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A crise do "de repente"
A idéia
de "revolução" deixa o século
com menos prestígio do que ao iniciá-lo
Até recentemente,
foi grande o prestígio da "revolução". A
revolução não era só o momento da grande
transformação. Era mais o momento da redenção,
quando a sociedade purgava os pecados do passado e
inaugurava uma era de virtudes. Era o recomeço ansiado
por uns tanto quanto temido por outros ansiado
como em certos tempos se ansiou pelo Messias e temido
como se temeu a vinda do Anticristo. O conceito de
"revolução", em que a velha ordem é extinta
em favor de outra, foi trazido ao mundo pela Revolução
Francesa, no fim do século XVIII. Tal era a pretensão
dos revolucionários franceses de estar inaugurando um
novo tempo que fizeram precisamente isso
inauguraram um novo tempo. Extinguiram o antigo
calendário e começaram um novo. O ano em que
proclamaram a República, 1792, passou a ser o ano 1.
A partir da Comuna
de Paris, oitenta anos depois, e da influência do
pensamento marxista, estabeleceu-se que revolução de
verdade era a que mexia com os fundamentos da sociedade.
Trocando em miúdos, a que mexia com a propriedade. Vale
dizer que revoluções dignas desse nome seriam só as
socialistas, mas isso não impediu que, neste século,
movimentos de variados ideários, ou mesmo de ideário
algum, recorressem ao prestígio da palavra
"revolução". No Brasil, sucessivas
quarteladas reivindicaram esse rótulo. Não importa. O
que interessa aqui é que não só as revoluções
socialistas, mas também alguns dos golpes de Estado mais
tacanhos, tiveram em comum a pretensão de revogar o
passado e começar tudo de novo. Por isso mesmo, a
"revolução" sai deste século em pior forma
do que nele entrou. Seus propósitos soam hoje como
manifestações de onipotência.
A idéia de
"revolução", presente na História dos
últimos 200 anos, confina com outra, muito mais antiga
a de "conversão". A conversão é a
revolução na escala do indivíduo. Sua história
começa na estrada de Damasco, no século 1 do nosso
calendário o mesmo que a Revolução Francesa
tentou em vão revogar , com o episódio vivido
pelo soldado Saulo, perseguidor de cristãos. De repente
ele é paralisado por uma luz ofuscante, cai do cavalo e
ouve uma voz do céu: "Saulo, por que me
persegues?" Por algum tempo ele ficará cego, tal a
claridade que o arrebatou. Dá-se assim, em
circunstâncias que não poderiam ser mais espetaculares,
a conversão de São Paulo, um dos pilares do
cristianismo.
No fundo, as
revoluções copiam as conversões. Chegam mesmo a
tomar-lhes emprestados certos elementos religiosos,
embora, tirante as islâmicas, não sejam religiosas e
freqüentemente até se revelem anti-religiosas, a
começar da francesa. O rito e a retórica são tomados
de empréstimo à religião. O rito é purificador, o que
se concretiza muitas vezes, para não dizer sempre, com o
sangue da violência, e a retórica é a da "nova
aurora". Além disso, as revoluções copiam as
religiões na intenção de implantar um novo código de
conduta moral ao rebanho. A Revolução Francesa
deblaterou contra a devassidão do Antigo Regime tanto
quanto a cubana contra os bordéis dos tempos do ditador
Batista. Paris e Havana, de Sodoma e Gomorra, seriam
convertidas em cidades santas.
Nem todas as
conversões são repentinas. Há também as que se dão
lentamente, ao cabo de um processo de pequenas, às vezes
imperceptíveis, mutações. As que se parecem com as
revoluções são as repentinas. As lentas correspondem
aos processos de transformação social de longa
duração. As conversões repentinas ganham em
teatralidade. Quase dezenove séculos depois de São
Paulo, o poeta francês Paul Claudel (1868-1955) viveria
uma experiência de referência obrigatória no gênero.
Foi no Natal de 1886. Claudel, até então um católico
relaxado, filiado à religião apenas pela inércia da
tradição familiar, assistia à missa na Catedral de
Notre-Dame, em Paris, de pé, junto ao "segundo
pilar à entrada do coro, à direita do lado da
sacristia", segundo descreveu, e ouvia o Magnificat,
quando se deu o fenômeno que marcou sua vida: "Em
um instante meu coração foi tocado, e eu
acreditei".
As revoluções
também ganham em teatralidade sobre os processos sociais
lentos. Elas oferecem cenários como a tomada do Palácio
de Inverno, em São Petersburgo, enquanto os processos
sociais lentos são quase sempre invisíveis. Em
compensação perdem, tanto as revoluções quanto as
conversões que se assemelham a elas, em credibilidade e
eficácia. Conversões em que as pessoas são como que
fulminadas por um raio, sem aviso, assemelham-se a
milagres, e nestes tempos até Roma reluta em aceitar
milagres. Ambas, as conversões súbitas e as
revoluções, pretendem desencadear intervenções
fulminantes sobre o fluxo do tempo, despencando sobre ele
como guilhotina e cortando-o em duas partes: um
"antes" e um "depois". Seria isso
possível? Em nossa época escolada, consciente da força
das continuidades, reage-se com ceticismo. Vivemos hoje
uma crise do "de repente".

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