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A descoberta da vulnerabilidade
Fotos AP
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MERGULHO
FATAL
Com a torre norte já em chamas, os terroristas lançam o 767 da United
Airlines direto na torre sul do World Trade Center. O avião, com 65
pessoas a bordo, espatifa-se contra o prédio. A torre desabou uma
hora depois |
Durante
a maior parte da terça-feira passada, os assessores do presidente
dos Estados Unidos acharam que ele não deveria retornar a Washington.
Era perigoso demais. George W. Bush seria depois criticado por ter ziguezagueado
entre bases militares em vez de retomar logo sua cadeira no coração
do poder americano, a Casa Branca. O fato é que se temia outro
ataque terrorista bem-sucedido, dessa vez à sede da Presidência.
As implicações contidas na hesitação de Bush
são tremendas. Mostram até que ponto o mundo mudou depois
dos ataques às torres do World Trade Center e ao Pentágono.
A alteração mais imediata diz respeito ao fim do mito da
invulnerabilidade do território americano. O país mais poderoso
do mundo viu ícones de sua identidade nacional ser alvejados com
desconcertante facilidade. Por volta das 9 horas da manhã, dois
aviões de passageiros seqüestrados puseram abaixo as torres
gêmeas do World Trade Center, cujo destaque no horizonte de arranha-céus
de Nova York simbolizava a supremacia econômica da superpotência.
Um terceiro aparelho despencou sobre o Pentágono, sede do poder
militar do império, nos arredores de Washington. Um quarto avião
tomado por terroristas espatifou-se no solo em campo aberto, depois que
passageiros enfrentaram os seqüestradores. "Foi um ato de guerra",
definiu o presidente Bush. Tratou-se, de fato, de uma ofensiva terrorista
em larga escala, sem similar na história, com milhares de mortos
inocentes. Uma das primeiras coisas que se ouviram foi o clamor por revanche.
Os americanos acham que é preciso dar o troco mas contra
quem? "Não se trata apenas de capturar essas pessoas e fazer com
que paguem pelo que fizeram", disse o subsecretário de Defesa,
Paul Wolfowitz. "É
preciso também eliminar os santuários, os sistemas de apoio
e acabar com os Estados que patrocinam o terrorismo." Até sexta-feira
passada, o número oficial de mortos já ultrapassava 5 000,
cinco prédios nova-iorquinos tinham desabado e outros, com estruturas
abaladas, ameaçavam vir abaixo.

NOVA
YORK EM CHAMAS
Incêndios tomam conta das duas torres atingidas por aviões pilotados
por terroristas. A cidade perde dois marcos de sua paisagem |
Dez
anos atrás, depois do colapso da União Soviética,
o presidente George Bush, pai de George W., anunciou uma nova ordem mundial,
cuja base era o triunfo dos valores americanos e da democracia liberal.
Parecia que o derradeiro desafio da humanidade era promover o comércio
global. Vive-se agora uma realidade muito mais perigosa. A única
superpotência tornou-se alvo de fanáticos dispostos a tudo.
Como a nação mais poderosa do planeta pode proteger-se das
atrocidades terroristas? A questão talvez tenha de ser formulada
de outra forma: qual deve ser o papel dos Estados Unidos nessa nova conjuntura?
Bush pode decidir mudar sua política de distanciamento em relação
às áreas de conflito no exterior. Em vez de tomar decisões
unilaterais, como tem feito desde que assumiu, em janeiro, o presidente
pode admitir que os Estados Unidos sozinhos são incapazes de garantir
a própria segurança. Precisam da ajuda dos outros países
democráticos para uma ação conjunta e persistente
contra o terrorismo. Ou, ao contrário, talvez a Casa Branca resolva
ser ainda mais isolacionista, olhando para o próprio umbigo e tentando
manter longe as encrencas do Terceiro Mundo.
Os
acontecimentos empurraram o presidente dos EUA para um teste de liderança
que raros de seus antecessores enfrentaram. Em editorial, o influente
Washington Post diz que mesmo o presidente Roosevelt, depois do
ataque japonês em Pearl Harbor, podia ver um inimigo definido com
clareza. "A enormidade que confronta Bush exige habilidades difíceis
de encontrar em qualquer presidente, ainda mais em um com apenas oito
meses de mandato e sete anos de vida pública", escreveu o jornal.
