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AFP

TERRA
ARRASADA
Poeira cobre mulher que escapou do desabamento: prédios destruídos
formam nuvem de pó sobre a rua |
O
ataque da semana passada tem a assinatura de um tipo particularmente terrível
de terrorismo, cuja motivação é o fanatismo muçulmano.
Diferente do terrorismo clássico, que opera em território
definido e pretende representar o interesse de determinada parcela da população,
o terror islâmico só fala em seu próprio nome e pode
estar sediado em qualquer lugar. Não envia soldados em submarinos
nem dispõe de uma máquina de guerra detectável pelos
radares. Seus soldados surgem das sombras, dispostos a morrer junto com
suas vítimas, o que torna mais difícil prevenir os ataques.
"Covardes que não mostram a cara", nas palavras do presidente Bush.
Ele foi eleito com o diagnóstico correto de que os Estados Unidos
são vulneráveis a um ataque. O erro estava no remédio.
Bush planeja instalar um sistema bilionário contra ataques nucleares,
o escudo contra mísseis. Os ataques da semana passada mostram, no
entanto, que o país é altamente suscetível às
surpresas do golpe terrorista. A ameaça mais premente não
está nos artefatos bélicos enviados por nações
fora-da-lei, mas em simples bombas escondidas em maletas. Tudo de que os
terroristas precisaram para criar o cenário de morte e destruição
em Nova York e Washington foram passagens aéreas e facas.
Os americanos gastam 30 bilhões de dólares por ano em inteligência,
e só a CIA, o serviço de espionagem, tem 2.000 agentes no
exterior. O sistema caríssimo de vigilância eletrônica
por satélites é capaz de fazer fotos tão detalhadas
que se podem identificar pontas de cigarros jogadas fora pelos guerrilheiros
no Afeganistão. A rede de vigilância envolve ainda aviões,
navios e 5.000 pontos de captação de informações
no mundo inteiro. A tecnologia empregada permite rastrear uma ligação
de celular em qualquer lugar. Como nada disso funcionou? Nenhum dos treze
órgãos encarregados de monitorar, receber e analisar todo
tipo de informações relacionadas à segurança
conseguiu evitar a entrada no país e a comunicação
entre os terroristas. Não espanta tanto o frágil sistema
de segurança nos congestionadíssimos aeroportos americanos.
Mais difícil de explicar é como são tão desprotegidas
até mesmo as instalações militares e a sede do governo
em Washington. A hesitação em voltar a Washington pode valer
pontos negativos na popularidade do presidente Bush, mas tinha fundamentos
mais fortes. Como se saberia depois, a Casa Branca e o avião presidencial,
o Air Force One, estavam entre os alvos dos terroristas na terça-feira
passada.
Reuters

A
FAVOR DO TERRORISMO
Palestinos comemoram atentados contra os americanos em um campo de
refugiados no Líbano: alegria com a desgraça do "grande Satã" |
Parte dos problemas em evitar os ataques decorre do caráter especial
do terrorismo islâmico. Os espiões americanos têm dificuldade
em infiltrar os grupos, pois não são bem-vindos nem podem
contar com a colaboração das autoridades na maioria dos
países muçulmanos. Mas operações de grande
porte deixam pistas bem concretas. Para um homem-bomba na Palestina basta
enrolar explosivos em torno da cintura e procurar vítimas indefesas
entre os israelenses. Um ataque como o da semana passada exige planejamento
sistemático, boa organização, bases de apoio e algum
dinheiro. Não é possível improvisar numa operação
dessa magnitude. O FBI acredita que cada avião foi tomado por um
grupo de quatro ou cinco homens. Outra meia centena de conspiradores fez
o trabalho de retaguarda. Por que os americanos, tão bem equipados
tecnologicamente, tão armados de sistemas de segurança,
não tomaram conhecimento de um movimento sequer desses criminosos?
Reuters
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AP
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ASSASSINOS
IDENTIFICADOS
A polícia americana já tinha identificado, na sexta-feira
passada, pelo menos dezenove dos terroristas. Eram, na maioria, sauditas.
O FBI acredita que Mohamed Atta (à esq.), 33 anos, pilotou
o Boeing que primeiro bateu no World Trade Center. Marwan Shehhi,
23 (à dir.), morreu no segundo avião a se chocar
contra as torres |
A
última vez que os Estados Unidos testemunharam um ataque terrorista
de grandes proporções foi em 1995, na cidade de Oklahoma,
com 168 mortos. Foram rápidos em acusar fanáticos muçulmanos.
Logo descobriram que o culpado era um fanático doméstico,
Timothy McVeigh. Réu confesso, foi executado em junho. A comunidade
árabe nos Estados Unidos costuma usar o episódio como comprovação
de preconceito e discriminação. Há mais de 1 bilhão
de muçulmanos espalhados por quase todos os países. Na maioria,
são moderados. A minoria radical, no entanto, tem uma disposição
fanática para matar e morrer e se une num ódio incontrolável
contra os Estados Unidos, em sua opinião um país satânico.
Em sua visão, atacar o demônio americano garante ao fiel
um lugar de honra no paraíso. Como se pode lidar com terroristas
cujo objetivo é retornar ao século VIII? Eles não
fazem exigências, não pedem dinheiro para libertar reféns.
Só querem ver sangue. Os Estados Unidos tinham passado praticamente
incólumes ao terrorismo. Há décadas a Europa e o
Oriente Médio sofrem com bombas e tiroteios de várias maneiras.
Só nos anos 90 houve os primeiros atentados, mas todos de pequena
monta. O mais sério foi perpetrado exatamente contra o World Trade
Center, em 1993. Um grupo de egípcios, paquistaneses e palestinos
colocou um carro-bomba no subsolo de uma das torres gêmeas, matando
seis pessoas. O objetivo era convencer os Estados Unidos de que estavam
em guerra com o Islã. É espantoso que, apesar disso, a maioria
dos americanos se acreditava livre dos horrores vistos em outros países
pela televisão. Os planos de contingência previam ataques
com armas biológicas ou químicas ninguém imaginou
seqüestradores armados com facas em aviões comerciais.
AP

