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Edição 1 718 - 19 de setembro de 2001
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As escolas de terrorismo
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O inimigo número 1
da América

Depois de Khomeini, Kadafi
e Saddam Hussein, o mundo
islâmico produz outro pesadelo
para os Estados Unidos:
o terrorista Osama bin Laden


AFP

"Juramos todos os americanos de morte, sem distinção entre civis e militares."
Osama bin Laden, em 1998

Há três anos, quando Bill Clinton era presidente , o saudita Osama bin Laden foi acusado de explodir as embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia. George W. Bush herdou de seu antecessor a tarefa de caçá-lo. Ainda mais agora que Laden desponta como o principal suspeito da monstruosidade perpetrada na semana passada

Ao longo da história, o mal exibiu várias feições. Ele já teve os traços de Átila, o Huno, do mongol Gêngis Khan, do austríaco Adolf Hitler, do soviético Josef Stalin, do cambojano Pol Pot e do ugandense Idi Amin Dada. Hoje, o mal não comanda um exército, não mora em um palácio, não discursa a multidões. Seu rosto é o do saudita Osama bin Laden. Ele está sendo apontado como o provável cérebro por trás do ataque ao coração do império americano. Laden seria o responsável pelos atentados simultâneos às embaixadas dos Estados Unidos no Quênia e na Tanzânia, em 1998, que causaram a morte de 224 pessoas. Ele também teria perpetrado a explosão de um navio americano na costa do Iêmen, em outubro do ano passado, que resultou em dezessete marinheiros mortos. Credita-se a Laden, ainda, o suporte técnico, por assim dizer, ao primeiro atentado ao World Trade Center, em 1993, que contou seis vítimas fatais. O terrorista é tão mais assustador porque está sempre associado a um verbo no condicional – ele seria, ele teria. Laden jamais reivindicou a autoria das brutalidades que levam a sua marca. Assassina, massacra e amedronta, mas se mantém na sombra, renunciando ao narcisismo que costuma caracterizar as ações terroristas.

Laden é fruto de uma modalidade que surgiu em 1979, com a ascensão do aiatolá Khomeini, no Irã: o terrorismo de Estado. Esse foi o caminho escolhido por tiranos muçulmanos para fustigar principalmente o que julgam ser o "Grande Satã" – os Estados Unidos. Trata-se de uma visão que mistura fundamentalismo religioso, oportunismo doméstico e obscurantismo.

Seu alimento é o apoio americano a Israel. A primeira manifestação do terrorismo de Estado foi o endosso do regime dos aiatolás à invasão da embaixada dos Estados Unidos em Teerã por um grupo de jovens fanáticos. Os 65 reféns permaneceram por mais de um ano em poder dos invasores e o episódio serviu para enfraquecer politicamente o presidente Jimmy Carter. Na década de 80, o ditador líbio Muamar Kadafi colocou sob sua proteção o palestino Abu Nidal, autor das chacinas nos aeroportos de Roma e de Viena, em 1985, em que morreram dezoito pessoas. Além de patrocinar terroristas, Kadafi disparava bravatas que hoje soam como profecias. "Perseguiremos cidadãos americanos nas ruas de suas próprias cidades", afirmou numa ocasião. Em 1986, ele ordenou um ataque a navios dos Estados Unidos que navegavam perto da costa líbia. O presidente Ronald Reagan mandou, então, bombardear o país. Kadafi, o gabola, amansou bastante depois disso. Outro inimigo dos Estados Unidos, o iraquiano Saddam Hussein, pagou caro pela ousadia de ter invadido o Kuwait, em 1990, colocando em risco o abastecimento de petróleo ao Ocidente e deflagrando a Guerra do Golfo. Foi humilhado pelo presidente George Bush, mas continua a hostilizar os americanos. Na terça-feira passada, a TV do Iraque saudou os atos infames que atingiram Nova York e Washington como "a operação do século". Um porta-voz do governo iraquiano comentou no ar: "O caubói americano está colhendo os frutos dos seus crimes contra a humanidade".