O momento pertence aos guerreiros, reação natural diante
da enormidade da agressão. Não é de espantar que,
após os atentados, o tom do discurso americano tenha mudado. Desapareceu
como por mágica o relativismo cultural e seu corolário,
o respeito por aquilo que possa ser considerado politicamente correto.
O relativismo cultural, teoria formulada na década de 30 pelo antropólogo
americano Melville Jean Herskovitz, preconiza que nenhuma cultura é
superior a outra. Que cada uma deve ser entendida dentro de seu próprio
contexto e, por isso mesmo, não cabem comparações
entre elas. Em 1947, Herskovitz apresentou à Organização
das Nações Unidas uma "recomendação" para
que fossem respeitadas as culturas dos diferentes povos do mundo.
Mario Tama/Getty Images
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Mary Altaffer
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AP
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HORAS
DE PAVOR, MORTE E DESTRUIÇÃO
Na rua, nova-iorquinos usando máscaras contra a fumaça
fogem do desabamento iminente (no alto, à esq.). Sem
esperança de resgate no World Trade Center, o homem se joga
para a morte (no alto, à dir.). Bombeiros vasculham
os escombros após a queda dos prédios, numa paisagem
que lembra Hiroshima depois da bomba atômica (foto maior) |
É dessa perspectiva que alguns estudiosos acham possível
justificar, por exemplo, a prática de muçulmanos africanos
de extirpar o clitóris das adolescentes. Do relativismo cultural
nasceria na década de 80 o discurso politicamente correto, que
aboliu do vocabulário palavras e expressões que soam pejorativas
a minorias étnicas, homossexuais e portadores de deficiência
física. Entre os governos, o politicamente correto baniu de documentos
e discursos termos que pudessem soar chauvinistas e prepotentes. Com os
atentados, o relativismo sofreu um abalo: por alguns dias, pelo menos,
o mundo voltou a ser dividido entre países civilizados e nações
bárbaras. E, contra os bárbaros, políticos e analistas
pediram "vingança". Com a autoridade de veterano do Vietnã
e da Guerra Fria, o ex-secretário de Estado Henry Kissinger aconselhou
os americanos a cuidar dos feridos e restaurar algum tipo de vida normal,
como primeira resposta ao terrorismo. Depois, o governo deve empenhar-se
numa resposta persistente para levar à destruição
o sistema responsável pelo atentado. "A vitória não
virá num único ataque", afirma Samuel Berger, presidente
do Conselho de Segurança Nacional no governo Bill Clinton. "É
preciso desencadear uma guerra fria ao terror."
Fotos AP
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A
DOR DA
PERDA
Ambulâncias e familiares desesperados, nas ruas de Nova York:
esperança de encontrar sobreviventes |
Como Israel, os Estados Unidos estão ansiosos para demonstrar que
os ataques sempre serão respondidos. O problema óbvio da
retaliação é a dificuldade em identificar o alvo.
Na quinta-feira, o secretário de Estado, Colin Powell, confirmou
que o principal suspeito é o milionário saudita Osama bin
Laden. Fanático islâmico que se esconde no Afeganistão,
ele declarou guerra aos Estados Unidos em nome de Alá. Depois de
atentados contra a embaixada americana no Quênia e na Tanzânia,
em 1998, aviões e navios americanos bombardearam campos de treinamento
de Bin Laden e uma fábrica de medicamentos no Sudão, que
se acreditava estar produzindo e armazenando armas químicas para
terroristas mas tais ações tiveram pouco efeito.
Mesmo que se descubra que o Afeganistão está diretamente
envolvido, ataques aéreos não seriam decisivos naquele país
arruinado por mais de duas décadas de guerra civil e pela insana
política de retorno aos costumes medievais implantada pelo Taliban,
a milícia fundamentalista que domina a maior parte do território.
Diante do horror da destruição em Nova York, é improvável
que o governo ou a opinião pública fiquem satisfeitos com
uma simples retaliação aqui ou ali. "Não pensem que
um único contra-ataque vai eliminar do mundo o tipo de terrorismo
que nós vimos ontem", advertiu Colin Powell. "Isso vai exigir um
ataque múltiplo em várias dimensões." Só se
pode imaginar como será travada a guerra da superpotência
contra terroristas que se escondem nos grotões do Terceiro Mundo.
Com o fim das ideologias e depois dos atentados, o planeta está
agora obcecado pela segurança. Provavelmente os Estados Unidos
darão prioridade aos aliados que os ajudem na manutenção
da ordem. É o tipo de discussão da qual o Brasil geralmente
fica de fora.
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