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O novo terrorismo
Especialista
americano em atentados
diz que o estilo dos seqüestros mudou
e nem o Brasil agora está imune
Eduardo
Salgado
Às
9h43 da manhã de terça-feira passada, o americano Ian O.
Lesser, um consultor para temas de combate ao terrorismo, encontrava-se
no centro de Washington. Caso estivesse trabalhando na sala que ocupa
na Rand, uma renomada instituição de pesquisa sem fins lucrativos
que presta serviço para a CIA e para o Departamento de Estado americano,
ele teria visto, de sua janela, o Pentágono pegando fogo, alvo
de um ataque terrorista. Dono de um diploma de doutorado em relações
internacionais pela Universidade de Oxford, Lesser fez parte da equipe
de planejamento de políticas de segurança internacional
do Departamento de Estado durante o governo de Bill Clinton. Nesse período,
foi responsável pelos países mediterrâneos e participou
do processo de paz do Oriente Médio. Criada em 1948, a Rand amealhou
vasta experiência em questões de estratégia internacional,
bem como em foguetes e satélites, a começar pela demanda
do primeiro cliente que teve, a Força Aérea Americana. O
co-autor do livro Contra-Ataque ao Novo Terrorismo (Countering the
New Terrorism), publicado há dois anos, diz que não
temeu por sua vida quando notou a movimentação de ambulâncias.
Mas, nova-iorquino, ficou chocado mesmo foi quando viu as cenas dos aviões
colidindo com o World Trade Center. "É difícil olhar Manhattan
de longe e não ver mais as duas torres", afirmou a VEJA na entrevista
que segue.
Veja O Brasil está livre de ataques terroristas?
Lesser
Não. O terrorismo é global. O país de vocês
não é o local mais provável, mas continua sendo um
alvo possível. Não podemos esquecer o ataque terrorista
ao centro da comunidade judaica em Buenos Aires, no começo dos
anos 90. Aquela ação foi provavelmente organizada pelo Hezbollah,
do Líbano. Hoje vivemos num mundo muito mais globalizado. Todos
nós estamos expostos ao perigo. Ninguém está livre
do risco.
Veja
O senhor esperava um ato terrorista da magnitude que se viu
nos Estados Unidos, contra o World Trade Center e o Pentágono?
Lesser
Não. Ninguém esperava. Como especialista, obviamente
imaginava que em teoria algo assim poderia acontecer. Os responsáveis
por essa área no governo também trabalhavam com essa possibilidade.
Pensávamos em algo mais destrutivo, como ataques com armas atômicas.
Fomos todos pegos de surpresa.
Veja
Esses foram os piores ataques terroristas da história
da humanidade?
Lesser
É bastante possível. Certamente foram os mais dramáticos
e letais da história moderna do terrorismo. A escala dos ataques
foi catastrófica, mas não é comparável a um
ataque nuclear de pequena escala numa área urbana.
Veja
O governo americano falhou?
Lesser
Essa é uma das ironias desses ataques. O governo tomou várias
providências nos últimos anos. Tanto em termos de tentar
entender os riscos do terrorismo e adotar medidas para combatê-los
quanto de preparar operações de salvamento, que por sinal
foram ótimas. É claro que não se conseguiu prever
nem prevenir esses ataques. Há mais ironias nesses episódios.
Os terroristas seqüestraram aviões. Governos de várias
partes do mundo começaram a tomar medidas para evitar esse tipo
de ação há trinta anos. Elas foram uma resposta aos
seqüestros da década de 70. Como se viu, as máquinas
de raios X e todo o sistema de segurança dos aeroportos se revelaram
extremamente vulneráveis, apesar de todos os esforços. Essa
falha foi a peça-chave no plano dos terroristas. Alguém
poderia dizer que o problema é a ausência de sistemas de
defesa contra aeronaves em prédios de Nova York e Washington. Mas
a verdade é que os seqüestradores conseguiram controlar os
aviões.
Veja Os ataques a Nova York e a Washington são exemplos
do que os especialistas chamam de novo terrorismo?
Lesser
Exatamente.
