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A morte no fogo,
num
salto ou no desabamento
Como
os pilotos suicidas conseguiram
destruir
as torres feitas para resistir
a colisões,
incêndios e tremores?
Juntaram
tudo isso num atentado
Reuters
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SEM
SAÍDA
Um helicóptero que passava diante das janelas estreitas era a última
esperança de pessoas acuadas pelo fogo. Ele não pôde ajudá-las |

Veja também |
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As
torres gêmeas do World Trade Center foram construídas para
resistir ao impacto de um Boeing. E resistiram. Não caíram
quando os aviões entraram pelas janelas, numa manobra que revelou
a enorme perícia de quem os pilotava. O modo como os terroristas
acertaram os prédios dá indícios de um planejamento
milimétrico. Na velocidade máxima, acima dos 800 quilômetros
por hora, um grande avião empurra tamanha quantidade de ar a sua
frente que é virtualmente impossível que acerte um paredão
numa colisão frontal. "A turbulência seria tão forte
diante da parede que tiraria o Boeing da trajetória", explica David
Barioni Neto, vice-presidente técnico da companhia aérea
Gol. Por isso eles voaram mais lentamente calcula-se que a 450
quilômetros por hora e optaram pela trajetória curva
para chegar ao objetivo. No caso do Pentágono, em que não
há imagens do momento do impacto, o problema é parecido.
Descer uma aeronave de 115 toneladas numa pista de aeroporto exige combinar
velocidade e aerodinâmica com equipamentos de precisão. Pousar
sobre um alvo específico é quase uma loteria. Em todos os
momentos, os extremistas mostraram o conhecimento de quem passou muito
tempo num simulador de vôo, além de prática efetiva.
Desligaram, por exemplo, os transponders que emitem sinais eletrônicos
sobre a localização das aeronaves. Passaram também
a voar em baixa altitude, fora do alcance dos radares. E,
pelo menos num caso, foram eles que mandaram os passageiros ligar por
celular para avisar do seqüestro.
Rubens Chaves
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ESTILO
AMERICANO
Um shopping no subsolo (foto) e festas de casamento nas alturas.
O World Trade Center era mais que um cartão-postal destinado
a entreter turistas |
Queriam
publicidade máxima de seus atos e agiram como se tivessem antecipado
o cenário que construiriam. Mesmo bastante avariadas, as torres
não teriam caído só com os choques dos 767 contra
suas estruturas. Cada aeronave colidiu contra as armações
de aço e vidro com uma força de impacto equivalente a mais
de 1 000 vezes o próprio peso. A maior parte da estrutura dos aviões
é de alumínio. Numa batida dessas, seu corpo vai se deformando,
franzindo, até transferir sobre a superfície atingida uma
força capaz de rasgá-la. Nesse ponto, tudo o que está
em seu interior já foi arremessado para a frente como se houvesse
uma freada instantânea. Só então o resto da fuselagem
penetra na estrutura. Quando isso aconteceu, os prédios tremeram,
oscilaram e rangeram, como contam os sobreviventes do atentado terrorista
em Nova York, mas se mantiveram de pé. Muita gente que estava nos
andares inferiores escapou da morte na hora seguinte. Pessoas que estavam
acima do 103º andar no edifício norte, o primeiro a ser acertado,
ou do 93º da torre sul não tiveram a mesma chance. Os aviões
em chamas praticamente dividiram seus alvos em dois blocos. Tudo o que
havia nos pavimentos diretamente atingidos, móveis e pessoas, foi
pulverizado pela explosão ou arremessado para fora pelo deslocamento
de ar. Quem estava acima do ponto de colisão não tinha chance
de passar pela parede de chamas que tomou quase dez andares de cada construção.
Todas essas pessoas acabariam morrendo no fogo, num salto de mais
de 300 metros ou no desabamento.
Foram os incêndios, combinados com uma característica tecnológica
dos arranha-céus, que os puseram abaixo. No impacto, cada área
atingida alcançou imediatamente a temperatura de 450 graus Celsius,
o ponto de combustão do querosene de aviação. Cada
Boeing levava combustível suficiente para voar por mais 4.000 quilômetros
ou para queimar por algumas horas. Divisórias e móveis
de madeira e plástico incendiaram-se também. A temperatura
chegou aos 1.000 graus. O aço não se funde nesse ponto,
mas perde dureza. Sustentados pelas colunas de aço de sua armação
exterior, como gaiolas, os edifícios tiveram várias delas
cortadas pelo efeito faca da penetração dos aviões.
