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A
morte pelo celular
Condenadas,
vítimas telefonaram
para a família e tentaram reagir
Fotos AFP
 |
AFP
 |
"Eles
dizem que têm uma bomba."
Mark
Bingham, 31, na ligação em que se
despediu da mãe, Alice (foto à direita) |
Para
um público sedento de notícias confortantes em meio à
catástrofe, eles já estavam sendo chamados de "os heróis
do vôo 93". Eram no mínimo três, homens altos e fortes,
que decidiram atracar-se com os seqüestradores do Boeing 757 da United
Airlines que havia decolado de Newark rumo a San Francisco. Não
se sabe se conseguiram. Mas o avião foi o único que não
chegou ao destino traçado pelos terroristas. Caiu em campo aberto,
perto de Pittsburgh. O que aconteceu lá dentro, entre o início
do
seqüestro e a decisão desesperada de reagir, foi narrado num
punhado de telefonemas dados por passageiros munidos de celular. As ligações
choveram dos vários palcos da tragédia. Tanto a bordo dos
aviões seqüestrados quanto nos prédios do World Trade
Center e, mais tarde, de seus escombros, o telefone celular foi o elo
possível, para um grupo de pessoas aterrorizadas, feridas, à
espera da morte certa, com o mundo como ele era antes que mergulhassem
no pesadelo. Alguns desses telefonemas forneceram o primeiro e dramático
esboço do modo de agir dos terroristas. Na maior parte das vezes,
porém, o celular foi unicamente o instrumento da despedida.
AP
 |
"Vamos
morrer. Temos de fazer alguma coisa."
Thomas
Burnett, 38,
ao avisar que ia atacar os terroristas |
Dezenas
de ligações partiram do vôo 93 da United Airlines,
que levava 45 pessoas a bordo. Quando o empresário californiano
Thomas Burnett, 38 anos, três filhas pequenas, fez o primeiro de
quatro telefonemas à mulher, Deena, um passageiro já havia
sido morto e ele não tinha ilusões sobre seu destino. "Sei
que vamos morrer. Temos de fazer alguma coisa", avisou. Deena implorou
para que ficasse quieto, sentado, sem chamar a atenção.
Burnett não lhe deu ouvidos. Jeremy Glick, 31, também ligou
várias vezes para a mulher, Lyzbeth, em Nova Jersey, que por sua
vez contatou a polícia. Conversaram a três por telefone,
e ele descreveu o que viu: três seqüestradores que pareciam
árabes, um deles com "uma caixa vermelha que afirmava ser uma bomba",
outro com "uma espécie de faca". Segundo Glick, alguns passageiros
haviam ouvido (por telefone também) que um avião tinha explodido
contra o World Trade Center. Perguntou se era verdade e, diante da afirmativa,
foi falar com os outros passageiros eles estavam sem vigilância,
com os seqüestradores na cabine de comando. Na volta, contou que
alguns homens, todos parrudos, esportistas como ele, haviam tomado uma
decisão: como não tinham nada a perder, iam atacar os terroristas.
"Ele disse: 'Eu te amo. Fique na linha'", contou Lyzbeth. Pouco depois,
o avião se espatifou nos arredores de Pittsburgh.
Antes disso, Mark Bingham, de 31 anos, teve tempo de se despedir da mãe,
Alice Hoglan, na Califórnia. "Ele falou: 'Estou no ar. Fomos seqüestrados
por três homens que dizem que têm uma bomba'", contou Alice,
que é comissária da United, em prantos. Outra ligação
do vôo 93 foi de um homem não identificado, que, trancado
no banheiro, chamou a polícia. "Estamos sendo seqüestrados.
Isto não é um trote", repetiu várias vezes, desesperado.
Na última ligação, ele disse que tinha havido uma
explosão e que estava vendo uma fumaça branca.
AP
 |
Reuters
 |
"O
que eu digo para o piloto fazer?"
Barbara Olson, 46, na última conversa com o marido,
Theodore (à dir.) |
No
vôo 77 da American Airlines, lançado contra o Pentágono,
Barbara Olson, 46 anos, comentarista da rede de notícias CNN, também
disparou o celular. Ligou para o marido, Theodore Olson, que é
advogado-geral da União. Disse que os seqüestradores portavam
facas e haviam juntado passageiros e tripulantes no fundo do avião
indicação de que os próprios terroristas conduziam
o aparelho na hora da queda. Segura de si, conhecida pelas opiniões
apaixonadamente direitistas, Barbara ainda tentou algum tipo de controle
da situação, perguntando ao marido: "O que digo para o piloto
fazer?". O empresário Peter Hanson, vítima do vôo
11 da American Airlines, que explodiu contra uma das torres do World Trade
Center, contou, em ligação para o pai, em Connecticut, que
os seqüestradores estavam barbarizando os comissários de bordo,
para forçar os pilotos a destrancar a porta da cabine. "Uma aeromoça
foi esfaqueada", narrou.
Das duas torres do World Trade Center partiram inúmeras ligações
logo após o choque dos aviões. Entre os milhares de pessoas
que desciam as escadas de emergência, muitas ligavam para a família.
Daniel Lopez, que trabalhava no 96º andar, deixou recado na secretária
eletrônica para a mulher: "Meu prédio foi atingido. Cheguei
ao 78º andar. Estou bem, mas vou ficar e ajudar a retirar o pessoal".
Aí as torres desabaram, uma depois da outra, e os celulares emudeceram.
Ressurgiram mais tarde, em número muito menor, dos escombros dos
prédios, nas mãos de sobreviventes desesperados, à
espera de salvação. Dois policiais foram localizados graças
à conversa por telefone com as equipes de resgate. Os demais, no
entanto, eram fiapos de esperança soterrados sob mais de 10 metros
de ruínas fumegantes.

Veja também |
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