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Edição 1 718 - 19 de setembro de 2001
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O abalo econômico e a reação mundial
As escolas de terrorismo
Um dia de transtornos até no Brasil
O medo ancestral da invasão


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AFP

TERRA ARRASADA
Poeira cobre mulher que escapou do desabamento: prédios destruídos formam nuvem de pó sobre a rua

O ataque da semana passada tem a assinatura de um tipo particularmente terrível de terrorismo, cuja motivação é o fanatismo muçulmano. Diferente do terrorismo clássico, que opera em território definido e pretende representar o interesse de determinada parcela da população, o terror islâmico só fala em seu próprio nome e pode estar sediado em qualquer lugar. Não envia soldados em submarinos nem dispõe de uma máquina de guerra detectável pelos radares. Seus soldados surgem das sombras, dispostos a morrer junto com suas vítimas, o que torna mais difícil prevenir os ataques. "Covardes que não mostram a cara", nas palavras do presidente Bush. Ele foi eleito com o diagnóstico correto de que os Estados Unidos são vulneráveis a um ataque. O erro estava no remédio. Bush planeja instalar um sistema bilionário contra ataques nucleares, o escudo contra mísseis. Os ataques da semana passada mostram, no entanto, que o país é altamente suscetível às surpresas do golpe terrorista. A ameaça mais premente não está nos artefatos bélicos enviados por nações fora-da-lei, mas em simples bombas escondidas em maletas. Tudo de que os terroristas precisaram para criar o cenário de morte e destruição em Nova York e Washington foram passagens aéreas e facas.

Os americanos gastam 30 bilhões de dólares por ano em inteligência, e só a CIA, o serviço de espionagem, tem 2.000 agentes no exterior. O sistema caríssimo de vigilância eletrônica por satélites é capaz de fazer fotos tão detalhadas que se podem identificar pontas de cigarros jogadas fora pelos guerrilheiros no Afeganistão. A rede de vigilância envolve ainda aviões, navios e 5.000 pontos de captação de informações no mundo inteiro. A tecnologia empregada permite rastrear uma ligação de celular em qualquer lugar. Como nada disso funcionou? Nenhum dos treze órgãos encarregados de monitorar, receber e analisar todo tipo de informações relacionadas à segurança conseguiu evitar a entrada no país e a comunicação entre os terroristas. Não espanta tanto o frágil sistema de segurança nos congestionadíssimos aeroportos americanos. Mais difícil de explicar é como são tão desprotegidas até mesmo as instalações militares e a sede do governo em Washington. A hesitação em voltar a Washington pode valer pontos negativos na popularidade do presidente Bush, mas tinha fundamentos mais fortes. Como se saberia depois, a Casa Branca e o avião presidencial, o Air Force One, estavam entre os alvos dos terroristas na terça-feira passada.


Reuters

A FAVOR DO TERRORISMO
Palestinos comemoram atentados contra os americanos em um campo de refugiados no Líbano: alegria com a desgraça do "grande Satã"


Parte dos problemas em evitar os ataques decorre do caráter especial do terrorismo islâmico. Os espiões americanos têm dificuldade em infiltrar os grupos, pois não são bem-vindos nem podem contar com a colaboração das autoridades na maioria dos países muçulmanos. Mas operações de grande porte deixam pistas bem concretas. Para um homem-bomba na Palestina basta enrolar explosivos em torno da cintura e procurar vítimas indefesas entre os israelenses. Um ataque como o da semana passada exige planejamento sistemático, boa organização, bases de apoio e algum dinheiro. Não é possível improvisar numa operação dessa magnitude. O FBI acredita que cada avião foi tomado por um grupo de quatro ou cinco homens. Outra meia centena de conspiradores fez o trabalho de retaguarda. Por que os americanos, tão bem equipados tecnologicamente, tão armados de sistemas de segurança, não tomaram conhecimento de um movimento sequer desses criminosos?

 

Reuters
AP
ASSASSINOS IDENTIFICADOS
A polícia americana já tinha identificado, na sexta-feira passada, pelo menos dezenove dos terroristas. Eram, na maioria, sauditas. O FBI acredita que Mohamed Atta (à esq.), 33 anos, pilotou o Boeing que primeiro bateu no World Trade Center. Marwan Shehhi, 23 (à dir.), morreu no segundo avião a se chocar contra as torres

