
estasemana
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
online_2001/imagens/pixTransparente.gif" width="135" height="5"> |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Sumário
Especial
|
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Assassinato em
nome de Alá
Miséria
e falta de democracia,
aliadas ao nacionalismo, fazem
o caldo no qual nasce o radicalismo
islâmico uma minoria na religião
Com
o surgimento dos primeiros indícios de que a onda de terror nos
Estados Unidos foi obra de radicais islâmicos, uma questão
tornou-se inevitável: quem é essa gente que se suicida jogando
aviões contra edifícios? Que se veste de bombas e se explode
em supermercados e pizzarias de Israel? Que estoura carros recheados de
explosivos contra muros de quartéis? Quem é, enfim, essa
gente que se mata em nome de Alá? Atualmente, calcula-se que exista
em torno de 1,3 bilhão de muçulmanos no mundo, divididos
em diversas correntes religiosas e apenas uma parcela pequena está
disposta a entregar a vida pela causa. São muçulmanos que
integram ramificações extremistas da religião, como
os sunitas do Afeganistão e os xiitas do Líbano, para os
quais o suicídio em nome de Alá, normalmente cometido aos
gritos de "Deus é grande", é uma forma suprema de entrega
ao amor divino. A maioria dos muçulmanos, no entanto, repudia os
ataques suicidas e os considera pecado extremo, uma ofensa contra Alá,
na medida em que atenta contra o dom da vida um dom divino. "O
primeiro equívoco comum entre ocidentais e cristãos é
considerar todo islâmico um extremista suicida e, por extensão,
um terrorista em potencial", adverte a historiadora Maria Aparecida de
Aquino, da Universidade de São Paulo. O segundo equívoco,
e até mais freqüente que o primeiro, é julgar que todos
os muçulmanos são árabes, quando a maioria, na verdade,
é formada por povos não-árabes. Somando-se um erro
ao outro, produz-se uma generalização tão deformada
quanto a de alguém que supõe que todos os católicos
são irlandeses e, portanto, todos são radicais.
Há
quarenta anos, 15% da população mundial era devota de Alá.
Hoje, são quase 20%, e estima-se que, por volta de 2020, de cada
quatro habitantes do planeta um será muçulmano. Essa explosão
demográfica em parte provocada pela proibição
religiosa do uso de métodos contraceptivos está devolvendo
ao islamismo uma força considerável. Com o liberalismo religioso
da maior parte do Ocidente, os muçulmanos também se espalham
com alguma facilidade. Só na Europa, berço da civilização
cristã, existem 20 milhões de muçulmanos, e quase
metade deles está instalada na Europa Ocidental. Há mesquitas
até na Roma dos papas. Outro fator que emprestou maior visibilidade
aos países islâmicos está em sua imensa riqueza estratégica:
eles são donos das mais generosas reservas de petróleo do
mundo. Entre os cinco maiores produtores de óleo do Oriente Médio
(Irã, Iraque, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Kuwait),
o PIB conjunto quadruplicou nos últimos trinta anos enquanto
o PIB mundial apenas dobrou de tamanho.
O crescimento do rebanho e a fartura do petróleo, no entanto, produziram
um barril de pólvora. Em geral, os regimes dos países islâmicos
são ditaduras teocráticas e a riqueza não é
distribuída, deixando a maior parte da população
relegada à miséria. É dentro desse caldeirão
paradoxal que ressurgiu a força da religião, em especial
depois da Revolução Islâmica no Irã, em 1979.
"Num ambiente de carência social e autoritarismo político,
a religião funciona como uma poderosíssima válvula
de escape", define a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da USP. Mas
isso não é tudo. Até pouco tempo atrás, a
América Latina também convivia simultaneamente com miséria
e ditadura e, no entanto, nunca se viram grupos extremistas de
latino-americanos promovendo atos de terrorismo pelo mundo afora em nome
de sua libertação econômica e política. Por
que então alguns grupos de fanáticos islâmicos chocam
o mundo com espetáculos inimagináveis de terror? A explicação
sobre o que move esses extremistas, segundo alguns especialistas, talvez
esteja num dado mais sutil: o choque de civilizações.
