava como garçonete num bar. "Ao contrário da maioria dos brasileiros, ela não se acomodou com o subemprego", relembra a amiga Lúcia Cruz. "O expediente ia até as 4 horas da manhã, mas ela era incapaz de faltar à aula no dia seguinte." Depois de formada, Sandra mudou seu padrão de vida. Há dois anos, conseguiu emprego como contadora na Marsh Inc, uma das melhores empresas do ramo, com sede no 98º andar da torre norte do World Trade Center. Chegou a se casar com um americano para conseguir o visto definitivo de permanência – daí o sobrenome Smith. Nas últimas semanas, andava entusiasmada com o novo namorado que havia conhecido na academia de ginástica: Mike, também americano. "Eu tenho esperança de que ela esteja entre os brasileiros hospitalizados que o consulado ainda não identificou, mas, ao mesmo tempo, temo que possa ter acontecido o pior", dizia Lúcia Cruz. "Tem um detalhe que me deixa especialmente apavorada: nas mensagens que havia na secretária eletrônica dela, notei que não havia nenhuma de colegas de trabalho."

 

"Vi pedaços de braços
e cabeças sem corpo"

Jorge Reis, engenheiro de 42 anos, trabalha há dez na Port Authority de Nova York, organismo encarregado da administração de portos e aeroportos. Seu relato:

"Eu havia acabado de chegar ao meu escritório, no 65º andar da torre norte. Pendurei o paletó na cadeira, liguei o computador e ouvi o estrondo. Parecia o barulho de um trovão. Só que, em vez de diminuir, ele aumentava. O prédio inteiro começou a sacolejar. Muita gente gritou e passou a correr desesperada. Fomos todos para as escadas de emergência e começamos a descer. A situação estava razoavelmente sob controle. Não havia fogo nem fumaça ainda. Mais ou menos na altura do 50º andar, ouvimos gritos ordenando que ficássemos do lado direito da escada, de forma a deixar uma espécie de corredor livre do lado esquerdo. Era para descer os feridos. Percebemos aí que estávamos no meio de uma catástrofe. Algumas das pessoas que desciam carregadas estavam praticamente sem pele, com a carne do rosto toda exposta. Havia senhoras idosas gritando de dor, outras que nem gritar conseguiam, o rosto transfigurado. As pessoas ficaram desesperadas. No pânico, alguém abriu uma das portas que dava para um dos andares e a escada ficou tomada pela fumaça. Ao mesmo tempo, a água dos extintores começou a jorrar escadaria abaixo.

No meu prédio, as escadas de emergência vão somente até o 9° andar. Quando você chega lá, a porta se abre para uma espécie de mezanino que dá para a praça central do World Trade Center. O pior momento de todos foi quando essa porta se abriu: a praça era um campo de batalha. Havia sangue por todos os lados, pedaços de corpos espalhados pelo chão, escombros caindo do céu e partes do avião ainda pegando fogo. Alguns corpos estavam incinerados, outros espatifados no chão. Vi pedaços de braço e cabeças sem corpo. Nunca vou me esquecer. Alguns colegas entraram em estado de histeria. Eu fiquei em choque: meu coração veio à boca. Quantas vezes estive naquela praça... Era um lugar muito elegante, todo de mármore e granito. No verão, havia concertos de música lá. Não sobrou nada."

 

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