Para os Estados Unidos, Saddam Hussein transformou-se numa espécie de resfriado. Incomoda, sem comprometer a saúde. Já Osama bin Laden é um câncer que, agora mais do que nunca, precisa ser extirpado. O terrorista não tem patrocínio oficial de nenhum país muçulmano, mas é admirado como herói em vários deles e vive na condição de hóspede especial do Afeganistão, no qual mantém esconderijos (inclusive uma caverna). Não se sabe ao certo a data de seu nascimento, no final dos anos 50. Laden é o décimo sétimo dos 52 filhos que o construtor Mohammed bin Laden, uma das maiores fortunas da Arábia Saudita, teve com várias mulheres. Formado em engenharia civil e agronomia, ele começou sua vida de militante islâmico em 1979, quando o Afeganistão se viu invadido por tropas soviéticas. Muçulmanos de diferentes procedências juntaram-se aos guerrilheiros fundamentalistas do Talibã e de outras facções na defesa do país contra a superpotência comunista. Como não poderia deixar de ser, dentro da lógica maniqueísta da Guerra Fria, o enfrentamento com a União Soviética recebeu apoio dos Estados Unidos. Nesse ponto, reside uma grande ironia: o atual inimigo número 1 dos americanos pode ter recebido treinamento da CIA, que gastou 3 bilhões de dólares para ajudar os rebeldes afegãos. Os soviéticos se retiraram depois de dez anos de conflito. A vitória serviu de estímulo para que se formassem grupos de fanáticos fundamentalistas em outras nações islâmicas. Sua premissa: se havia sido possível derrotar a União Soviética, não era impossível vencer Israel e seu maior aliado, os Estados Unidos. Mais tarde, Laden tomaria para si a tarefa de fazer com que essas organizações se conectassem.

Terminada a guerra no Afeganistão, o terrorista voltou para a Arábia Saudita e passou a trabalhar nas empresas do pai. Em 1991, quando seu país resolveu apoiar os Estados Unidos contra o Iraque, Laden decidiu que sua missão seria libertar os territórios sagrados do Islã – Arábia Saudita e Israel – do "domínio dos infiéis". Ou seja, da influência ocidental. Opositor do regime saudita, Laden foi expulso e teve sua cidadania cassada. Nos primeiros cinco anos de desterro, ele refugiou-se no Sudão, onde abriu uma construtora e uma transportadora. Banido em 1996, por pressão dos americanos, foi acolhido pelo Afeganistão. Seu bando, chamado Al Qaeda ("A Base", em árabe), "terceiriza" terroristas pertencentes a diversos grupos. Dessa rede macabra, calcula-se que façam parte 3.000 facínoras. Laden financia seus atentados com o próprio dinheiro – é dono de uma fortuna estimada em 270 milhões de dólares – e com o que arrecada entre os simpatizantes de sua "causa".

Os Estados Unidos pediram várias vezes ao Afeganistão a extradição de Laden. Em vão. Diante da negativa, espalharam cartazes de "procura-se" pelo Oriente Médio e ofereceram uma recompensa de 5 milhões de dólares por sua captura. Nos últimos anos, Laden deu entrevistas à imprensa inglesa e à americana. "A toda ação corresponde uma forma de reação", declarou à rede de televisão ABC, em 1998. "Os americanos nunca fizeram distinção entre civis e militares. Eles não jogaram a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki? Não apoiaram os massacres de crianças e adolescentes na Palestina? Nossa fatwa (sentença de morte) se dirige, então, a todos os americanos. Nós não os diferenciamos pelos trajes." Em Nova York e Washington, essas palavras transubstanciaram-se num banho de sangue. Mesmo se não for responsável pelo ataque infame ao World Trade Center e ao Pentágono, Osama bin Laden tem uma folha corrida que justifica sua fama e as novas e terríveis suspeitas que agora pesam sobre ele.

 

"Os americanos vão nadar em seu próprio sangue."
Saddam Hussein, em 1991

O ditador iraquiano Saddam Hussein invadiu o Kuwait, mas foi humilhado por George Bush na Guerra do Golfo. Ainda no poder, hostiliza os americanos. Seu governo definiu os atentados em Nova York e Washington como a "operação do século"

 

"Humilhamos a América."
Muamar Kadafi, em 1986

Na década de 80, o ditador líbio abrigou o terrorista palestino Abu Nidal, responsável por atentados em Roma e Viena. O presidente americano o enquadrou, ao bombardear a Líbia em 1986, depois que Kadafi ordenou ataques a navios americanos. Hoje, o tirano gabola está mais manso

 

"Os Estados Unidos são o Grande Satã."
Aiatolá Khomeini, em 1979

O aiatolá Khomeini inaugurou o terrorismo de Estado, ao endossar a invasão da embaixada americana em Teerã, em 1979. Os reféns só foram soltos mais de um ano depois, o que enfraqueceu o presidente Jimmy Carter

 

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