"Os
Estados nacionais permanecerão como os atores mais poderosos no
cenário mundial, mas os principais conflitos globais ocorrerão
entre nações e grupos de diferentes civilizações",
aposta o professor Samuel P. Huntington, especialista em estudos internacionais
da Universidade Harvard e autor de um livro dedicado ao assunto. "O choque
de civilizações será a linha divisória das
batalhas do futuro." Nem todos os estudiosos do assunto concordam com
a tese de Huntington, mas não há como negar que, num mundo
cada vez menor, cada vez mais próximo, a religião também
funciona como um instrumento de afirmação da identidade
nacional. E a globalização crescente é um processo
que se desenrola sob o comando inequívoco do mundo ocidental
em especial, do império americano. As potências ocidentais
não trilham sua trajetória segundo parâmetros da Bíblia,
da fé cristã, dos ensinamentos de Jesus, mas, mesmo assim,
elas acabam por se contrapor, culturalmente, aos países muçulmanos,
muitos dos quais se pautam pelo Corão, pela fé islâmica,
pelos ensinamentos de Maomé.
Com 1 400 anos de rivalidade, o cristianismo e o islamismo vêm alternando
auges e colapsos. Fundado em 622 pelo profeta Maomé, o islamismo
logo se lançou, com sucesso, à conquista de terras e almas.
Por volta de 1 500, no entanto, os europeus cristãos partiram para
a conquista do Oceano Atlântico, com os portugueses à frente,
e acharam a rota marítima para as cobiçadas riquezas da
Ásia e aí começou o declínio da civilização
islâmica. Hoje, as potências ocidentais encontram-se no auge
do poder. Os Estados Unidos, com sua incomparável pujança
econômica, seu formidável poderio militar e sua vigorosa
influência política e cultural sobre os destinos do mundo,
representam o triunfo dos valores ocidentais pelo menos aos olhos
de fundamentalistas islâmicos, que, é sempre bom lembrar,
são uma minoria entre os muçulmanos. Daí por que
o terror da terça-feira não se esgotou na destruição
de arranha-céus e na morte de inocentes. Pretendeu, sobretudo,
cravar uma cimitarra no coração e no orgulho da maior potência
ocidental.
Os extremistas, que enxergam o mundo pela oposição entre
Jesus e Maomé, se ressentem da avassaladora influência ocidental
sobre o planeta nos costumes, nos hábitos de consumo, no
modo de vida. Tanto que, em países dominados por radicais islâmicos,
especialmente os talibans do Afeganistão, tudo o que lembra a cultura
ocidental é proibido e severamente punido. Mas, de novo, isso não
é uma regra. No Irã, há grandes anúncios de
produtos ocidentais pelas ruas de Teerã, existem mulheres procurando
cirurgiões plásticos, num sinal de vaidade antes inadmissível,
e é muito expressivo o contingente feminino que freqüenta
a universidade uma raridade em algumas nações islâmicas
que confinam a mulher aos limites do lar. "Há aspectos do capitalismo
ocidental que são plenamente aceitos pelas populações
muçulmanas", diz um diplomata brasileiro que serviu por oito anos
no Líbano. "As cadeias de fast food, como o McDonald's, fazem sucesso
do Marrocos ao Líbano," diz ele.
"Sem
dúvida, o extremismo religioso está ligado às frustrações,
principalmente entre os mais jovens, pois os países árabes
têm economia fraca, analfabetismo e desemprego crescente", afirma
Sharif Shuja, professor de relações internacionais da Universidade
Bond, na Austrália. "Mas, além disso, o massacre de muçulmanos
na Bósnia, na Chechênia, na Palestina e na Caxemira faz o
mundo árabe imaginar que o Ocidente está contra ele", completa
o especialista. A melhor maneira de reduzir o crescimento do extremismo
talvez esteja na expansão democrática dos países
islâmicos tema ao qual as potências ocidentais têm
dedicado pouca atenção. A riqueza econômica do petróleo,
por si só, não foi capaz de melhorar esse cenário.