CIDADE
DEVASTADA
Bombeiros trabalham entre os escombros do World Trade Center. Ruas
e pontes fechadas no coração financeiro dos Estados
Unidos |
O governo americano já tem provas suficientes para responsabilizar
o fundamentalismo islâmico. Dezenove dos seqüestradores que
morreram nos ataques já tinham sido identificados na sexta-feira
passada, assim como duas dúzias de terroristas que participaram
da logística. São todos árabes, vários usavam
passaportes sauditas. Meia dúzia deles freqüentou escolas
de pilotagem na Flórida e em Boston. No mundo islâmico, as
reações variaram da reprovação ao terrorismo
à saudação dos ataques como um ato de vingança
contra os Estados Unidos. Muitos muçulmanos se cansaram das sanções
aplicadas pelos americanos ao Iraque ou estão indignados com o
sofrimento dos palestinos sob ocupação militar israelense.
Há notícias de que Bin Laden está particularmente
irritado com o apoio de Washington a Israel. Se for esse o caso, acaba
de destruir com seu atentado insano as reservas de simpatia mundial em
relação ao povo palestino. Pode-se até dizer que
a partir de agora os americanos devem mostrar-se mais compreensivos diante
da brutal reação israelense ao terrorismo islâmico.
Do ponto de vista do fundamentalismo islâmico, é bom que
se diga, a questão da criação de um Estado palestino
independente é um detalhe secundário numa guerra maior:
a que visa a impor sua versão fanática do Islã a
todo o mundo. Nesse aspecto, o que os fundamentalistas não suportam
em Israel não é a opressão de uma população
sob ocupação, mas o fato de o Estado judeu ser a presença
ocidental mais perto de suas mesquitas. Se destruíssem Israel,
o que viria depois? Os terríveis atentados nos Estados Unidos dão
idéia do que são capazes
AP

EM
BUSCA DA RESPOSTA
O presidente Bush considerou os ataques um "ato de guerra" e prometeu
caçar os responsáveis e punir os países que derem cobertura aos terroristas |
Apesar dos prognósticos de que os Estados Unidos podem tornar-se
menos cordiais em suas relações internacionais, o mundo
tende a se transformar em um só. Também nesse aspecto há
mudanças em curso. A oposição à globalização
já existia como fenômeno ambientalista, de minorias, das
ONGs e dos sindicatos. Agora também deve levar em conta essa nova
complicação: o Islã como fonte de preocupação
para a paz mundial. A globalização incomoda a turma do turbante
pela modernidade que traz no bojo. O fundamentalismo islâmico é,
em boa medida, a manifestação de uma elite que exerce sobre
seus povos uma tirania milenar, baseada na religião e nos costumes
imutáveis. Se é contra a civilização ocidental
é porque não pode conviver com seus princípios básicos,
notadamente a liberdade política e individual. O universo dos fundamentalistas
é aquele em que se queimam livros, se proíbem filmes e música.
As mulheres são cobertas de véus e devem submissão
ao poder masculino. Os fundamentalistas usam Deus como desculpa para todas
as coisas inclusive as mais terríveis atrocidades, como
as cometidas em Nova York e Washington. Os aviões da semana passada
não foram jogados contra prédios, mas contra um sistema
de vida. Esta guerra está apenas começando.
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