Na época do velho terrorismo, havia grupos conhecidos com propostas
políticas bem definidas. Geralmente assumiam seus atos. Os países
que os patrocinavam não costumavam esconder o fato da comunidade
internacional. Os grupos que melhor traduziram esse modelo foram o IRA,
em sua época áurea, a Frente Popular para Libertação
da Palestina, as Brigadas Vermelhas, organizações ativas
nas décadas de 70 e 80. Hoje, a situação é
completamente diferente. Existem várias formas de terrorismo. Ainda
temos exemplos do velho terrorismo, como o ETA, na Espanha, e facções
radicais do IRA, da Irlanda do Norte. Mas também temos o novo terrorismo.
E os ataques a Washington e a Nova York são típicos: enorme
número de vítimas fatais, alvos simbólicos, ataques
suicidas e demora em assumir a autoria.
Veja Os objetivos são os mesmos de antes ou também
ocorreu uma mudança?
Lesser
Há muita diferença com relação a eles. Provavelmente,
esses ataques não têm um objetivo político preciso.
É mais uma motivação contra o sistema. Nada a ver
com a independência de um país ou com a intenção
de fazer uma chantagem política específica. É uma
expressão de fúria. Por isso, a tática usada e as
conseqüências são diferentes.
Veja É mais difícil combater o terrorismo hoje?
Lesser
Muito
mais. É complicado conseguir informações. Era mais
fácil monitorar grupos estabelecidos e países patrocinadores.
As táticas eram mais ou menos as mesmas: a bomba e as armas. Agora
temos muito mais causas, gente, grupos de todas as partes e patrocinadores
mais discretos. Tudo isso torna extremamente difícil o trabalho
das pessoas responsáveis pelas ações de contraterrorismo.
Veja Essa nova tendência é basicamente motivada
por grupos religiosos fanáticos?
Lesser
Eles
foram responsáveis por boa parte dos atos que relacionamos com
esse novo terrorismo. Mas é importante ressaltar que não
são apenas grupos islâmicos. Tivemos o exemplo do culto japonês
do gás sarin, de extremistas hindus e de grupos de praticamente
todas as religiões. Temíamos muito a ação
de cultos e seitas no ano passado por causa da virada do milênio,
o que felizmente não aconteceu. O termo terrorismo religioso é
bem amplo. É certo que um número grande de islâmicos
ao redor do mundo nutre ódio pelos Estados Unidos. Isso interage
com todo o debate antiglobalização. O World Trade Center
pode ser um alvo simbólico para fanáticos contrários
à globalização. Dito isso, é verdade que as
características dos ataques são de grupos religiosos.
Veja Desta vez, houve repercussão imediata e planetária
via televisão, com grande parte dos desdobramentos acompanhada
instantaneamente por milhões e milhões de pessoas. Isso
muda alguma coisa?
Lesser
Nos últimos anos, o número de ataques diminuiu e o de mortes
aumentou. O velho terrorismo calibrava muito bem suas ações
e o nível de violência. Queria espalhar o terror e chamar
a atenção, mas não chocar a ponto de provocar uma
reação muito forte na opinião pública. Não
queria perder o apoio de seus simpatizantes. Muitas vezes eram apenas
assassinatos de presidentes ou gente ligada ao governo. O novo terrorismo
é mais indiscriminado, mais visível e busca a destruição
de alvos simbólicos. Por isso, é mais letal. Há também
a questão da inovação. Os terroristas estão
mais espertos em termos táticos. À medida que os órgãos
de segurança fazem melhor seu trabalho, diminuindo a probabilidade
de atos tradicionais, os terroristas procuram ações mais
exóticas. Os ataques aos Estados Unidos dão a impressão
de ter sido feitos para maximizar a cobertura da mídia. Estou apenas
especulando, mas o timing foi incrível. As câmaras estavam
todas lá. Ainda não sabemos se eles esperavam a queda das
torres do World Trade Center. Há dúvidas técnicas
sobre isso. Talvez quisessem fazer algo espetacular e não contavam
com a queda.
Veja
Qual deve ser o papel da imprensa nessa hora?
Lesser
Os
terroristas cometem essas loucuras para chamar a atenção
da mídia. Mas a imprensa não tem escolha. O que poderia
fazer? Coisas como essas são históricas. A sede de informações
e análises foi enorme em todo o mundo. Nos tempos do velho terrorismo,
era diferente. Quando havia chantagem envolvida, era possível culpar
a imprensa por noticiar em alguns casos. Os ataques aos Estados Unidos
foram espetaculares. Não havia como escondê-los. Há
uma exceção. Entendo o mau humor de agentes secretos e pessoas
ligadas aos serviços de informação com alguns vazamentos
para a imprensa. Não podemos discutir métodos e fontes.
