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Sérgio
Abranches
O vôo da águia
vingadora
"O
mundo está imobilizado pela expectativa
de dois desastres mundiais: uma recessão
global e a primeira guerra do século XXI"
Ilustração Ale Setti
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Quando George Bush tomou posse, escrevi, aqui, que faria "um governo ultraconservador"
e poderia "cair na tentação militarista para resolver suas
fragilidades políticas". Não foi preciso. O bárbaro
ataque terrorista colocou a maioria absoluta dos americanos ao lado de
seu presidente, dando-lhe uma base legítima para exercer plenamente
a função que mais valoriza entre todas as que são
atribuídas ao presidente americano: a de comandante-em-chefe da
nação. Os terroristas mostraram o que Bush dizia desde a
campanha e ninguém levava a sério: os Estados Unidos são
vulneráveis. Claro que essa vulnerabilidade não se resolve
com o escudo antimíssil. Ele nada poderia contra aviões
de carreira seqüestrados em vôos domésticos. Mas quem
liga? A América tem de mostrar que não perdeu a garra, nem
aceita agressões dessa natureza.
Essa visão
é quase unânime nos EUA. Ouvi, na TV americana, sete importantes
ex-secretários de Estado, democratas e republicanos. Todos falaram
a mesma coisa. Foi um ato de guerra contra os Estados Unidos, que precisa
ter resposta ampla, enérgica e definitiva. Henry Kissinger, o mais
qualificado de todos, fez a melhor síntese desse consenso. Para
ele, foi uma ação integrada, que deve ter uma resposta integrada.
Não adiantaria apenas um golpe retaliatório. "Quem fez isso
tem recursos substanciais, organização e apoio." Não
bastaria caçar e punir os terroristas. Os Estados Unidos teriam
de neutralizar os governos que abrigam ou encorajam o terrorismo internacional.
Essas mesmas
expressões estiveram nas declarações de parlamentares
de ambos os partidos e do próprio presidente Bush, que não
vê distinção entre os terroristas e quem os abriga.
A tradução desse discurso tirado dos manuais de segurança
nacional é inequívoca: uma retaliação estratégica,
dirigida não apenas a grupos terroristas, mas aos países
que têm dado guarida a eles. Parece não haver chance de um
desfecho que não envolva uma ação militar de proporções
relevantes. Respondendo à comparação que está
na cabeça de todos os americanos com o ataque a Pearl Harbor, Kissinger
disse duas coisas importantes. Primeiro, o ataque terrorista foi mais
grave porque atingiu solo americano. O ataque japonês se limitou
ao mar territorial do país. Segundo, os que fizeram esse ataque
ao World Trade Center e ao Pentágono devem ter o mesmo tratamento
que os responsáveis por Pearl Harbor.
Esse consenso
expõe o risco de uma guerra inesperada, cujo teatro pode se estender
do Himalaia, onde está o Afeganistão que faz fronteira
com o Irã e abriga Osama bin Laden, principal suspeito pelos atentados
, até a Líbia, no norte da África. Um cenário
que parecia impossível e agora se tornou provável, embora
ainda não seja inevitável.
A virada
ideológica na Casa Branca, revivendo um clima de guerra fria, desta
vez centrada nos conflitos do Oriente Médio e na beligerância
contra Saddam Hussein, pode ter provocado a radicalização
dos grupos terroristas da região. Mas nada justifica esses ataques
desumanos. Essa nova atitude internacional dos Estados Unidos coincide
com ganhos de organização, articulação e entendimento
entre várias organizações paramilitares no Oriente
Médio.
O ataque
terrorista unificou o país em torno de um presidente que marchava
para uma das mais vertiginosas perdas de popularidade e credibilidade
da história recente da Presidência americana. A polarização
que o próprio radicalismo de Bush e sua gente havia recrudescido
acabou quando o primeiro avião atingiu o World Trade Center. A
resposta americana terá proporções talvez inéditas,
dada a convergência de circunstâncias, que soma um presidente
belicista à ousadia de terroristas e outros grupos políticos
que lutam contra a hegemonia americana.
Quando o
mundo entra em uma trajetória recessiva, a ação dos
terroristas e a presumida retaliação americana projetam
o preço do petróleo em uma nova escalada, isso pode reduzir
o fluxo global de investimentos e atingir a saúde financeira de
empresas já combalidas pela depressão recente da bolsa americana.
Pior ainda, cria-se novamente um clima de tensão internacional,
inédito desde o fim da guerra fria. O mundo está imobilizado
pela expectativa de dois desastres mundiais: uma recessão global
e a primeira guerra do século XXI. Tudo dependerá do escopo
do vôo da águia americana em sua missão de vingança.
Sérgio
Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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