"Na verdade, ocorreu o contrário", analisa o professor Michael
Hudson, da Universidade Georgetown. "Jordânia, Líbano, Marrocos
e Palestina, que não têm reservas petrolíferas, hoje
são países muito mais abertos que os ricos em petróleo,
como Arábia Saudita, Iraque e Líbia." A exceção
é o Irã, único islâmico rico que vive um acelerado
processo de democratização.
A dificuldade de criar regimes democráticos em países árabes
decorre de fatores históricos e culturais, mas se agrava hoje em
dia em razão de dois aspectos. De um lado, existe um estado permanente
de beligerância, pela vizinhança com Israel, o que tende
a concentrar o poder nas mãos de um líder ou de um grupo.
O constante clima de guerra, além disso, torna prioridade o fortalecimento
do Exército, do serviço de inteligência, da polícia
secreta, da guarda nacional, instituições que também
servem para conter aspirações populares malvistas pelos
dirigentes. De outro lado, a comunidade árabe é dividida
pela glória e pela desgraça do petróleo. Quem tem
senta-se sobre ele. Quem não tem usa sua influência junto
aos países ricos em petróleo para garantir investimentos
e ajuda externa. Assim, tanto os com-petróleo quanto os sem-petróleo,
excessivamente amarrados à dependência de capital externo,
tendem a ignorar as demandas internas por maior participação
política.
Enquanto os nós não forem desfeitos, é possível
que o extremismo e o fanatismo, embora restritos a grupos minoritários,
sigam achando espaço para ensangüentar a história humana.
Alertas contra isso é o que não falta. Quatro séculos
antes de Cristo e dez séculos antes de Maomé, o grego Eurípedes
já se insurgia contra o fundamentalismo, contra a prática
de invocar os deuses para justificar guerras e carnificinas. Suas peças
são um libelo de desmistificação dos sacerdotes,
dos generais, dos políticos enfim, dos poderosos de seu
tempo. E investem contra o uso que essa elite fazia da adoração
aos deuses como razão para praticar seus desmandos. Na peça
Electra, Eurípedes denuncia o abuso que os homens fazem
do culto a Apolo para cometer seus pequenos atos de terror. Em outra peça,
Mulheres de Tróia, desmantela moralmente os políticos
por promoverem guerras em nome dos deuses. Quem sabe a lição
do grego ainda triunfe e os radicais islâmicos deixem de
voar contra edifícios.
|
A
cara das guerras
Confira
como mudou a natureza dos conflitos nos últimos 500 anos, período
em que se consolidou o domínio da civilização cristã e ocidental
no mundo
|
ENTRE
MONARQUIAS
|
| Quando,
a partir de 1500, a cultura ocidental começa a se impor no mundo,
os conflitos se dão, basicamente, entre príncipes, imperadores
e monarcas que tentam expandir seu poder, seu comércio, suas
fronteiras. Essa situação perdurará até a Revolução Francesa,
em 1789 |
|
ENTRE
NAÇÕES
|
| A
partir da Revolução Francesa, consolida-se a idéia de Estado-nação
e as guerras passam a adquirir caráter nacional, de expansão
territorial de uma nação e seu povo. Essa característica se
manterá até a Revolução Russa, em 1917 |
|
ENTRE
IDEOLOGIAS
|
| Com
a criação da União Soviética, surge uma superpotência comunista,
que rivalizará com o mundo capitalista, liderado pelos EUA.
A disputa ideológica passa a ser o fio condutor dos conflitos
- uma situação que só mudará com a queda do Muro de Berlim,
em 1989 |
|
ENTRE
CIVILIZAÇÕES
|
| Com
o fim da Guerra Fria e o triunfo do império americano, os conflitos
perdem sua matriz ideológica e ganham tons cultural e religioso,
de rivalidade entre Ocidente e Oriente, entre cristãos e islâmicos.
Para alguns estudiosos, é a fase do conflito entre civilizações |
|

Veja também |
|
|
|
|
|
 |
|
 |

|
 |