Isso poderia diminuir nosso poder de prevenir ataques no futuro.
Veja Os ataques, resultantes de seqüestros de aviões
comerciais, feitos em estilo aparentemente convencional, de acordo com
as poucas informações disponíveis no primeiro momento,
não poderiam ter sido evitados?
Lesser
Sim, mas esse exercício de raciocínio é irrelevante
agora, depois que tudo aconteceu. O serviço de segurança
dos aeroportos poderia ter sido mais severo, as informações
do serviço secreto poderiam ter sido mais específicas, o
pessoal do controle de tráfego aéreo poderia ter descoberto
que havia algo errado logo em seguida, mas precisamos prestar atenção
em uma coisa mais importante. A questão não é como
prevenir um ato isolado, mas como deter o terrorismo.
Veja É possível acabar com o terrorismo?
Lesser
A
expectativa das pessoas é que as ações de contraterrorismo
sejam perfeitas. Isso é impossível. Terrorismo é
comparável ao crime. Podemos reduzir o índice de assaltos,
mas não acabar de vez com eles.
Veja O sucesso dos ataques ao Pentágono e ao World
Trade Center, do ponto de vista pragmático, irá motivar
outros atentados?
Lesser
Temo
que o risco de que isso aconteça exista. Precisamos nos preocupar
com essa possibilidade.
Veja Quais são os grupos terroristas de motivação
religiosa mais perigosos do mundo hoje?
Lesser
Essa
questão é muito complexa. Na verdade, não sabemos.
Conhecemos as redes, mas elas não nos dizem muito. São grupos
sem definição, de indivíduos, de pequenas células,
até com free lancers. Mudam continuamente.
Veja
O milionário Osama bin Laden pode ser considerado o terrorista
mais perigoso do planeta?
Lesser
É
possível que sim. Mas não podemos esquecer que estamos tratando
de redes. O nome de Bin Laden pode até estar no centro da rede,
mas não é só ele. Acabar com Bin Laden poderá
ser bom, mas não resolverá o problema do terrorismo.
Veja
Poucas horas depois dos ataques a Nova York e a Washington,
ficou claro que o mundo não seria mais o mesmo, embora haja muita
divergência sobre o rumo que tudo isso tomará. Em sua opinião,
quais serão as principais alterações nas áreas
de política internacional e de segurança, particularmente
em que isso poderá afetar a vida do cidadão comum?
Lesser
As
mudanças serão dramáticas e em vários níveis.
Medidas técnicas serão tomadas. Haverá mais segurança
em aeronaves, em prédios e em instituições visadas
por terroristas. A maior mudança, e que afetará nossa vida
no longo prazo, é a forma como pensamos em segurança. Não
apenas nos Estados Unidos, mas em todas as partes do mundo. Em termos
de política internacional, os Estados Unidos deverão modificar
sua estratégia no Oriente Médio e sua relação
com países ligados a grupos terroristas. Espero que comecemos a
pensar nas causas do terrorismo contra os Estados Unidos, de onde vem
esse ódio. Coisas que começam hoje e explodem daqui a décadas.
Washington passará a medir muito bem o grau de cooperação
de outros países na luta contra o terrorismo. Isso será
um dos critérios centrais da política americana. Os Estados
Unidos não correm muitos riscos externos no atual cenário
internacional. Houve muita discussão sobre quanto o país
era vulnerável a ataques internos. O que aconteceu muda completamente
tudo isso.
Veja Não é uma contradição o
governo americano falar tanto na criação de um escudo antimíssil
enquanto os Estados Unidos estão vulneráveis a ataques tecnologicamente
mais banais?
Lesser Não. O problema central é o mesmo:
a defesa do território nacional. É possível que algumas
prioridades mudem. Mais atenção a ataques não convencionais,
como o que vimos, e menos para o escudo antimíssil. Não
tenho dúvida de que a defesa receberá mais recursos no futuro.
O apoio da comunidade internacional também será maior. É
crucial montar uma rede internacional de combate ao terrorismo. Esse não
é um problema apenas americano. Na verdade, é provável
que a ação preventiva se intensifique nos Estados Unidos,
levando os terroristas para outras regiões.
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