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Home  »  Revistas  »  Edição 2126 / 19 de agosto de 2009


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Livros

Terrorismo sobrenatural

O cineasta mexicano Guillermo del Toro, de Hellboy, estreia
como escritor com uma história de vampiros


Isabela Boscov

Chris Buck/Corbis Outline/Latinstock
MONSTROS DE FILME B
Guillermo del Toro: o demoníaco não é uma lenda – é o que os homens fazem uns aos outros

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Um Boeing 777 vindo de Berlim aterrissa normalmente no Aeroporto JFK, em Nova York. E então fica lá, parado na pista, às escuras, sem que se perceba sinal de vida das mais de 200 pessoas a bordo ou do próprio equipamento. Todas as agências governamentais convergem para a aeronave, suspeitando de terrorismo. Quando nada explode, e quando se constata que todos os passageiros e tripulantes estão mortos em seus assentos, como se nunca tivessem pressentido seu fim, hipóteses disparatadas começam a ricochetear. Mas nenhuma faz sentido. Isso porque, em Noturno (tradução de Sérgio Moraes Rego e Paulo Reis; Rocco; 464 páginas; 46,50 reais), o avião é uma versão contemporânea do Demeter, o navio de velas negras que, no Drácula do irlandês Bram Stoker, levava o morto-vivo Conde Vlad para a Inglaterra. Logo, Nova York ficará parecida com a Transilvânia. Os mortos se levantam, sedentos de sangue, e, por meio de um apêndice desenvolvido a partir de sua traqueia, aferroam e dessangram todos os que encontram – começando, sempre, pelos que lhes eram mais queridos em vida. Mas, na história concebida pelo cineasta mexicano Guillermo del Toro e assinada em parceria com o escritor Chuck Hogan, esses vampiros não têm beleza gótica nem sofrem de mal-estar existencial. São mais parecidos com zumbis de filme B: criaturas sem mente, que, como descobre o prota-gonista do livro, o epidemiologista Ephraim Good-weather, na verdade não passam de veículos para um vírus.

Está aí a razão pela qual a primeira metade de Noturno é tão envolvente e soturna – e pela qual sua segunda metade deixa tanto a desejar. Em filmes como os dois Hellboy e o belíssimo O Labirinto do Fauno, que fervilham com sua imaginação exuberante, erudita e crivada de angústia, Del Toro cria imagens sempre únicas e poderosas. No livro, contudo, o trabalho pesado ficou a serviço de um coautor – que recebeu de Del Toro uma sinopse detalhada. E o talento de Hogan para evocar imagens não tem nada de extraordinário. É possível que, em um filme dirigido pelo mexicano, a língua descomunal com que os vampiros arpoam suas vítimas parecesse tétrica e hedionda; nas páginas de Noturno, ela é só vagamente repulsiva, e um bocado pueril.

Muitos dos temas recorrentes de Del Toro, é verdade, ajudam a alicerçar Noturno, como o da monstruosidade da guerra. O vampiro-mestre que desencadeia esse apocalipse sobre Nova York se tornou profundamente corrupto por ter se alimentado tempo demais nos campos de extermínio nazistas – e, em Manhattan, é inexoravelmente atraído para as ruínas das Torres Gêmeas. O demoníaco, para Del Toro, não é uma lenda, uma abstração nem algo divino; é o que os homens fazem uns aos outros. Como Noturno é a primeira parte de uma trilogia, ainda se pode esperar uma correção de rumo – e que o ci-neasta prevaleça sobre o autor de thrillers. Aí, sim, aquele sentido agudo para o mal e o macabro que se percebe no início do livro talvez venha a se desdobrar plenamente.

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