A última vez que os Estados Unidos testemunharam um ataque terrorista de grandes proporções foi em 1995, na cidade de Oklahoma, com 168 mortos. Foram rápidos em acusar fanáticos muçulmanos. Logo descobriram que o culpado era um fanático doméstico, Timothy McVeigh. Réu confesso, foi executado em junho. A comunidade árabe nos Estados Unidos costuma usar o episódio como comprovação de preconceito e discriminação. Há mais de 1 bilhão de muçulmanos espalhados por quase todos os países. Na maioria, são moderados. A minoria radical, no entanto, tem uma disposição fanática para matar e morrer e se une num ódio incontrolável contra os Estados Unidos, em sua opinião um país satânico. Em sua visão, atacar o demônio americano garante ao fiel um lugar de honra no paraíso. Como se pode lidar com terroristas cujo objetivo é retornar ao século VIII? Eles não fazem exigências, não pedem dinheiro para libertar reféns. Só querem ver sangue. Os Estados Unidos tinham passado praticamente incólumes ao terrorismo. Há décadas a Europa e o Oriente Médio sofrem com bombas e tiroteios de várias maneiras. Só nos anos 90 houve os primeiros atentados, mas todos de pequena monta. O mais sério foi perpetrado exatamente contra o World Trade Center, em 1993. Um grupo de egípcios, paquistaneses e palestinos colocou um carro-bomba no subsolo de uma das torres gêmeas, matando seis pessoas. O objetivo era convencer os Estados Unidos de que estavam em guerra com o Islã. É espantoso que, apesar disso, a maioria dos americanos se acreditava livre dos horrores vistos em outros países pela televisão. Os planos de contingência previam ataques com armas biológicas ou químicas – ninguém imaginou seqüestradores armados com facas em aviões comerciais.


AP

CIDADE DEVASTADA
Bombeiros trabalham entre os escombros do World Trade Center. Ruas e pontes fechadas no coração financeiro dos Estados Unidos


O governo americano já tem provas suficientes para responsabilizar o fundamentalismo islâmico. Dezenove dos seqüestradores que morreram nos ataques já tinham sido identificados na sexta-feira passada, assim como duas dúzias de terroristas que participaram da logística. São todos árabes, vários usavam passaportes sauditas. Meia dúzia deles freqüentou escolas de pilotagem na Flórida e em Boston. No mundo islâmico, as reações variaram da reprovação ao terrorismo à saudação dos ataques como um ato de vingança contra os Estados Unidos. Muitos muçulmanos se cansaram das sanções aplicadas pelos americanos ao Iraque ou estão indignados com o sofrimento dos palestinos sob ocupação militar israelense. Há notícias de que Bin Laden está particularmente irritado com o apoio de Washington a Israel. Se for esse o caso, acaba de destruir com seu atentado insano as reservas de simpatia mundial em relação ao povo palestino. Pode-se até dizer que a partir de agora os americanos devem mostrar-se mais compreensivos diante da brutal reação israelense ao terrorismo islâmico. Do ponto de vista do fundamentalismo islâmico, é bom que se diga, a questão da criação de um Estado palestino independente é um detalhe secundário numa guerra maior: a que visa a impor sua versão fanática do Islã a todo o mundo. Nesse aspecto, o que os fundamentalistas não suportam em Israel não é a opressão de uma população sob ocupação, mas o fato de o Estado judeu ser a presença ocidental mais perto de suas mesquitas. Se destruíssem Israel, o que viria depois? Os terríveis atentados nos Estados Unidos dão idéia do que são capazes


AP

EM BUSCA DA RESPOSTA
O presidente Bush considerou os ataques um "ato de guerra" e prometeu caçar os responsáveis e punir os países que derem cobertura aos terroristas


Apesar dos prognósticos de que os Estados Unidos podem tornar-se menos cordiais em suas relações internacionais, o mundo tende a se transformar em um só. Também nesse aspecto há mudanças em curso. A oposição à globalização já existia como fenômeno ambientalista, de minorias, das ONGs e dos sindicatos. Agora também deve levar em conta essa nova complicação: o Islã como fonte de preocupação para a paz mundial. A globalização incomoda a turma do turbante pela modernidade que traz no bojo. O fundamentalismo islâmico é, em boa medida, a manifestação de uma elite que exerce sobre seus povos uma tirania milenar, baseada na religião e nos costumes imutáveis. Se é contra a civilização ocidental é porque não pode conviver com seus princípios básicos, notadamente a liberdade política e individual. O universo dos fundamentalistas é aquele em que se queimam livros, se proíbem filmes e música. As mulheres são cobertas de véus e devem submissão ao poder masculino. Os fundamentalistas usam Deus como desculpa para todas as coisas – inclusive as mais terríveis atrocidades, como as cometidas em Nova York e Washington. Os aviões da semana passada não foram jogados contra prédios, mas contra um sistema de vida. Esta guerra está apenas começando.



   
 

 

 

   
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