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Edição 1 718 - 19 de setembro de 2001
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Sérgio Abranches

O vôo da águia vingadora

"O mundo está imobilizado pela expectativa
de dois desastres mundiais: uma recessão
global e a primeira guerra do século XXI"



Ilustração Ale Setti


Quando George Bush tomou posse, escrevi, aqui, que faria "um governo ultraconservador" e poderia "cair na tentação militarista para resolver suas fragilidades políticas". Não foi preciso. O bárbaro ataque terrorista colocou a maioria absoluta dos americanos ao lado de seu presidente, dando-lhe uma base legítima para exercer plenamente a função que mais valoriza entre todas as que são atribuídas ao presidente americano: a de comandante-em-chefe da nação. Os terroristas mostraram o que Bush dizia desde a campanha e ninguém levava a sério: os Estados Unidos são vulneráveis. Claro que essa vulnerabilidade não se resolve com o escudo antimíssil. Ele nada poderia contra aviões de carreira seqüestrados em vôos domésticos. Mas quem liga? A América tem de mostrar que não perdeu a garra, nem aceita agressões dessa natureza.

Essa visão é quase unânime nos EUA. Ouvi, na TV americana, sete importantes ex-secretários de Estado, democratas e republicanos. Todos falaram a mesma coisa. Foi um ato de guerra contra os Estados Unidos, que precisa ter resposta ampla, enérgica e definitiva. Henry Kissinger, o mais qualificado de todos, fez a melhor síntese desse consenso. Para ele, foi uma ação integrada, que deve ter uma resposta integrada. Não adiantaria apenas um golpe retaliatório. "Quem fez isso tem recursos substanciais, organização e apoio." Não bastaria caçar e punir os terroristas. Os Estados Unidos teriam de neutralizar os governos que abrigam ou encorajam o terrorismo internacional.

Essas mesmas expressões estiveram nas declarações de parlamentares de ambos os partidos e do próprio presidente Bush, que não vê distinção entre os terroristas e quem os abriga. A tradução desse discurso tirado dos manuais de segurança nacional é inequívoca: uma retaliação estratégica, dirigida não apenas a grupos terroristas, mas aos países que têm dado guarida a eles. Parece não haver chance de um desfecho que não envolva uma ação militar de proporções relevantes. Respondendo à comparação que está na cabeça de todos os americanos com o ataque a Pearl Harbor, Kissinger disse duas coisas importantes. Primeiro, o ataque terrorista foi mais grave porque atingiu solo americano. O ataque japonês se limitou ao mar territorial do país. Segundo, os que fizeram esse ataque ao World Trade Center e ao Pentágono devem ter o mesmo tratamento que os responsáveis por Pearl Harbor.

Esse consenso expõe o risco de uma guerra inesperada, cujo teatro pode se estender do Himalaia, onde está o Afeganistão – que faz fronteira com o Irã e abriga Osama bin Laden, principal suspeito pelos atentados –, até a Líbia, no norte da África. Um cenário que parecia impossível e agora se tornou provável, embora ainda não seja inevitável.

A virada ideológica na Casa Branca, revivendo um clima de guerra fria, desta vez centrada nos conflitos do Oriente Médio e na beligerância contra Saddam Hussein, pode ter provocado a radicalização dos grupos terroristas da região. Mas nada justifica esses ataques desumanos. Essa nova atitude internacional dos Estados Unidos coincide com ganhos de organização, articulação e entendimento entre várias organizações paramilitares no Oriente Médio.

O ataque terrorista unificou o país em torno de um presidente que marchava para uma das mais vertiginosas perdas de popularidade e credibilidade da história recente da Presidência americana. A polarização que o próprio radicalismo de Bush e sua gente havia recrudescido acabou quando o primeiro avião atingiu o World Trade Center. A resposta americana terá proporções talvez inéditas, dada a convergência de circunstâncias, que soma um presidente belicista à ousadia de terroristas e outros grupos políticos que lutam contra a hegemonia americana.

Quando o mundo entra em uma trajetória recessiva, a ação dos terroristas e a presumida retaliação americana projetam o preço do petróleo em uma nova escalada, isso pode reduzir o fluxo global de investimentos e atingir a saúde financeira de empresas já combalidas pela depressão recente da bolsa americana. Pior ainda, cria-se novamente um clima de tensão internacional, inédito desde o fim da guerra fria. O mundo está imobilizado pela expectativa de dois desastres mundiais: uma recessão global e a primeira guerra do século XXI. Tudo dependerá do escopo do vôo da águia americana em sua missão de vingança.

 

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
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