Depois, chegaram depressa ao ponto de colapso estrutural por causa do
peso nas partes superiores aos pontos em que aconteceram os choques. O
topo de cada torre sustentava um engenho cuja função era
contrabalançar os efeitos do vento. Para garantir a resistência
da estrutura a ventanias de até 320 quilômetros por hora,
que deslocavam lateralmente a parte mais alta dos edifícios mais
de 1 metro, essa placa de aço e concreto, montada sobre roletes,
movia-se sempre na direção oposta à inclinação,
impedindo que se alterasse o centro de gravidade do conjunto.
Essa plataforma pesava 600 toneladas. Cada laje dos blocos tinha mais
40 toneladas. Havia dezoito lajes acima dos andares avariados na torre
sul e oito sobre os que ardiam no outro prédio. Quando o aço
começou a se deformar, pelo calor, todo esse volume veio abaixo
e funcionou como um martelo um martelo que ganhava mais peso a
cada andar que ia sendo esmagado. Técnicos em edificações
supõem que os terroristas imaginaram esse efeito cascata de destruição
ao planejar os atentados. "Se tivessem atingido o primeiro terço
inferior dos prédios provavelmente eles ainda estariam de pé",
diz o arquiteto paulista Rubens Ascoli Brandão, que defendeu há
quatro anos uma tese sobre o World Trade Center. "As colunas externas,
que seguram tudo, começam muito grossas embaixo e vão afinando
à medida que têm de suportar menos peso." No ponto em que
acertaram, os pilotos conseguiram produzir os piores efeitos. O World
Trade Center agüentou os aviões, agüentaria focos de
incêndio e até bombas. Mas impacto, chamas e explosões
foram agressões demais.
"Na
hora da pancada, o chão se mexeu e eu me senti como se estivesse
pisando numa gelatina", recorda o brasileiro Guilherme Castro, de 27 anos,
funcionário de uma corretora que ocupava o 25º andar da primeira
torre atingida. Na descida, ele encontrou uma escada bloqueada. Voltou
e tomou outro caminho. Mais no alto, as torres tinham andares livres
o 44º e o 78º , com casas de máquinas e grandes
vãos horizontais para passagem de vento. Nesses pontos, era difícil
encontrar a continuação das escadas. Houve quem morresse
por causa disso. Quando Castro finalmente chegou à calçada,
ouviu um estrondo ao passar por vítimas que eram socorridas na
rua por bombeiros e policiais. Era o avião que atingia a segunda
torre. Em seguida, vieram os desabamentos. Uma enorme nuvem de pó
rolou sobre as ruas. Ela também penetrou no sistema de metrô
da cidade, pelas estações que ficavam embaixo do World Trade
Center, e seguiu por quilômetros dentro dos túneis. Os subterrâneos
do complexo foram soterrados. "Estávamos bem lá embaixo
quando o metrô parou", recorda Luciana Salles, que ia com o marido,
Alexandre, visitar a Estátua da Liberdade. "Um funcionário
nos guiou pelos trilhos, no meio da poeira, até uma grade de ventilação.
Saímos numa rua repleta de corpos e pedaços de pessoas."
Era tal a quantidade de pó e fumaça sobre Nova York que
o fog pôde ser visto até por astronautas embarcados na Estação
Espacial Internacional, que sobrevoava o Estado do Maine na manhã
da terça-feira, a mais de 300 quilômetros de altura. O impacto
dos Boeing com a estrutura de aço também repercutiu longe.
Um deles foi registrado numa estação de sismologia da Universidade
Columbia, a 20 quilômetros do centro de Nova York. Na escala que
mede terremotos, alcançou 2,4 pontos um tremor bastante
sensível para quem via o horror a partir das ruas. Os prédios
foram construídos com fundações que penetram por
mais de 20 metros numa camada de rocha abaixo dos seis subsolos. As mortes
de quem saltava, transmitidas para todo o planeta, foram vistas ao vivo
por mais de 150 milhões de pessoas. Por que eles saltavam? Por
que não aguardaram pelo socorro até o último momento?
"Porque o suicídio é uma reação-limite mas
esperada do ser humano", diz Márcio Bernik, coordenador do Ambulatório
de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da USP. "Diante da certeza de
uma morte lenta e sofrida, as pessoas acabam escolhendo um meio mais rápido."
Um bombeiro que atuou no incêndio do prédio Joelma, em São
Paulo, há 27 anos, conta que o calor era tão intenso que
a pele de seu rosto, seu pescoço e suas mãos começou
a se soltar. No World Trade Center, a temperatura era muito maior. Ainda
houve quem esperasse por socorro, nas janelas, e um helicóptero
se aproximou da torre norte a ponto de dar às pessoas a esperança
de resgate. Minutos depois o outro prédio ruiu, e a operação
se revelou impossível.
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